Mariana Rosetti e Paola Churchill/Folhapress
A profissional de relações públicas Ana Victoria, 25, estava no segundo copo de cerveja quando sentiu a visão turvar. Era um sábado de pré-Carnaval em São Paulo. Ela havia comido uma tapioca de frango antes de sair de casa e chegado ao bloco por volta das 14h. Menos de uma hora depois, já no meio da multidão, veio o formigamento nos lábios e nas mãos. A pressão caiu. "Estava completamente tonta", lembra. O episódio durou a tarde toda.
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Ana usa Mounjaro, uma das chamadas canetas emagrecedoras, há sete meses. Desde então, parou de beber álcool. Na folia, duas cervejas bastaram para a queda de pressão. "Quando minha pressão começa a abaixar, sinto a visão turva e formigamento nas mãos e nos lábios. Já associei na hora, pois estava há muito tempo sem beber."
Com a popularização de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro análogos de GLP-1 usados para diabetes e obesidade médicos têm alertado para um risco pouco discutido: a combinação dessas drogas com álcool, calor intenso, jejum prolongado e esforço físico, situação comum no Carnaval.
"O problema é que essas medicações atuam no intestino, retardando o esvaziamento gástrico. Isso faz com que alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas fiquem mais tempo em contato com a mucosa gástrica, levando a gastrite e refluxo", explica a endocrinologista e metabologista Elaine Dias.
Ela detalha que quando se faz jejum prolongado, muitas vezes motivado pela saciedade que os medicamentos causam, os estoques de glicogênio a reserva de glicose do corpo se esgotam. "Embora os análogos de GLP-1 isoladamente tenham baixo risco de hipoglicemia, a combinação com o bloqueio da produção de glicose pelo álcool e a falta de alimento cria um ambiente muito suscetível para hipoglicemias graves."
O cardiologista Eduardo Lima, do Hospital Nove de Julho, explica o impacto cardiovascular. "O álcool desidrata porque bloqueia o hormônio antidiurético. Parte daquilo que se chama de ressaca, na verdade, é desidratação. E o álcool aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca."
Os análogos de GLP-1 também elevam a frequência cardíaca porque há receptores dessas medicações no marca-passo natural do coração. "As duas coisas juntas podem causar um aumento significativo. Não é incomum que pacientes sintam taquicardia", diz.
Ana Victoria adotou estratégia após o episódio no bloco: zerou o álcool. "Agora é zero álcool real, sem brechas para cervejinhas. Tenho muitos amigos usando a mesma medicação. Todos bebem, não passam mal, mas isso não quer dizer que as consequências não existam. Eu digo que é um risco invisível."
O uso das canetas emagrecedoras no Brasil ganhou dimensões alarmantes. Segundo o Conselho Federal de Farmácia, o mercado cresceu 88% em 2025 em relação ao ano anterior, movimentando cerca de R$ 9 bilhões em importações. Pesquisa da Ipsos mostra que 58% dos brasileiros já ouviram falar sobre as canetas emagrecedoras, índice bem superior à média global de 36%. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) estima ainda que o mercado ilegal movimente cerca de R$ 600 milhões por ano no país.
"O uso escalou muito rapidamente e, não raro, são aplicadas sem acompanhamento médico. O que impede que sejam orientadas dos riscos", alerta a endocrinologista Cristina Formiga.
Os efeitos do uso irresponsável são sentidos nos consultórios médicos. "Desmaios, mal súbito, desidratação extrema. São casos mais raros, mas observamos isso, sim. Neste Carnaval a gente vai esperar que isso aconteça", afirma Eduardo.
Diferenciar sintomas de ressaca comum de hipoglicemia é crucial. "Na hipoglicemia os sintomas são sudorese fria, confusão mental súbita, tremores e fome. Mas pode ter também taquicardia, que acontece na desidratação", explica Elaine Dias. "Quando o indivíduo apresenta taquicardia, hipotensão ortostática e cefaleia, provavelmente está desidratado."
Em caso de desmaio, Eduardo Lima orienta: "O mais importante é garantir a segurança da pessoa. Colocar deitado de lado para que não se engasgue. E antes de tentar ajudar, chama o Samu, chama os bombeiros."
Existe diferença de risco entre as medicações. A tirzepatida, presente no Mounjaro, representa teoricamente maior risco por permanecer mais tempo no corpo e ser mais potente em provocar saciedade. "A tirzepatida, por causar mais saciedade, pode gerar mais desidratação pela redução da ingestão de água. O álcool é diurético, então associado tem risco ainda maior", explica Cristina Formiga.
Para quem planeja curtir o Carnaval, Elaine Dias é enfática: não é recomendada a suspensão da medicação. "Porém, se o paciente planeja consumo de álcool e exposição ao calor, a redução da dose na semana do evento pode ser discutida individualmente."
As orientações são diretas. "Nunca beba com o estômago vazio. Mesmo sem fome, consuma uma fonte de carboidrato antes e durante o consumo de álcool", diz Elaine Dias. "Para cada copo de bebida, intercale com dois copos de água ou isotônico. Ingerir um lanche reforçado antes de sair."
Eduardo Lima fecha: "Quem usa essas medicações tem que ter um Carnaval muito tranquilo. Evitar a pressão social de beber mais, se hidratar bastante. Se está investindo nessas medicações, tenha uma vida mais saudável e mantenha isso no carnaval."
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