Redação EdiCase
As semanas de moda internacionais realizadas entre fevereiro e março apresentaram as coleções de outono/inverno 2026/2027 e reforçaram tendências como sobreposições, alfaiataria e texturas marcantes. No Brasil, essas referências não chegam de forma literal. Com um outono marcado por oscilações de temperatura ao longo do dia, o guarda-roupa da estação precisa ser pensado com mais versatilidade, praticidade e equilíbrio entre estilo e conforto.
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Segundo prognóstico climático de outono divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a estação representa justamente a transição entre o verão quente e úmido e o inverno frio e seco, ajudando a explicar por que, no país, o vestir depende mais de adaptação do que de reprodução exata do que se vê nas passarelas.
Esse movimento também aparece fora do circuito da moda. Dados da Sigbol, escola de moda e costura, mostram aumento de 55% na procura por cursos nos primeiros meses de 2026, especialmente em aulas ligadas à costura básica, ajustes e transformação de peças. A informação indica uma mudança de comportamento importante: em vez de renovar todo o armário a cada troca de estação, os consumidores têm buscado atualizar, reaproveitar e reformar roupas que já possuem.
De acordo com Elizângela Gomes, professora da Sigbol, esse comportamento está diretamente ligado à forma como as tendências internacionais chegam ao dia a dia do consumidor brasileiro. “A referência vem das passarelas, mas no Brasil ela precisa ser reinterpretada. Não faz sentido copiar o look como ele aparece, porque o clima e a rotina são outros. A tendência entra quando ela pode ser adaptada com funcionalidade”, explica.
A seguir, conheça algumas das principais adaptações que vêm ganhando espaço no guarda-roupa brasileiro durante o outono!
As coleções de outono/inverno 2026 em Milão e Paris reforçaram a presença de camadas, alfaiataria e construções mais pensadas, além de um foco forte em peças versáteis e styling de transição. No Brasil, essa tendência aparece de forma mais leve: camisas abertas, blazers menos estruturados, tricôs finos e jaquetas de meia-estação entram no lugar de casacos pesados e composições excessivamente fechadas.
“A sobreposição segue como tendência, mas aqui ela precisa funcionar com leveza. A pessoa precisa conseguir tirar ou acrescentar camadas ao longo do dia sem comprometer o conforto”, afirma Elizângela Gomes.
Outra tendência forte vinda das passarelas europeias é a alfaiataria, especialmente em leituras mais contemporâneas e menos engessadas. Em vez de peças extremamente estruturadas, o Brasil tende a absorver essa referência por meio de blazers mais leves, calças de corte reto, coletes e conjuntos com tecidos mais maleáveis.
Na prática, isso significa trocar o peso visual por versatilidade. A alfaiataria continua presente, mas adaptada ao clima e ao uso cotidiano, com modelagens que permitam circular entre ambientes fechados, calor externo e mudanças de temperatura sem excesso.
As semanas de moda também vêm destacando texturas como tweed, camurça, franjas, tricôs e superfícies mais táteis, que ajudam a construir a linguagem do outono. Em Paris, por exemplo, o street style recente chamou atenção justamente pelo uso de textura, mistura de materiais e combinações mais expressivas.
No Brasil, essa inspiração costuma aparecer de forma pontual: uma peça com textura, um detalhe em camurça, um tricô fino, uma bolsa ou jaqueta que entregue a estação sem tornar o look inviável para temperaturas mais altas. Em vez de carregar na composição, o consumidor brasileiro tende a usar a textura como sinal de atualização.
Talvez uma das mudanças mais concretas deste outono seja o avanço da lógica de atualização do armário. Em vez de comprar tudo novo, o consumidor tem buscado caminhos para transformar as roupas que já possui. Ajustar barras, modernizar mangas, alterar modelagens, acinturar peças amplas ou transformar vestidos e camisas em novas composições são algumas das saídas mais buscadas.
A busca por reaproveitamento também dialoga com uma preocupação crescente com a sustentabilidade. Nesse contexto, o upcycling — prática de transformar peças já existentes em versões renovadas, sem descarte imediato — ganha espaço como uma resposta prática, estética e econômica.
Mais do que conserto, a ideia passa a ser atualização. Uma saia pode ganhar novo comprimento, uma camisa pode mudar de modelagem, um vestido pode receber novas camadas ou acabamentos.
No fim, a principal adaptação talvez seja de mentalidade. As tendências vistas nas semanas de moda europeias seguem influenciando cores, formas, texturas e composições. Mas, no Brasil, elas entram no armário de forma menos literal e mais funcional.
“A pessoa quer estar atualizada, mas também quer que aquela roupa faça sentido no clima, na rotina e no próprio armário. Por isso, o outono brasileiro tem mais a ver com adaptação inteligente do que com reprodução exata da tendência”, conclui Elizângela Gomes.
Por Clarissa Perillo
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