Após 200 anos, pássaros que parecem flamingos voltam a colorir céu de Florianópolis

Publicado em 21/11/2019, às 16h38
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FolhaPress

O vermelho escarlate que tinge o céu a cada voo chama atenção do observador mais desavisado, que logo os associa aos flamingos. Com sua exuberante plumagem, o guará (Eudocimus ruber) está de volta à Florianópolis.

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A revoada das aves não era apreciada havia mais de 200 anos, segundo pesquisadores da UFSC. O fenômeno mobilizou observadores da fauna na cidade. Entre os possíveis motivos da volta dos guarás, dizem estudiosos, estaria a recuperação de mangues na ilha, onde essas aves podem se alimentar.

A coloração dos guarás vem do pigmento dos crustáceos (carotenoides), característicos de ecossistemas como o manguezal, estuários e rios, dos quais ele se alimenta. À medida que envelhecem, a cor se torna cada vez mais brilhante e intensa. As semelhanças entre eles os flamingos, porém, ficam por aí.

O guará é um tipo de ave mais próxima da garça, com características físicas semelhantes de pernas, pescoço e bico compridos (pelecaniformes), e estatura entre 50 a 120 cm. O flamingo, por sua vez, é vem da ordem phoenicopteriformes, de longas pernas e bico encurvado, e um pouco maiores que os guarás (os flamingos medem de 90 a 150 cm de comprimento).

O bando com cerca de mil animais chegou à capital catarinense no começo desta semana e alvoroçou ambientalistas de norte a sul da ilha. Fernando Farias, biólogo e guia de observação de pássaros, foi um dos primeiros a registrar as aves, que possivelmente vieram da baía da Babitonga, no norte do estado, a 200 km da capital.

Apesar disso, é cedo para afirma a origem exata dos animais, uma vez que há registro da espécie em todo litoral brasileiro, além de Argentina, Colômbia, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela, Bolívia e Trinidad e Tobago.

Farias teve a oportunidade de ver os guarás no manguezal do Itacorubi, na região central de Florianópolis, na segunda-feira (18). "O retorno deles significa que estamos fazendo alguma coisa em relação a conservação. É reflexo das áreas de mangue preservadas na ilha, e também mostra que a população de guarás da qual eles vieram está bem grande."

As aves não estão ameaçadas e não integram a chamada lista vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais).

No entanto, não havia registros dos animais na capital catarinense desde o século 18, segundo pesquisadores da UFSC. Amédée François Frézier, em 1712, foi um dos poucos a descrever a ave em Florianópolis. Em carta à corte francesa, o botânico militar observou a mudança desde os primeiros anos de vida até atingirem a fase adulta.

"Os guarás são encontrados à vezes na ilha de Santa Catarina. As primeiras plumas que o cobrem, logo que nascem, são negras. Esta cor dissipa-se insensivelmente tomando-se acinzentada. Quando começa a voar, todas as plumas tomam-se brancas: tomam finalmente a cor de rosa; tomando-se dia a dia mais vermelhas, até adquirirem uma cor escarlate viva e permanente", escreveu em relato compilado no livro "Ilha de Santa Catarina: relatos de viajantes estrangeiros nos séculos 18 e 19", editado em 1979 pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina.

O sumiço desses animais por anos pode ter diversas explicações, segundo Fabrício Basílio, do uso das penas em ornamentos até a poluição dos oceanos. A degradação do manguezal, porém, é apontada pelo pesquisador do Observatório de Áreas Protegidas e do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da UFSC como o principal fator de ter afugentado os guarás da ilha.

Muitos dos mangues no país, diz Basílio, foram ocupados e aterrados. "Pensava-se que estes ecossistemas não produziam nada, tinham mau cheiro e eram um atraso ao desenvolvimento das cidades".

A atenção em relação a estes ecossistemas surgiu somente em 1987, quando a primeira unidade de conservação foi criada com este fim em Carijós. "São [espaços] extremamente importantes como berçários da vida marinha, além de servirem de proteção para as cidades que se localizam na zona costeira, porque atenuam a força da maré em eventos climáticos extremos."

O retorno da ave é comemorado também por poder aquecer o turismo da região, como ocorreu com um novo passeio para observar aves no arquipélago de Alcatrazes, próximo a Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. A expectativa agora para o visitante pródigo, diz o biólogo Farias, é se ele vai conseguir se reproduzir na ilha.


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