A rotina de um grupo de gays e travestis na cracolândia de São Paulo

11/08/2017 - 21:59 - Atualizado em 11/08/2017 - 21:59
(Crédito: Leandro Machado/BBC Brasil)

Elas estão se preparando para uma temporada dentro da cracolândia, no centro de São Paulo. São 9h de quinta-feira (20), e o plano é ficar quatro dias no chamado "fluxo", local onde a droga é consumida e vendida a céu aberto.

Desde novembro, elas formam um grupo de gays, travestis e transsexuais que vivem embaixo do elevado João Goulart, o Minhocão. Chamam essa pequena comunidade de "Maloca das Bichas", ou de "crack angels" - referência à droga usada por centenas de pessoas na região.

A prefeitura não sabe qual o tamanho do público LGBT que frequenta a cracolândia - no total, a área chega a ter 900 pessoas. Em maio, a polícia realizou uma operação para desarticular o tráfico de drogas na região. Usuários de droga se dispersaram de duas ruas ocupadas pelo fluxo.

Na época, o prefeito João Doria (PSDB) chegou a anunciar o fim da cracolândia. No entanto, embora em menor proporção, o tráfico e o consumo da droga continuam em um ponto próximo do antigo fluxo.

"Visitei o fluxo algumas vezes e percebi que há um grande número de (pessoas) LGBT, e que esse público está bem inserido na rotina da cracolândia", diz Arthur Guerra, coordenador do Redenção, programa municipal de recuperação de viciados em crack. "Há um certo respeito por parte dos outros usuários, algo que talvez não exista em outros pontos da cidade."

As integrantes da "Maloca das Bichas", que chega a reunir mais de 20 pessoas, andam e dormem juntas para se proteger do inverno paulistano e também de possíveis ataques violentos. Compartilham comida, cobertores doados e caixas de papelão onde guardam seus pertences. A BBC Brasil acompanhou a rotina do grupo nas últimas semanas.

No último dia 19 de julho, foram elas que protestaram contra Doria quando ele apareceu na região para doar cobertores. Um dia antes, um morador de rua havia morrido sob suspeita de hipotermia.

Moradores de rua reclamam de que, apesar das doações, guardas municipais continuam retirando pertences de quem vive nas vias públicas.

'Uma grande festa'

Os membros da Maloca fazem incursões semanais à cracolândia - de três a quatro dias -, mas não vivem no fluxo, como boa parte dos dependentes. Costumam chamar os momentos em que estão fora do fluxo de "manque", um termo em francês que significa escassez.

Elas falam abertamente sobre a dependência de crack. Costumam mudar de opinião quando abordam uma possível recuperação. Por vezes, dizem que querem parar; em outras, encaram a cracolândia como uma grande festa.

Sasha Ohara, travesti de 23 anos, é um exemplo. Na quinta, dia de ir ao fluxo, calculou que fumaria 20 pedras de uma só vez. Parecia muito feliz. "Sou um caso sem solução, não consigo parar de fumar. Vou morrer usando droga", diz, pintando o rosto com maquiagem.

Em outro dia, confidenciou a vontade de interromper a espiral em que está inserida. Tentou parar várias vezes nos últimos anos, inclusive com internações. "Mas nunca consigo", diz.

A pedra apareceu aos 13 anos de idade, em sua cidade natal, Três Corações (MG). Em 2012, quando embarcou para São Paulo, tinha dois sonhos: reencontrar um ex-namorado por quem ainda era apaixonada e conhecer a cracolândia. Realizou só o segundo.

No ano passado, tentou parar com a droga e voltou para a família. Mas seus pais têm dificuldade em aceitar um filho travesti, conta. "Levei um namorado para casa. Não deu certo", diz Sasha. "Não é a família que abre mão da gente, nós é que abandonamos tudo". Depois da tentativa, retornou a São Paulo e se reuniu à Maloca das Bichas.

Essa grande quantidade de consumo de crack não é incomum. Uma pesquisa Datafolha entre os dependentes mostrou que eles fumam, em média, onze pedras por dia - gastam, em média, R$ 89 diariamente.

As beatas

Paulo Hermenegildo, de 34 anos, é uma espécie de líder e fundador da Maloca. Formou a comunidade em novembro do ano passado quando reencontrou na rua algumas amigas com quem tinha convivido em uma clínica de reabilitação no interior de São Paulo.

Dois meses antes, Paulo andava perto da rodoviária do Tietê (zona norte de SP) quando um homem o ofendeu com xingamentos homofóbicos. Houve briga e ele foi golpeado com uma pedra no rosto, que deixou uma cicatriz. "Na maloca a gente cuida uma da outra, somos unidas, nos protegemos. A gente só não divide o crack, porque aí é cada um por si", diz, dobrando os cobertores usados em mais uma noite fria.

Inicialmente, o grupo se alojava na avenida Amaral Gurgel, também embaixo do Minhocão. Segundo Paulo, comerciantes e moradores pagaram R$ 500 para que eles saíssem do local. "A gente vive recebendo esse tipo de oferta. Ninguém quer morador de rua na sua frente, ainda mais travestis e gays", diz.

O grupo vive essencialmente de pedir doações, tarefa apelidada de "manguear". Wesley, de 32 anos, diz que arrecada até R$ 300 por dia quando "mangueia" bem. "A gente conta uma história triste, no meu caso, a minha história de verdade. As pessoas costumam ter pena de travesti", afirma. Ele conta que entrou no crack depois de perder os pais em acidente de carro, em 2009.

Sasha Ohara explica o conceito de "beata", pessoa que doa dinheiro frequentemente. "Tenho beata que me dá R$ 50 de uma vez", diz. O dinheiro é usado para comprar comida, produtos de higiene, ou crack.

Hoje, o grupo fica próximo à estação Marechal Deodoro do metrô, local ocupado por dezenas de moradores de rua. A proximidade da estação ajuda em questões práticas: ali há um banheiro público, onde é possível "tomar banho" nas torneiras.

Sexo no fluxo

Pesquisa da prefeitura aponta que 20% dos dependentes da cracolândia têm sífilis; outros 8% são portadores de HIV e 15% têm tuberculose.

Segundo Arthur Guerra, do programa Redenção, a gestão Doria avalia a possibilidade de uma campanha contra o sexo inseguro na região. "Quando esse cenário vem temperado com uso de drogas é mais preocupante. Esses problemas (doenças) se potencializam (entre dependentes de crack)", diz.

Todas as pessoas que conversaram com a BBC Brasil disseram que sexo sem preservativo é comum no fluxo. Hotéis e pensões do entorno cobram R$ 5 por uma hora de permanência.

"No fluxo, as pessoas fazem qualquer coisa para conseguir crack", diz Paulo. "As travestis geralmente têm mais pedras, porque conseguem mais dinheiro mangueando. Então você imagina o que acontece...", explica.

Sasha Ohara revela que não existe muita preocupação com as doenças. "Nós chamamos a Aids de tia. Toda travesti da rua vive com a tia. Se não tem agora, vai ter um dia", diz.

"Sempre vai haver prevalência de doenças sexualmente transmissíveis entre a população mais vulnerável, como a LGBT", diz Nathalia Oliveira, presidente do Conselho Municipal de Políticas de Drogas e Álcool, órgão independente que fiscaliza ações da prefeitura na área. "A prefeitura precisa reforçar as campanhas de prevenção."

Reabilitação e internação provisória

Paulo conta que se viciou em crack durante uma temporada em um cruzeiro, onde trabalhou como cozinheiro. Depois, perdeu um namorado e mergulhou de vez.

Diz que escolheu e gosta da sua vida que leva nas ruas. "Estou nessa porque quero, uso crack porque quero", explica. "Entendo que, quando você faz essa escolha, abre mão de muita coisa, da sua higiene, da sua identidade. Mas nesse momento não penso em parar (com o crack)".

Wesley tampouco afirma ter intenção de se tratar. "Faz um mês que saí da clínica (de reabilitação). O corpo pede o crack, é uma necessidade, quem não usa não entende isso", diz.

Tratar de dependentes que não querem ajuda é um dos maiores desafios dos programas de reabilitação que atuam na cracolândia. Como os agentes de saúde podem convencer uma pessoa a aderir ao tratamento se ela gosta e quer continuar no crack?

Para Arthur Guerra, a solução seriam internações compulsórias, quando a Justiça determina tratamento forçado. Em maio, a gestão Doria pediu à Justiça autorização para retirar pessoas à força da cracolândia para avaliação médica - o pedido foi negado.

"Na minha visão de médico, entendo que uma pessoa não está bem se ela tem prazer em viver na cracolândia. Não posso jogar 40 anos de medicina e dizer que isso é uma coisa normal. É uma dependência gravíssima", diz Guerra.

Nathalia Oliveira, do conselho de políticas de drogas, critica ações de assistência social voltadas ao público LGBT, que é mais vulnerável "Não há albergues para trans e travestis, por exemplo. Muitas dessas pessoas têm medo de sofrer violência nos albergues comuns. Elas acabam nas ruas e andando em bando para se proteger".

Travestis já foram acusados de praticarem roubos e furtos na região central de São Paulo.

Sobre o público LGBT, a gestão Doria diz que a cidade tem quatro Centros de Cidadania que oferecem atendimento psicológico, jurídico, de assistência social e mediação de conflitos. Também há o programa Transcidadania, que atualmente tem 114 vagas de estudo preenchidas com transsexuais.

A prefeitura também afirma que já realizou 36 mil atendimentos na cracolândia desde a operação policial de maio.

Despedida

Embaixo do Minhocão, o grupo Maloca das Bichas se apronta para a temporada no meio da cracolândia. Paulo vai até o banheiro na estação e toma um banho na torneira. Sasha Ohara coloca uma saia e óculos escuros. Wesley vai de turbante.

Cinco travestis pulam a catraca do metrô para chegar ao destino mais rápido. Paulo se despede do repórter. "Agora é cada um por si", diz, e entra no trem.

Fonte: BBC Brasil