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Cidades de plástico

Maceió e região descartam cerca de 400 toneladas de garrafas PET por mês e menos da metade é reciclada

Cidades de plástico

Maceió e região descartam cerca de 400 toneladas de garrafas PET por mês e menos da metade é reciclada

Reportagem Dayane Laet e João Victor Souza Texto e edição Gilson Monteiro— em 11 de maio de 2018

Grandes organizações ambientalistas já alertam para o estrago causado pelo plástico ao meio ambiente. Com o descarte inadequado, já estamos criando verdadeiros “oceanos de plástico” mundo afora. Uma verdade incômoda que podemos constatar olhando para nosso “próprio quintal”, onde os efeitos mais graves não tardam, caso continuemos ignorando velhos mantras da educação ambiental como descartar o lixo corretamente.

Sem acreditar que largar por aí uma simples garrafinha de água mineral pode trazer prejuízos incalculáveis ao ecossistema, encontramos todo tipo de recipientes feitos com Tereftalato de Etileno, o conhecido PET, em qualquer lugar onde haja presença humana em Maceió. Das praias dos cartões postais aos mangues, criamos um rastro de sujeira que prejudica o meio ambiente e a vida animal.

Para saber a real dimensão da montanha de PET - o tipo de plástico mais usado em nosso dia a dia - produzida diariamente na capital alagoana e região, que não têm números oficiais, o TNH1 foi conhecer uma empresa de beneficiamento, a única da capital. E os números impressionam. Por mês, a empresa capta 200 toneladas de PET que a população descarta em sua rotina diária em forma de garrafas de refrigerante, material de limpeza, cosméticos e outros produtos.

Mas todo esse volume reciclado esconde um problema de igual tamanho ou ainda maior. Considerando o último Censo da reciclagem do PET no Brasil, apenas 51% das embalagens pós-consumo são recicladas. Por aqui, esse número pode ser ainda menor, considerando que a coleta seletiva e a reciclagem, avançam, mas ainda a passos lentos. Com isso, a estimativa é de que, no mínimo, outras 200 toneladas do polímero PET sejam descartadas no meio ambiente.

Demorando cerca de 400 anos para se decompor totalmente, o PET acaba indo parar no solo, canais, rios e oceanos. No bioma marinho, já se registram cenas chocantes - algumas captadas aqui mesmo no litoral alagoano – com animais mortos ou feridos por consumir fragmentos de plástico confundidos com alimento.

Sem uma mudança severa de comportamento, adotando-se níveis, digamos, mais civilizados de coleta seletiva e reciclagem, poderemos caminhar para a formação de verdadeiras “cidades de plástico”, poluídas e insalubres para todos.

RECICLAGEM: CERCA DE 200 MIL QUILOS DE PLÁSTICO A MENOS NO MEIO AMBIENTE TODO MÊS


Todo o trabalho dos catadores autônomos ou reunidos em cooperativas deságua nas empresas de beneficiamento. Para conferir o lado positivo dessa história - o plástico tirado da natureza para a reciclagem - o TNH1 visitou uma beneficiadora de PET, a única do ramo na capital, onde, por mês, 500 toneladas de garrafas são transformadas em ‘flake’, o floco resultado da trituração do PET. Desse total, 200 toneladas vêm da capital e região metropolitana.

Na Maceió PET, no bairro Cidade Universitária, máquinas “engolem” centenas de quilos de plástico durante 11 horas por dia para serem triturados e repassados a indústrias que empregam o PET na fabricação de novas embalagens, roupas, resinas, e inúmeros outros produtos.

Considerando que 1 kg do material conta com cerca de 20 garrafas PET, de diferentes tamanhos, a reciclagem retira, hoje, uma média de 4 milhões de garrafas PET do meio ambiente na capital e região metropolitana.

Cercado por pilhas de garrafas a serem trituradas, o diretor comercial da empresa, Carlos Henrique de Lira, nos guiou pela visita à fábrica. Na entrada já somos “recepcionados” por fardos imensos de PET, os “big bags”, com o plástico ainda separado pela primeira triagem feita, em parte, nas cooperativas, que separou as garrafas do lixo comum. Em seguida, as garrafas são separadas por cor e prensadas.

Já na central de reciclagem, as embalagens são moídas em máquinas trituradoras e transformadas em flocos de plástico. Em seguida, esses flocos passam por um processo de lavagem e descontaminação para serem embalados para transporte.

“É muito plástico. Primeiro temos esse processo de trituração nas máquinas. Depois tudo isso vai para a indústria, que faz a resina, que é distribuída para o mercado para ser empregada em todo tipo de embalagem e outros produtos”, explica Lira.

Assista no vídeo parte do processo de beneficiamento do plástico PET. Por questões de segurança, parte do processo não pôde ser filmada.

De PET em PET, catadores promovem o sustento e a sustentabilidade


Antes de compor a montanha de fardos na empresa de beneficiamento, o PET percorre um caminho longo capitaneado pelas hábeis mãos dos catadores de material reciclável.

Enquanto fazem uma verdadeira assepsia na cidade, e se sustentam financeiramente, os catadores recolhem todo o material nas ruas, com ou sem coleta seletiva. A próxima parada pode ser tanto as cooperativas de reciclagem quanto as empresas de beneficiamento, como a visitada pela reportagem.

Mas vamos “congelar” a etapa da coleta para conhecer melhor o trabalho de pessoas como Maria José Lins, a popular “Meire”. Personagem crucial para que nossas 200 mil toneladas de PET sejam recicladas, ela trabalha recolhendo material reciclável há 14 anos. Ex-funcionária da extinta Cobel, ela e outras 21 pessoas na mesma situação decidiram recolher materiais que pudessem ser reaproveitados na parte alta da capital. Hoje ela preside uma cooperativa, a Cooprel, no bairro de Antares.

Seguindo com os números sempre grandiosos do PET, com esse trabalho, a cooperativa comandada por Meire recolhe por mês, sozinha, 1,5 tonelada somente de garrafas e recipientes fabricados com PET.

Investimento público leva profissionalização a cooperativas


O fim dos lixões transformou os antigos “catadores de lixo” em agentes ambientais que catam material reciclável. A mudança na nomenclatura revela também o começo de uma profissionalização de um serviço que agrega cada vez mais valor, tanto ambiental quanto financeiro.

Desde o ano passado, as quatro cooperativas da capital são contratadas pela prefeitura de Maceió, que investe R$ 40 mil mensais em cada uma. O projeto, que tem o apoio do Ministério Público e da Braskem, levou profissionalização para o trabalho dos catadores, que são incubidos de contratar assistência técnica.

"Esse projeto atende à Política Nacional de Resíduos Sólidos, onde priorizamos a contratação de cooperativas para a coleta seletiva. Essas cooperativas, com o investimento realizado, contrataram técnicos que levaram um nível maior de profissionalização para a atividade. Eles também atuam na parte de educação ambiental", explica Liz Araújo, engenheira ambiental e assessora técnica da Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum).

O resultado são os próprios integrantes das cooperativas quem explicam. “Recebemos muitos currículos para trabalhar, mas não temos vagas. Hoje já temos pessoas que vêm do interior para entregar material e já precisamos até de espaço para essas pessoas pernoitarem aqui”, afirma Maria José Lins, da Cooprel, no bairro Antares.


Coleta seletiva cresce, mas ainda não emplaca entre os maceioenses


O trabalho das cooperativas avançou – hoje, Maceió conta com 18 mil residências com coleta seletiva do lixo cadastradas pela prefeitura – mas ainda estamos distante de um volume capaz de tirar do meio ambiente a maior parte do material reciclável como o PET descartado.

O número, divulgado recentemente no I Simpósio de Coleta Seletiva de Alagoas, realizado em março deste ano, representa cerca de 7% dos domicílios da capital, mas poderia chegar a 24% caso todos os moradores dos bairros atendidos pelas cooperativas contratadas pelo município.

"As cooperativas contratadas pela Prefeitura ficam responsáveis pela coleta nessas residências cadastradas, e foi feito um trabalho de educação ambiental. Com isso tivemos um avanço importante, mas é um trabalho que precisa da participação de várias partes, pois se todos os domicílios dos nove bairros que integram o projeto separassem seu lixo e entregasse para as cooperativas, o número de residências com coleta seletiva já subiria para 24%", explica Liz Araújo, engenheira ambiental e assessora técnica da Superintendência de Limpeza Urbana de Maceió (Slum).

A prova da baixa adesão à coleta seletiva é que, do total de 500 toneladas recebidas mensalmente pela empresa de beneficiamento de PET visitada pela reportagem, a maior parte, 300 toneladas, vem de outros estados.

"Trezentas 300 toneladas/mês, vêm de Sergipe, Ceará e Rio Grande do Norte. As cooperativas não conseguem abranger a nossa necessidade, mas nós não deixamos de pegar o produto. Os catadores autônomos e as cooperativas são uma parte importante em nosso trabalho, mas não dão conta das necessidades. Falta mais incentivo para a coleta, seja em condomínios, casas ou comércio. É necessário investir pesado na coleta seletiva", afirma o empresário, Carlos Henrique de Lira.

Pesquisadores alagoanos desenvolvem plástico ecológico



Se ainda estamos longe de resolver a equação descarte x reciclagem, a tecnologia pode apontar saídas alternativas para o problema. Um exemplo saiu daqui mesmo de Alagoas. Equipe de pesquisa do Instituto Federal de Alagoas (IFAL) de Maceió desenvolveu o “bioplástico”, um plástico ecológico com uma série de vantagens em comparação com o material usado atualmente pela indústria.

Com ingredientes que mais parecem uma receita culinária - amido de milho, batata inglesa, ácidos derivados de limão e laranja, farinha de trigo, vinagre e açúcar – alunos do laboratório de Química do IFAL criaram um plástico ecológico que pode servir de alternativa ao plástico tradicional. O resultado foi o "bioplástico inovador”, com resistência, usabilidade, baixo custo e o mais importante, com tempo de decomposição de dois a três anos, um período curtíssimo em comparação com os 100 anos que o plástico comum leva para desaparecer na natureza e dos quatro séculos de decomposição do PET.

A equipe trabalha para patentear o projeto. “Nossa pesquisa já foi encaminhada para o patenteamento e está na UFRN, onde já foi aprovada em duas das três fases, por isso já temos autorização de compartilhar nosso conhecimento”, afirma João Isidoro, que integra a equipe responsável pelo projeto, sob orientação da professora Vânia Nascimento Tenório.

O projeto já foi apresentado em nove estados brasileiros.

ALERTA: MEIO AMBIENTE AINDA É DESTINO DE PELO MENOS METADE DO PET DESCARTADO



“Já pensou tudo isso no aterro?”. A suposição do diretor da beneficiadora de PET, ao mostrar à reportagem o pátio da empresa lotado de garrafas PET, infelizmente, acaba se tornando, em parte, realidade.

Estima-se que as 200 toneladas de plástico reciclados mensalmente em Maceió e região representem menos da metade do total de garrafas PET descartadas pela população.

O último censo da reciclagem no Brasil, realizado pela Associação Brasileira da Indústria do PET no Brasil, a Abepet, assegura que 49% das garrafas PET utilizadas não são recicladas. Se o número aparenta ser grande, já foi maior. O mesmo levantamento registrou um crescimento de 12% entre 2013 e 2016, no país.

O tamanho do problema só aumenta quando consideramos o tempo de decomposição do PET, cerca de 4 séculos, bem superior que outras matérias como isopor e latas de alumínio. Com isso, a garrafinha que a nossa falta de consciência nos faz jogar em lugares de difícil recuperação, como galerias de esgotos, praias e ruas podem passar até 400 anos agredindo o meio ambiente e matando animais.

No mangue ou no mar, plástico agride o ecossistema e mata animais


Repetidas à exaustão, as lições de educação ambiental que nos mandam descartar corretamente o lixo ainda não foram apropriadas por todos, como visto nos números de domicílios que atendem ao chamado das cooperativas. É dessa parcela parte da culpa pelo plástico e outros materiais descartados inconsequentemente na natureza.

Em Maceió, pescadores retiram de lagoas como a Mundaú não apenas seu sustento, mas muito, muito lixo.

O Instituto Biota de Conservação, perto de duas décadas atuando no litoral alagoano, conhece bem os estragos e o drama de espécies que confundem o plástico com alimento. Os voluntários do projeto colecionam casos que mostram a presença do plástico no litoral alagoano. Em um deles, em 2013, uma tartaruga em processo de reabilitação chegou a expelir plástico nas fezes.

Sabemos que o plástico, de maneira geral, é um grave problema para a vida marinha, pois os animais os confundem com alimento. Além disso, muitos deles não conseguem se livrar dos restos de plástico e terminam morrendo, presos a eles.

Bruno Stéfanis, diretor executivo do Instituto Biota.

Se no mar o plástico intoxica a água e mata animais, no solo traz outros prejuízos, não menos graves. Ou seja, armazenar o plástico em aterros sanitários, também não é uma solução. Como explica a professora do curso de química do Ifal, Vânia Nascimento.

“No solo o plástico pode impedir o escoamento da água, como também entupimento de esgotos. Além de impedir o crescimento de alguns tipos de vegetais. De fato, o plástico prejudica muito o meio ambiente”, explica a professora.

Mais de 95% do lixo nas praias é composto por plástico


Seja onde for o litoral, a presença humana nas praias brasileiras deixa um rastro de sujeira e degradação. E 95% desse lixo são é composto por itens feitos de plástico, como garrafas, canudos, copos descartáveis, embalagens de sorvete e redes de pesca.

A conclusão, divulgada em janeiro deste ano, é resultado de um monitoramento realizado desde 2012 pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), em parceria com o Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida).

A estimativa é de que 80% dos resíduos sólidos tenham origem terrestre. A forma como ele chega até o oceano está a gestão inadequada do lixo urbano e as atividades econômicas (indústria, comércio e serviços), portuárias e de turismo.

Os 20% restantes têm origem nos próprios oceanos, gerados pelas atividades pesqueiras, mergulho recreativo, pesca submarina e turismo, como os cruzeiros, por exemplo.

Realidade se repete no litoral alagoano


Em Alagoas, a equipe do projeto ‘Nossa Praia’, do Instituto do Meio Ambiente (IMA), conhece bem, na prática, os números da pesquisa. Segundo Pedro Normande, coordenador do projeto que atua em todo o litoral alagoano, com certeza mais de 80% do lixo que os mutirões do ‘Nossa Praia’ promove é formado por plástico.

“Mostramos aos banhistas, comerciantes e ambulantes, que vivem da praia, a importância dessa limpeza, a importância dede reutilizar o PET e os problemas tanto para a população quanto para os animais marinhos”, afirma Normande, que é gerente de educação ambiental do Instituto.

Além da educação ambiental, o ‘Nossa Praia’ é responsável pela instalação de totens em todo o litoral alagoano onde é possível o banhista pegar sacolas biodegradáveis . “Também colocamos 500 lixeiras para as barracas das praias e tivemos uma adesão muito grande dos ambulantes, que entenderam o lema do projeto, que é ‘a praia é nossa, o lixo é seu’”, comemora.

Oceanos de plástico


Para quem ainda insiste na falta de bom senso, um documentário gravado no oceano pacífico que pode mudar a percepção de muitos sobre a tragédia que se tornou o plástico para a vida marinha.

O documentário ‘Oceanos de Plástico’, disponível no site de streaming, Netflix, foi realizado por uma equipe de produtores acompanhada por cientistas, conservacionistas e engenheiros.

Os documentarias acompanharam a jornada de dois exploradores em lugares remotos do planeta, registrando os danos provocados pela poluição plástica nos ecossistemas e na saúde humana.

Muitas cenas chocantes revelam uma verdade inconveniente sobre o que a humanidade produziu sob a superfície do oceano: uma imensa e trágica sopa de plástico.

Confira o trailer do documentário: