Com lupas, o que não faltou foi gente (e opositores) procurando crime eleitoral na avenida. Lula esteve presente e mostrou que quando uma instituição artística quer prestar uma homenagem a alguém, é de bom tom recebê-la.

A preocupação maior era com a presença da primeira-dama, Janja, como integrante do desfile. Por precaução, ela desistiu de última hora.

E o desfile, como previsto, foi mais político do que, digamos, biográfico. Sobrou até para Jair Bolsonaro, hoje preso, e o bolsonarismo.

Entre os detratores do atual presidente, o que pegou foi a ironia transmitida na TV aberta com a instituição mais sagrada da base bolsonarista: o mito da família conservadora.

Sim, eu sei, você sabe, e todos estão cansados de saber que por trás desse slogan esconde-se todo tipo de neurose que habita nas melhores e piores famílias. Segredos, violências, brigas, rachas, rixas, dívidas não pagas, problemas com drogas legalizadas e não legalizadas, e aquilo tudo que só o Natal com parentes é capaz de reunir.

Mas o autoengano faz parte do jogo, e ninguém gosta de ver a fantasia rasgada assim diante do grande público. Daí a grita de quem nunca foi exatamente modelo de nada e que agora bate no peito para acusar a ofensa. Na onda seguiram as lideranças religiosas que se associaram a Bolsonaro – outro que, como pai e marido, é um ótimo sommelier de leite condensado.

O fato é que, embora não tenha sido produzido pela Secom, imagens são exercícios de livre associação, e Lula agora é acusado de cinismo porque certamente vai buscar o voto evangélico para tentar se reeleger em 2026. Aí vale tudo, dizem os ofendidos: visitar tempos, orar, mergulhar no rio Jordão, etc.

Detalhe: o discurso de Lula, que é católico, sempre teve viés religioso, e importantes alas da Igreja deram contribuições ao programa do PT desde a sua fundação.

Essa disputa não é sobre quem tem a senha do wifi no céu, mas sobre quem performa melhor a promessa de proteger núcleos familiares centrais das ameaças do mundo, as reais (como a violência urbana) e as imaginárias (por exemplo, uma suposta campanha e perseguição contra a heteronormatividade).

A questão é: o quanto isso pode ser prejudicial sob o ponto de vista eleitoral na campanha do petista?

O efeito é incerto. Mesmo com esforços de aproximação, como canais de diálogo e a assinatura de um projeto de lei que reconhece a música gospel como manifestação cultural, o governo Lula é rejeitado por 61% dos evangélicos, segundo a Quaest mais recente, de fevereiro.

Em 2022, Bolsonaro recebeu 14,4 milhões de votos a mais que Lula neste segmento. 

As latinhas humanas em conserva podem não ter piorado tanto assim o que já era ruim. Mas ajudar na aproximação com este grupo certamente não ajudou.

A extrema direita tem na guerra cultural uma base forte para alavancar popularidade. Como? Espalhando medo e paranoia para depois vender proteção. Lula aposta que, se o eleitor estiver com o bolso e a barriga cheios, sua candidatura será imune a fantasmas ideológicos. 

A trajetória de Bolsonaro, que se catapultou no cenário nacional direto do baixo clero com um inexistente 'kit gay' debaixo do braço, prova que a história não é bem assim.

E quanto mais pano pra manga, mais a discussão se desloca para o tatame onde os inimigos do campo progressista se saem melhor. Seja quando vão ao ataque, com fake news de todo tipo, seja quando estão na defensiva e reagem a uma suposta ofensa, como é o caso agora."