Flávio Gomes de Barros
Historiador e jornalista Geraldo de Majella*:
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“O Carnaval no Brasil deixou há muito de ser apenas uma manifestação cultural para se consolidar como atividade estratégica da economia nacional. Para 2026, a estimativa é de que a festa movimente R$ 18,6 bilhões, segundo projeções de entidades do setor de comércio e turismo. Trata-se de um volume expressivo de recursos, com impacto direto na geração de emprego, renda e dinamização de cadeias produtivas inteiras.
O crescimento do Carnaval é tamanho que, em diversos estados e cidades, a festa já não se restringe aos dias oficiais do calendário. Em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Olinda, o Carnaval começa ainda em janeiro, ocupando fins de semana inteiros até o período oficial, ampliando o fluxo de turistas e a circulação de dinheiro.
Diante desse cenário, impõe-se uma pergunta inevitável: se o Carnaval é bom para a economia dessas cidades e estados, por que não seria também para Maceió e Alagoas?
Em Maceió, consolidou-se, nos últimos 20 anos, um discurso capitaneado por setores da hotelaria de que a capital ‘é uma cidade para descansar’. Essa narrativa, verbalizada por representantes empresariais e sustentada por forte lobby, acabou influenciando sucessivas gestões municipais. Não por acaso, a Secretaria de Turismo passou a ser ocupada por nomes ligados diretamente aos interesses do setor hoteleiro.
As prévias carnavalescas, realizadas de forma diluída e controlada, não chegam a incomodar o empresariado da hotelaria. No entanto, a ideia de retomar o Carnaval nos dias oficialmente destinados à festa tem sido sistematicamente descartada. A opção política tem sido esvaziar o Carnaval como evento central da cidade.
Essa escolha, contudo, produz efeitos econômicos claros. Se é confortável para parte do setor hoteleiro, é desastrosa para uma ampla parcela da economia urbana. Bares e restaurantes perdem faturamento, a indústria de bebidas deixa de vender, músicos ficam sem trabalho, ambulantes são excluídos, e categorias como taxistas, motoristas de aplicativo e trabalhadores informais deixam de auferir renda em um dos períodos historicamente mais lucrativos do ano.
Quando essas perdas não são consideradas no debate público, deixa-se o terreno da racionalidade econômica e entra-se no campo da irracionalidade empresarial, na qual interesses restritos se sobrepõem ao desenvolvimento econômico da cidade e do estado.
O argumento de que não se deve ter Carnaval para não “incomodar” hóspedes não se sustenta. As principais cidades turísticas do país convivem com festas populares intensas sem que isso afaste visitantes. Ao contrário: o Carnaval é, em muitos casos, o principal atrativo.
Em 2025, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou que o Carnaval movimentou cerca de R$ 104,46 milhões na economia de Alagoas, considerando principalmente os setores de comércio, serviços e turismo. Mantida a tendência nacional de crescimento projetada pela CNC, em torno de 10% para 2026, o impacto econômico da festa no estado pode alcançar aproximadamente R$ 115 milhões.
A partir dessa projeção estadual e considerando que Maceió concentra a maior parte da infraestrutura turística e do fluxo de visitantes de Alagoas, é possível estimar que cerca de 60% desse total esteja concentrado na capital. Isso representaria um impacto aproximado de R$ 69 milhões em Maceió no Carnaval de 2026, em cálculo baseado em dados e projeções da CNC.
Negar esse potencial não é apenas desperdiçar oportunidades. É optar por um modelo de cidade que exclui trabalhadores, empobrece a vida cultural e renuncia conscientemente a uma fonte relevante de dinamização econômica.
O debate sobre o Carnaval em Maceió não é, portanto, uma questão de barulho ou incômodo. É uma discussão sobre projeto de cidade, modelo econômico e para quem se governa.”
*Texto publicado originalmente no portal “082Notícias”.
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