Reinaldo José Lopes / Folhapress
Cachorros com facilidade para aprender palavras humanas conseguem aumentar seu "dicionário" mental simplesmente ao ouvir pessoas conversando, e não apenas quando alguém está falando diretamente com eles, indica um novo estudo. Se estiverem corretos, os dados sugerem que os bichos têm, nesse sentido, capacidades semelhantes às de crianças na faixa dos dois anos de idade.
LEIA TAMBÉM
Ao que parece, no entanto, não é justo esperar que qualquer cão doméstico tenha esse pequeno superpoder. Os experimentos descritos em artigo no periódico especializado Science, no último dia 8, só tiveram resultados significativos com o pequeno subgrupo de animais conhecido como Aprendizes de Palavras Talentosos, entre eles cães das raças labrador e border collie.
São cachorros que, além de compreender as ordens simples que membros da espécie captam com facilidade ("senta!", "dá a patinha" etc.), conseguem ainda construir vocabulários auditivos extensos, com até algumas centenas de nomes de objetos. Aliás, são capazes de fazer isso sem treinamento formal, durante interações normais em brincadeiras com seus tutores.
No novo estudo, a equipe liderada por Shany Dror, pesquisadora da Universidade de Medicina Veterinária de Viena (Áustria), decidiu testar se os cães "talentosos" e, numa segunda etapa, os normais também conseguiam reproduzir a capacidade humana de aprender palavras ouvindo outros indivíduos se referirem a eles.
No processo natural de aquisição da linguagem na nossa espécie, é algo que acelera o aprendizado do vocabulário nos primeiros anos da infância. Em algumas culturas, inclusive, trata-se do processo mais importante para que a criança aprenda sua língua materna, já que há sociedades cujos membros não costumam conversar diretamente com crianças pequenas, que ainda não entendem o que está sendo dito.
Para investigar essa possibilidade no caso dos cães, Dror e seus colegas organizaram uma série de experimentos escalonados.
Primeiro foi testado o método tradicional, em que o tutor do cachorro mostra a ele um brinquedo novo por exemplo, "Olha, esse aqui é o esquilo!", os dois brincam juntos com o objeto por alguns minutos e, depois da brincadeira conjunta, o animal pode passar até 20 minutos se divertindo sozinho com o brinquedo.
Esse processo é repetido duas vezes por dia, num total de quatro dias (não consecutivos). O pulo do gato (sem trocadilho) do teste é que o cachorro também recebe outro brinquedo novo (uma galinha de plástico, digamos) nesse mesmo intervalo. Por fim, os dois brinquedos novos são misturados a nove outros brinquedos já conhecidos, e o cão tem a tarefa de trazer para o dono um dos objetos novos, designado pelo nome.
Todo esse processo se repete na outra variante do experimento, conhecida como "entreouvida" porque, nesse caso, o pet que participa da pesquisa simplesmente ouve uma pessoa dizer para outra "Olhe, esse aqui é o esquilo" ou "essa aqui é a galinha", sem nenhuma interação com o cachorro. Também acontecia um pequeno diálogo: o tutor principal do bicho dizia para outra pessoa da família do cachorro: "Você quer o esquilo?". Depois, passava o brinquedo para esse familiar, que ficava um pouco com ele e, por fim, devolvia-o ao tutor principal.
Resultado de ambas as modalidades do experimento: entre os dez cães "talentosos" participantes, a escolha correta do objeto novo aconteceu em pouco mais de 90% dos testes na primeira versão, a da interação direta, e em pouco mais de 80% dos testes na segunda versão, a que mais interessava aos pesquisadores no novo estudo. Era comum que, quando o animal errava, ele acabasse trazendo o outro brinquedo novo, e não um dos velhos.
O mesmo sucesso, no entanto, não se refletiu num grupo de cães considerados normais (dez indivíduos, todos da raça border collie). Eles foram treinados com o mesmo protocolo dos cachorros "talentosos", mas nenhum deles deu sinais de que estava conseguindo diferenciar o nome de um dos brinquedos do outro. No máximo, acabam pegando qualquer um dos brinquedos novos, o que é esperado, considerando a chamada neofilia (interesse por coisas novas) típica da espécie.
Por último, os pesquisadores testaram ainda a memória dos animais com facilidade para aprender palavras, esperando duas semanas para investigar se ainda se lembravam da palavra associada aos novos objetos. De fato, foi o que aconteceu, o que indica que não era apenas a novidade dos brinquedos que dava a impressão de que eles estavam passando no teste.
O que possibilita essa capacidade nos cachorros "talentosos"? Ainda não está claro, ainda que, pelo visto, não seja um potencial disponível para todos os cães domésticos. Uma das possibilidades é que eles sejam animais especialmente antenados com o comportamento e as intenções de seus donos. Assim, a capacidade de se colocar mentalmente no lugar dos tutores estimularia o aprendizado indireto ao vê-los conversar.
LEIA MAIS