Ações de Temer com caminhoneiros agravaram incerteza, dizem executivos

Publicado em 02/09/2018, às 08h26
Zanone Fraissat/Folhapress -

Redação

Três meses após a paralisação dos caminhoneiro s, empresas relatam efeitos negativos duradouros do movimento sobre a demanda e o investimento.

LEIA TAMBÉM

Medidas tomadas pelo governo para pôr fim à manifestação, como a tabela do frete, têm pressionado custos e ampliado a incerteza causada pela indefinição eleitoral.

“O Brasil ter ficado de joelhos por causa da greve dos caminhoneiros foi um fator de desestabilização muito forte”, diz Robson Campos, diretor-executivo financeiro e de novos negócios da Camargo Corrêa Infra.

Segundo Campos, isso afetou a confiança na retomada e fez com que a disposição de empresários para novos investimentos em infraestrutura —importante motor do crescimento, que dava sinais de tímida melhoria— entrasse de novo em “modo de espera”.

Embora a produção no país tenha voltado a crescer após a paralisação, empresários sentem efeitos negativos permanentes, como a elevação nos preços de fretes, resultado do tabelamento negociado entre governo e caminhoneiros.

“Nosso ponto de preocupação em relação aos efeitos da greve é a tabela de fretes. Estamos buscando ações de mitigação desse expressivo impacto em nossos custos”, afirmou Gustavo Werneck, principal executivo da Gerdau.

Entre as soluções estudadas pela siderúrgica, segundo ele, estão a ampliação do transporte por ferrovias, cabotagem e frota própria.

Outro setor muito afetado pelo tabelamento foi o de cimento. O frete representava 25% das vendas líquidas do setor. Após a paralisação, a fatia ultrapassa 50%.

“A recessão foi como uma queda do cavalo. Aí veio o coice da greve dos caminhoneiros”, diz Paulo Camillo Penna, presidente do SNIC (Sindicato Nacional da Indústria do Cimento) e da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

Penna relata que, das 64 fábricas de cimento existentes no Brasil, 15 encontram-se fechadas —seis em São Paulo.

No período de crescimento mais forte da economia, o setor aportou recursos para aumentar a oferta. Muito do novo investimento ficou pronto em plena recessão. Com a retomada lenta, o segmento deverá encerrar 2018 com capacidade ociosa recorde.

Com a indefinição eleitoral —e a consequente falta de clareza sobre as reformas e a perspectiva de retomada—, muitas empresas têm preferido esperar para investir.

“No nosso caso, o grande desafio não é financiamento nem caixa. É captação de novas encomendas”, diz Campos, da Camargo Corrêa Infra.

Segundo especialistas, a paralisação agravou esse cenário de incertezas.

Após amargar forte queda em junho, ecoando os efeitos do movimento dos caminhoneiros, o índice de confiança do consumidor do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) esboçou leve reação em julho. O dado de agosto, no entanto, voltou a recuar.

“Tirado o elefante da sala, houve um alívio, e a confiança aumentou um pouco. Mas, passados quase três meses, não tem ocorrido um retorno para o patamar anterior”, diz Aloisio Campelo Jr., superintendente de estatísticas públicas do Ibre/FGV.

Na indústria, a confiança ficou estável em junho e julho, mas, em agosto, recuou para o menor patamar desde janeiro.

Segundo especialistas, ao elevar custos e chamar a atenção para os riscos de instabilidade no país, a paralisação fortaleceu a tendência de postergação de decisões de consumo e investimento.

Os efeitos negativos desse impacto têm sido sentidos na produção de alguns setores, como o automobilístico, o que afeta a demanda por insumos, como o aço.

“Tivemos um crescimento expressivo na produção de veículos no Brasil no primeiro semestre. Mas, para o segundo, os baixos níveis de confiança do consumidor, principalmente após a greve dos caminhoneiros, devem impactar produção do setor”, diz Werneck.

Para o executivo, o segundo semestre será desafiador, o que se traduziu em uma revisão para baixo das projeções feitas pelo Instituto Aço Brasil.

Apesar disso, Werneck ressalta que as previsões para o setor em 2018 ainda são de crescimento sobre 2017 e que a indústria, de forma geral, voltou a crescer.

“O viés para o mercado interno é positivo. Por isso, seguimos otimistas com as perspectivas do Brasil para os próximos anos”, diz Werneck.

Luis Fernando Martinez, diretor-executivo da CSN, também ressalta pontos positivos.

“A produção física industrial está subindo. Isso significa que vamos vender mais aço. É um fato positivo se comparado com os últimos três anos, que foram uma draga”, diz.

Para o executivo, o cenário de baixa confiança na recuperação tem relação com as dúvidas sobre a eleição.

“Esse ambiente caótico e desorganizado traz incerteza, que leva à postergação de qualquer decisão mais importante que você pode tomar na sua vida, tanto pessoal quanto empresarial”, diz.

Enquanto esperam dias melhores, as empresas tomam medidas para aumentar a eficiência e buscar mercados mais dinâmicos.

A Gerdau aposta na inovação. Segundo Werneck, esforços para tornar a gestão mais ágil e a ampliação do uso de ferramentas digitais têm garantido um crescimento da receita líquida inferior à expansão dos custos.

Ele afirma que a diversidade de mercados —já que a empresa tem forte atuação no exterior— ajuda a contrabalançar o cenário doméstico.

Campos, da Camargo Corrêa Infra, diz que a companhia busca oportunidades em setores com regras mais estáveis, como o de energia elétrica.

Empresários afirmam que há segmentos domésticos com reação mais forte, como o de moradias para baixa renda.

Todos ressaltam, porém, que a retomada de projetos de infraestrutura é essencial para a economia entrar em um ciclo de crescimento virtuoso.

“Os investimentos mais pesados são a única forma de reverter a crise atual, que, no caso do cimento, é a pior da história”, diz Penna.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Vereador por cidade no RJ relata tentativa de homicídio em casa Mulher morre ao ser lançada sem corda de 'rope jump' no interior de São Paulo "Vovô Anésio", idoso que viralizou com vídeo sobre cachaça, morre aos 88 anos Conheça o idoso de 102 anos que dirige e malha cinco vezes por semana