Após internação da filha, casal de SP alerta sobre a meningite: 'Foi muito rápido'

Publicado em 09/01/2026, às 14h26
- Foto: Arquivo Pessoal

Revista Crescer

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Quando Maya, que está prestes a completar 4 anos, começou a reclamar de uma dor “estranha” nas costas, nada parecia fora do roteiro comum da infância. Brincadeiras intensas, quedas leves, noites mal dormidas. Mas, em poucos dias, o que era pontual virou um sinal de alerta. O desconforto subiu pela coluna, chegou à nuca, veio acompanhado de febre alta e um cansaço incomum.

Foi o início de uma corrida contra o tempo que levou Gustavo Catunda e Robert Rosselló, pais dos gêmeos Marc e Maya, ao hospital, em São Paulo, e a um diagnóstico que mudaria a rotina da família: meningite viral.

“Ela nunca reclama de dor. Quando começou a chorar e ficou mole no sofá, a gente sentiu que tinha algo muito errado”, conta Robert, em entrevista a CRESCER. Pouco antes, Maya aparecia em vídeos brincando com o irmão, sorridente e dançando, como se nada estivesse fora do lugar. O contraste foi assustador.

Quando o corpo dá sinais que não podem ser ignorados

A sequência de sintomas se intensificou rapidamente. Dor lombar, rigidez no pescoço, falta de apetite e, em questão de minutos, febre alta. “Foi tudo muito rápido, coisa de uma hora e meia. Ela estava ótima e, de repente, estava completamente diferente”, conta Gustavo. No caminho até o hospital, Maya já estava sonolenta demais para uma criança que costuma ter o sono leve. “Ela chegou praticamente desacordada. Aquilo gelou a espinha”, diz Gustavo.

No pronto-socorro, os médicos iniciaram uma bateria de exames: tomografia, hemograma, testes para Covid-19, dengue e, por fim, o exame de líquor, considerado essencial para confirmar ou descartar a meningite. “Ver minha filha passar pela punção lombar foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Eu quase desmaiei. Vi a cesárea dos meus filhos, mas esse exame foi muito pior. É uma agulha grande, invasiva, e você precisa estar ali forte por ela", explicou Gustavo.

O diagnóstico e a montanha-russa emocional

O resultado confirmou meningite viral, considerada a forma menos grave da doença. Ainda assim, o alívio veio misturado ao medo. “Você escuta ‘meningite’ e o chão some. Ao mesmo tempo, saber que era viral trouxe um respiro”, explica Robert.

Não existe um tratamento específico para a meningite viral. O protocolo inclui controle da dor, da febre, hidratação e observação rigorosa, já que há risco de complicações como a encefalite. Maya foi internada em isolamento, seguindo todos os protocolos. “Ela ficou em contenção, sem poder sair do quarto. Para uma criança ativa, foi um desafio enorme”, diz Robert. Para distraí-la, os pais apelaram para desenhos, tintas, vídeos e jogos improvisados. “A tela virou aliada, mesmo não sendo regra em casa. Era sobre atravessar aquele momento.”

A recuperação surpreendeu. Em poucas horas, após soro e medicação para dor, Maya voltou a conversar, pediu comida e, no dia seguinte, parecia outra criança. Ainda assim, os médicos reforçaram a importância da observação e do repouso completo por até duas semanas.

 

Dois filhos, dois mundos: cuidar separados também dói

Enquanto Maya permanecia internada, Marc ficou em casa. Pela primeira vez, os gêmeos dormiram separados. “Eles nunca tinham passado uma noite longe um do outro”, conta Robert. A saudade apareceu rápido, especialmente no segundo dia. “Teve um momento em que ele disse que estava com dor nas costas. Meu coração disparou”, lembra Robert, que ficou em casa com o menino. Para ele, logo ficou claro que era uma forma infantil de pedir atenção, de querer a irmã e os pais por perto.

A babá teve papel fundamental, criando atividades, desenhos e até preparando o quarto para a volta de Maya. Quando ela recebeu alta, o reencontro foi carregado de emoção. “Ele queria abraçar, não largava mais. Foi daqueles momentos que a gente guarda para sempre”, diz Gustavo.

 

Da experiência pessoal à mobilização coletiva

A internação de Maya reacendeu uma bandeira que o casal já levantava: a importância da vacinação. Mesmo com todas as vacinas em dia, incluindo a meningocócica B na rede privada — vale lembrar que essa vacina não protege contra a meningite viral — , a família sentiu na pele o impacto da doença. “A gente recebeu centenas de mensagens de pais que perderam filhos para a meningite ou que não tinham dinheiro para pagar a vacina”, conta Robert. A vacina meningocócica B não está disponível no calendário oficial do SUS e pode custar centenas de reais por dose.

Foi assim que nasceu a campanha #MeningoBNoSUS, com o objetivo de conscientizar a população e pressionar o poder público para incluir a vacina no sistema público de saúde. “Vacinação é um pacto coletivo. Não pode ser um privilégio de quem pode pagar”, afirma Gustavo.

O casal reforça que o movimento antivacina representa um risco real, especialmente diante do aumento de relatos de casos em diferentes regiões do país. “Meningite é de fácil contágio. Se a cobertura vacinal cai, todo mundo fica vulnerável”, alerta Robert.

 
Vacinação é imprescindível
 

A meningite pode ser causada por diferentes agentes, como bactérias, vírus e até o bacilo da tuberculose. Por isso, a prevenção envolve um conjunto de vacinas, cada uma voltada a um tipo específico da doença. Atualmente, o calendário de imunização conta com opções oferecidas gratuitamente pelo SUS e outras disponíveis apenas na rede privada.

 

  • BCG — contra a meningite tuberculosa
  • Haemophilus influenzae tipo B
  • 10-valente (VPC10), 13-valente (VPC13), 15-valente (VPC15) e 20-valente (VPC20): contra doença pneumocócica. No SUS, estão disponíveis a VCP10 e a 13 e 23 para pessoas com comorbidades.
  • Vacina meningocócica C, ACWY e B: protege contra doença meningocócica.

 

O SUS oferece gratuitamente as vacinas meningocócica C e ACWY, enquanto a meningocócica B, considerada uma das mais importantes por proteger contra um dos tipos mais graves da doença, ainda está disponível apenas na rede privada, o que reforça o debate sobre sua inclusão no calendário oficial de vacinação.

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