Morre apresentador de TV e chef americano Anthony Bourdain

08/06/2018 - 16:42 - Atualizado em 08/06/2018 - 16:45

Anthony Bourdain, apresentador de TV, escritor e chef americano de 61 anos, foi encontrado morto na manhã desta sexta-feira (8) em Kaysersberg, na França. Ele gravava um episódio do programa Parts Unknown, da CNN, na região da Alsácia. Segundo autoridades locais citadas pelo jornal The New York Times, a causa da morte foi suicídio.

Bourdain estava no auge. Cozinheiro desconhecido, ele ganhou fama ao publicar, em 1999, um artigo seminal na revista The New Yorker, chamado "Não Coma Antes de Ler Isto"-no qual, em plena era de glamorização dos chefs, ele relatava sua experiência na cozinha, mostrando um submundo de horrores (sujeira, produtos maquiados, drogas) invisíveis aos clientes.


"Ser chef é muito como ser um controlador de tráfego aéreo: você está constantemente lidando com a ameaça de desastre. Tem que ser mamãe e papai, sargento, detetive, psiquiatra e padre para uma equipe de hooligans oportunistas e mercenários, que você deve proteger das estratégias nefastas e muitas vezes tolas dos proprietários."
O conteúdo -que no ano seguinte, ampliado, virou o best-seller "Cozinha Confidencial"- era impactante, apesar dos muitos e óbvios exageros, que mais tarde ele confessaria. Mas o texto tinha incrível verve e bom humor. E não deixava de estar, digamos, inspirado em fatos reais.

Foi o começo da sua passagem de chef sem brilho no restaurante Les Halles, de Nova York, para o estrelato como escritor e apresentador. Ele publicou, entre outros, "Em Busca do Prato Perfeito" e "Ao Ponto" (lançados também no Brasil), e começou os programas de TV viajando pelo mundo com grande irreverência.Primeiro, A Cook's Tour, na Food Network; depois Anthony Bourdain: No Reservations no Travel Channel (que ganhou dois Emmy, o Oscar da televisão) e, desde 2013, Parts Unknown na CNN -a 11ª temporada estreou em maio.

A relevância dos programas estava em não se limitar ao mundo dos grandes chefs (que abordava), mas principalmente ao de manifestações de cozinha popular, com botecos, mercados e quiosques de rua normalmente fora dos holofotes mesmo em seus países.
"As melhores refeições da minha vida aconteceram em lugares pequenos que cobraram quase nada", disse em entrevista à Folha de S.Paulo em 2000.

Com o tempo foi acrescentando às pautas temas mais amplos -a série atual da CNN é mais sobre viagens e a cultura do que só sobre comida.
O exemplo extremo de conexão com temas locais aconteceu em 2006, quando ele gravava No Reservations em Beirute e eclodiram combates de uma guerra civil que deixou a equipe ilhada num hotel observando mísseis pela janela.
O episódio mostra que, antes de serem evacuados por militares americanos, Bourdain prepara improvisadamente um jantar na cozinha do hotel às escuras, saída espirituosa para a atração.
Bourdain gravou episódios no Brasil -em São Paulo, Rio, Pará, Bahia e Minas Gerais. Em sua última passagem por SP demonstrava certo tédio e fadiga pelo trabalho, um distanciamento que relegava o grosso das atividades para a enorme equipe que o acompanhava. Mas os resultados, na tela, sempre eram saborosos.

Com a língua solta e ferina, virou um personagem sempre pronto a fazer declarações debochadas e impactantes. Não poupava nem a si mesmo, ao abordar, por exemplo, seus problemas com drogas.
Há pouco fez declarações explosivas contra chefs como Mario Batalli, acusados de assédio sexual (sua namorada, a atriz Asia Argento, esteve na linha de frente das acusações contra Harvey Weinstein).
Era um chef sem brilho, mas um escritor ferino e, sobretudo, um grande e original divulgador da gastronomia.
Em sua primeira visita ao Brasil, em 2007, fomos ao Mercadão de São Paulo. Tentei, em vão, mostrar-lhe que o sanduíche com um palmo de mortadela e queijo quente era uma aberração, e que ele seria espancado por sua namorada italiana -ela viraria sua segunda mulher e mãe de sua filha, Ariane- se visse como ele comia o embutido italiano.

A diferença de altura entre nós era humilhante -Bourdain, de 1,93 m, e eu, com 1,75 m. Anos depois, subi em uma cadeira para revidar. Ele, meio azedo e mal-humorado, até riu.

Fonte: Josimar Melo/ Folha Press