Casas Bahia reduz dívida em mais de 70%, mas prejuízo triplica e varejista segura crédito

Publicado em 12/03/2026, às 13h30
- Reprodução

Folhapress

Ler resumo da notícia

Ano de Copa do Mundo é o melhor para vender televisores e a Casas Bahia conta com isso para dar um impulso às vendas, assim como com o maior volume de dinheiro em circulação em ano eleitoral. Por outro lado, o aumento do preço de frete, como consequência da alta do petróleo devido à guerra no Irã, e uma concessão de crédito mais comedida, tendo em vista o avanço dos índices de inadimplência, fazem com que a varejista não encare 2026 com o pé no acelerador, segundo o CEO do grupo, Renato Franklin, 45.

LEIA TAMBÉM

Em meio a novos anúncios de recuperação extrajudicial, do Grupo Pão de Açúcar e da Raízen, esta última a maior da história—, Franklin respira aliviado. A companhia também entrou em recuperação extrajudicial em abril de 2024, com dívidas de R$ 4,1 bilhões, e saiu três meses depois. Desde então, converteu dívidas em ações, mudou de mãos, e reduziu os débitos para R$ 1,13 bilhão, conforme o balanço de 2025, divulgado nesta quinta-feira (12). Ainda assim, o prejuízo quase triplicou em relação a 2024, para R$ 2,98 bilhões, devido a um efeito não recorrente.

"O pior momento da Casas Bahia já passou", afirma à Folha Franklin, administrador mineiro que desde 2023 está à frente da varejista, também dona do Ponto Frio. "Hoje temos uma das mais baixas alavancagens do varejo", diz ele, referindo-se ao indicador que mede o nível de endividamento de uma empresa e o quanto isso pode comprometer sua operação. A alavancagem é calculada pela relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização); a da Casas Bahia está em 0,4 vez. No setor, a taxa tem variado entre 2 e 3,5 vezes nos últimos anos. A do GPA, por exemplo, está em 2,4 vezes.

Apesar disso, o resultado veio ruim, com prejuízo de R$ 2,98 bilhões, quase três vezes superior às perdas de 2024 (R$ 1,04 bilhão). Segundo Franklin, o salto está relacionado a uma "baixa não recorrente de ativos fiscais diferidos" no valor de R$ 1,45 bilhão. Essa baixa representa um ajuste contábil, indicando que a empresa não vai mais utilizar créditos tributários futuros, que registrava como ativos.

Sem esse efeito, o prejuízo teria crescido 47%, para R$ 1,5 bilhão. A decisão de fazer a provisão foi tomada antes de o Pão de Açúcar não pagar uma dívida de cerca de R$ 170 milhões, relacionada a uma disputa arbitral envolvendo débitos da época em que o varejista alimentar era sócio da antiga Globex, hoje Casas Bahia. O GPA arrolou a dívida, que seria paga neste mês, na sua recuperação extrajudicial anunciada na última terça (10).

"Fizemos um 'stress testing' [simulação de condições muito desfavoráveis de mercado]. Se os juros não caírem, se a guerra impactar a inflação, se a inflação aumentar e o Banco Central não reduzir a taxa de juros, o que acontece com o meu resultado pelos próximos 10 anos? Neste cenário, preferimos ser conservadores", diz. "Se for para ter surpresas no balanço, que sejam só positivas."

A Casas Bahia encerrou 2025 com faturamento de R$ 34,8 bilhões (alta de 7,4% sobre 2024), receita líquida de R$ 29,2 bilhões (+ 7,3%) e Ebitda ajustado de R$ 2,5 bilhões (+ 29,7%). Mas o resultado financeiro ficou negativo em R$ 3,7 bilhões (alta de 68% na comparação anual), puxado pela alta dos juros.

APOSENTADORIA DO 'QUER PAGAR QUANTO?'

Para quem eternizou o bordão "quer pagar quanto?", em referência aos descontos e condições para ajustar as parcelas ao bolso do consumidor—, a Casas Bahia mudou radicalmente de mote depois de estar prestes a pedir recuperação judicial, em 2024. A palavra de ordem na empresa é controlar a oferta de crédito para manter a inadimplência estável, abaixo do patamar de 9%, segundo Franklin.

"É muito fácil você se empolgar com o cenário de desemprego em queda e aumento da renda real, querer acelerar demais e se endividar de novo", diz. "Existe uma demanda por crédito que nos faria vender mais, mas o consumidor está muito endividado e a gente tem sido muito conservador na aprovação de crédito; mesmo quando eu aprovo, exijo uma entrada um pouco maior, para um parcelamento com mais disciplina, ninguém sabe o dia de amanhã."

Franklin cita indicadores de mercado, como o nível de inadimplência no cheque especial, que saiu de 12% no início de 2024 para 17% ao final do ano passado. "A gente continua com a nossa inadimplência estável. Mas é claro que eu estou vendendo menos para fazer isso", afirma.

No grupo, as vendas do crediário somam 17%. A maior fatia vem do cartão de crédito (60%). Mas as compras via Pix, que representam 23%, crescem. "Sempre que pode, o consumidor quer pagar à vista para ter desconto", diz.

A empresa vem aumentando suas vendas no canal on-line depois da parceria com o Mercado Livre, fechada em novembro, e no último trimestre o comércio eletrônico já representou 45,5% do total. No acumulado de janeiro a setembro de 2025, as vendas digitais tinham respondido por 31%. "Desde novembro, nós crescemos no digital, mesmo considerando só as vendas no marketplace próprio", diz Franklin, que paga uma comissão ao Mercado Livre e continua usando a sua própria logística para entrega ao consumidor.

O grupo, aliás, enfrentou gargalos nos pedidos de fim do ano, com Black Friday e Natal, que geraram reclamações de clientes, além de atrasar pagamentos a alguns vendedores do marketplace. Segundo o executivo, os problemas foram pontuais e resolvidos. Entre 2024 e 2025, no entanto, as queixas contra a Casas Bahia na plataforma Reclame Aqui avançaram 35%, para 117,6 mil.

Franklin afirma que a guerra no Irã, que já está impactando o preço do petróleo, tende a aumentar o valor dos fretes. "Um pouco de aumento [de custo do frete] vai ter. Qualquer aumento será repassado ao consumidor", diz.

No mesmo espírito de "contenção", o grupo divulgou na noite desta quarta (11) que vai emitir uma nota comercial de R$ 1,4 bilhão junto ao Bradesco, com prazo de dois anos, para substituir passivos de risco sacado de curto prazo. O objetivo é alongar os vencimentos, sem aumentar o endividamento.

EQUIPE REDUZIU 24% NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS

Os novos rumos da companhia vêm sendo ditados pelo Mapa Capital, gestora de participações criada por ex-executivos do Itaú BBA e da Rio Bravo Investimentos. No ano passado, o Mapa comprou debêntures que estavam com Bradesco e Banco do Brasil, os maiores credores da Casas Bahia, e as converteu em ações, a fim de reestruturar o passivo da varejista.

A reestruturação gerou uma economia da ordem de R$ 230 milhões ao ano em despesas financeiras e manteve as linhas de crédito ativas com os bancos, o que foi fundamental para garantir o capital de giro. A operação gerou forte diluição dos acionistas, incluindo a família Klein, fundadora da Casas Bahia. Meses antes, Michael Klein, que tinha 10% do negócio, havia ensaiado uma volta ao conselho da companhia, mas desistiu. Desde agosto, o Mapa Capital detém 85,5% do grupo. "Isso deu estabilidade para a gestão", diz Franklin.

Com expertise em finanças, o Mapa veio como solução para saída dos bancos e eliminou a pressão das dívidas de curto prazo, diz Eugênio Foganholo, sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial. "Mas a Casas Bahia ainda está muito distante da performance que tinha no passado e precisa provar ser capaz de gerar lucro."

Antigamente, diz, essa missão era conferida ao time de vendas, que tinha "sangue nos olhos" e estava encarregado de cobrir ofertas da concorrência, vendendo mais barato para ganhar em volume. "Mas essa motivação deixou de existir", afirma o consultor. A equipe também foi reduzida sensivelmente nos últimos cinco anos: de 46 mil para os atuais 35 mil funcionários. No período, o número de lojas ficou praticamente estável, em torno de 1.000.

Ainda assim, o consultor afirma que a Casas Bahia é um competidor relevante, com presença nacional e marca forte. "São capazes de fazer a diferença no volume de vendas de qualquer multinacional de eletrodomésticos e eletroeletrônicos."

RAIO-X CASAS BAHIA

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Setor de combustíveis diz que medidas do governo para conter alta do diesel são insuficientes Lula zera tributos federais sobre diesel para conter alta de combustíveis devido à guerra Receita Federal libera reparcelamento online para evitar inscrição em dívida ativa Prêmio pago por bets tem cobrança do Imposto de Renda