Brasil enfrentará uma realidade econômica implacável após as eleições, diz "Financial Times

Publicado em 21/07/2026, às 14h45
- Imagens: Agência Brasil

Valor Econômico

O cenário fiscal do Brasil será o principal desafio a ser enfrentado por quem vencer as eleições presidenciais deste ano, afirma o "Financial Times" em artigo de opinião publicado nesta terça-feira (21). "A consolidação fiscal é inevitável. O que está em jogo é apenas sua magnitude e o momento de sua implementação."

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Quem vencer as eleições herdará um déficit orçamentário de cerca de 8,5% do PIB, com mais de 90% das despesas determinadas por lei, ao mesmo tempo em que a dívida pública bruta está próxima de 81% do PIB. Descontando as reservas internacionais do país, a dívida ficaria em torno de 68% do PIB, mas a taxa Selic de 14,25% aumenta o peso da dívida brasileira.

"Caso ocorra apenas um ajuste lento e postergado a essa realidade econômica, a inflação permaneceria elevada e as taxas de juros continuariam na casa dos dois dígitos. Com os custos de financiamento superando o crescimento nominal, o efeito 'bola de neve' poderia elevar a dívida líquida para 75% do PIB até 2030 e para perto de 90% até 2035 — uma trajetória que os investidores relutariam em financiar", avalia o Financial Times.

Para o jornal, contornar esse cenário exigiria um plano econômico que incluísse o congelamento de contratações no setor público e a manutenção do crescimento dos gastos obrigatórios abaixo da taxa de crescimento nominal.

"Isso provavelmente atrairia fluxos de investimento ao aumentar a confiança dos investidores no país, daria suporte ao real e ancoraria a inflação, permitindo ao Banco Central reduzir a taxa básica de juros para cerca de 8% — patamar que ainda ficaria 5 pontos percentuais acima da meta de inflação."

Além disso, se o superávit primário subisse para 1% em 2027, 1,75% em 2028 e 2,5% nos anos seguintes, com o crescimento nominal próximo de 6,5%, a dívida líquida poderia se estabilizar em torno de 68% do PIB até 2030, segundo cálculos do Financial Times.

Perspectiva eleitoral

"As eleições brasileiras raramente ocorrem sem drama", na avaliação do jornal, que considera "as opções eleitorais [deste ano] desanimadoras entre os principais candidatos" para a corrida presidencial.

O jornal ponta que os dois principais nomes da disputa eleitoral, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), possuem altos índices de rejeição, de 48% e 53%, respectivamente, segundo pesquisas recentes.

"Isso deveria abrir espaço para um candidato de 'terceira via'. Porém, Tarcísio de Freitas, que poderia ter sido um possível concorrente, está, na verdade, buscando a reeleição para o governo de São Paulo. As principais alternativas — Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema — aparecem com menos de 5% nas pesquisas. Ninguém jamais venceu começando a disputa com índices tão baixos e tão tarde: desde 1989, todos os vencedores registravam pelo menos 17% das intenções de voto em abril."

Cenário para investidores

O Financial Times aponta que a participação de investidores estrangeiros no mercado acionário brasileiro ultrapassa os 60%, o que o diferencia de outros países emergentes e cria uma perspectiva ambígua. "Isso deixa o mercado exposto a notícias negativas, mas também preparado para uma valorização expressiva caso os investidores locais migrem da renda fixa para a renda variável."

"As reservas cambiais, em nossa avaliação, também funcionam como um verdadeiro colchão de segurança, pois superam a dívida do Estado em moeda estrangeira. Isso significa que uma desvalorização do real gera um ganho de avaliação que melhora artificialmente os números da dívida líquida — uma proteção (hedge) da qual poucos países pares desfrutam", escreve o jornal.

Além disso, considerando o posicionamento econômico adotado pelo presidente Lula após a sua eleição em 2022, o Financial Times acredita que possíveis reformas sob a liderança do petista deve passar "de forma frustrante, por mais um episódio de volatilidade do mercado em 2027, capaz de forçar uma mudança de rumo do governo".

"Para os investidores, isso é motivo para engajamento, não para desespero. O Brasil é negociado a preços que refletem uma avaliação de mercado bastante baixa. O país apresenta algumas das taxas de juros reais mais altas do mundo e sua moeda está próxima de mínimas históricas — com o real acumulando uma desvalorização de 70% nos últimos 15 anos, apesar de uma recuperação de 8% no último ano. Se acertar a sequência da gestão econômica — consolidação fiscal, desinflação e, na sequência, a retomada do crescimento —, o país representará uma oportunidade atraente."



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