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Análise: "A democracia está nas mãos do eleitor"

Publicado em 04/10/2026, às 14h00

Flávio Gomes de Barros

Do jornal "O Estado de São Paulo":
 
 

"Neste domingo, mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a escolher o presidente da República, 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e os integrantes das Assembleias Legislativas e da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É o dia mais solene da democracia, quando o poder é exercido diretamente por quem de fato o detém. Mas é um erro assumir que esse nobre compromisso cívico se esgota na saída da cabine de votação. O voto é condição necessária para uma democracia saudável, mas está longe de ser suficiente.

Reconheçamos que o cardápio oferecido ao eleitor é uma ode ao desalento. Treze candidatos disputam a Presidência da República, mas a campanha foi capturada pela polarização estéril entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aos 80 anos concorre ao cargo pela sétima vez e é o símbolo maior do atraso brasileiro, e Flávio Bolsonaro (PL), que pouco tem a oferecer ao País além do fato de ser o herdeiro de um pai inelegível e condenado por golpe de Estado. Quase nada se debateu sobre o que importa para o País: o descontrole das contas públicas, a escalada do crime organizado, a baixa produtividade da economia, a qualidade da educação pública e a posição do Brasil diante dos desafios globais, entre outras questões prementes. Prevaleceram a lógica tribal da ameaça existencial representada pelo lulismo e pelo bolsonarismo, a agressão e a desinformação. O eleitor foi estimulado a rejeitar Lula ou Flávio, não a votar com paixão e esperança em um projeto de país.

Para a Câmara dos Deputados, são mais de 7 mil candidatos. A profusão de nomes, no entanto, não se traduz em representação reconhecida como tal à luz de um sistema político que não favorece a aproximação entre eleitores e eleitos. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral receberam quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral – as dez legendas mais bem aquinhoadas concentraram 84% dessa dinheirama dos contribuintes, que se soma ao Fundo Partidário. Confortáveis com o derrame de dinheiro fácil, os caciques partidários se sentem desobrigados a se aproximar dos eleitores fora dos ciclos eleitorais. Consequência: as legendas se assumem cada vez mais como empresas a serviço de seus proprietários, não como organizadoras dos interesses sociais a serem mediados pela política na democracia representativa.

O resultado desse divórcio está à vista de todos. Políticas públicas não raro são capturadas por interesses partidários ou lobbies setoriais. O Orçamento da União é tratado como butim a ser repartido entre comparsas de um assalto aos interesses nacionais. O Congresso se move por emendas bilionárias sem transparência nem critérios republicanos de alocação, enquanto serviços essenciais para a população pagadora de impostos escorchantes seguem sofríveis em muitas áreas. Escândalos de corrupção e conflitos de interesses se sucedem sem causar muito mais do que um mal-estar difuso na sociedade, como se fossem paisagem, quase traços inerentes à identidade brasileira. A normalização de práticas e comportamentos inaceitáveis de certas autoridades talvez seja o pior sintoma da crise moral da Nação.

A boa notícia é que, por mais desalentador que seja, nada disso é destino escrito em pedra. O rumo da democracia brasileira está nas mãos de cada eleitor, pois não se trata de um regime que funciona por inércia. Depende fundamentalmente de cidadãos que acompanhem o mandato de quem elegeram, que cobrem coerência entre promessas e práticas, que se organizem em associações, entidades de classe e movimentos, que ocupem o debate público com argumentos e que não tenham medo de confrontar suas convicções pessoais com a verdade dos fatos. Por fim, o vigor da democracia depende de que os eleitores voltem a tratar a ética e a moralidade pública como valores inegociáveis na política.

É esse o apelo que O Estado de S. Paulo faz a seus distintos leitores. Hoje, rogamos que compareçam às suas seções eleitorais imbuídos desse espírito cívico, conscientes do poder que têm. E, conhecidos os resultados, que cada cidadão tome para si as rédeas da democracia. O Brasil que emergirá das urnas não é um país pronto. Será o que seus cidadãos decidirem fazer dele."

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