Flávio Gomes de Barros
Jornalista Marco Antônio Sabino:
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"Snooker não é sinuca.
Eu me refiro não à definição clássica, mas sim àquela conhecida nos botecos de todo o país.
Enquanto no snooker as mesas são de feltro vermelho, com bolas de marfim e tacos de madeira de lei, a sinuca é mais raiz: um jogador 'come' o outro. As vermelhas encaçapam as amarelas e vice-versa.
É tão brutal quanto os corredores do STF.
Pois as vermelhas e as amarelas estão perfiladas no tabuleiro da nossa corte máxima.
E algumas bolas só precisam de um empurrãozinho para cair.
Quem está com o taco na mão para jogar é o presidente Edson Fachin.
Ele já foi das vermelhas.
Aos 68, espera-se que Fachin tenha melhorado a pontaria.
O gaúcho radicado no Paraná tem sólida formação jurídica. É pós-doutor e professor convidado em universidades alemãs e inglesas. Fala quatro idiomas. Tem a técnica.
Mas diferentemente do snooker, na sinuca, mais do que técnica, é preciso malandragem para jogar bem.
Fachin joga e julga como se reza: com devoção.
Católico praticante fervoroso, que Deus o ilumine.
Está com ele a prerrogativa de limpar imagem e, não seria exagerado dizer, definir o futuro do nosso Poder Judiciário.
O presidente terá a prerrogativa de decidir se leva ou não a plenário as investigações que enrubesceram o Brasil.
Foram dias de Nepal em Brasília, em que a lama cobriu tudo.
Do telefone do banqueiro Daniel Vorcaro saíram mais informações sobre Alexandre de Moraes do que jamais imaginaria nossa vã filosofia.
Mas o ambiente do STF não tem sido dado a filósofos. Está mesmo mais para jogadores de sinuca.
O taco de Fachin não pode espanar.
Falta só empurrar.
A jogada não será tão simples assim.
Na frente da bola mais lustrosa - bem lustrosa, há outras impedindo a passagem: Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e sabe-se lá quem mais.
Se não mostrar que jogou muita sinuca, nos intervalos do pós-doutorado no Canadá, em um barzinho ali na esquina, Fachin vai ficar snookado.
Nessas horas, só um toquinho de leve resolve a parada.
É exatamente o tipo de jogada que se espera do presidente.
A não ser que se sinta impelido a jogar novamente com as vermelhas, como já fez.
Fachin foi nomeado para o STF pela ex-presidente Dilma Roussef, de quem não temos saudade.
Ele já defendeu várias bandeiras da esquerda em plenário, como o casamento homoafetivo. Mas não é um militante.
Foi Fachin quem, em decisão monocrática, depois confirmada por 8 votos a 3, determinou a incompetência da Vara de Curitiba, para julgar o presidente Lula.
Destaque-se: Lula nunca foi absolvido por ele. Mas sua decisão acabou abrindo caminho para que Lula concorresse e fosse, novamente, presidente da República.
Agora, Fachin pode empurrar a bola com jeitinho.
Como um verdadeiro Rui Chapéu, sem a boina.
Antes de ser aprovado para ocupar a vaga de ministro, em sua difícil sabatina no Senado Federal, Fachin disse que teria na corte um papel "discreto", "contido": "sou, por assim dizer um daqueles que subscreve para um juiz de corte constitucional um papel de estabilização. Apenas em caráter excepcional, é possível traduzir alguma expressão jurisdicional onde ordinariamente deve ser espaço da política".
É o caso agora.
Política na veia. E ele sabe disso.
O jogo não está ganho.
À mesa modesta de sinuca, há quem sorva doses de Macallan.
A soberba não tem ideologia, nem cor partidária.
A toga tem."
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