Caso Marielle: bicheiro Adilsinho pode ter sido o mandante da morte de contratante de executores

Publicado em 27/02/2026, às 08h48
- Reprodução/Redes sociais

Extra Online

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Um dos nomes mais citados durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal dos mandantes dos homicídios da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes foi o de Edmilson Oliveira da Silva, o Macalé. O miliciano, apontado pelo delator e assassino confesso Ronnie Lessa como intermediário na contratação do crime, estaria no banco dos réus se não tivesse sido executado, em 6 de novembro de 2021.

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Investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) indicam que o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, pode ter sido o mandante da morte de Macalé. O contraventor foi preso ontem numa ação conjunta das polícias Federal e Civil, escondido em uma mansão casa em Cabo Frio, na Região dos Lagos.

Por meio da quebra de sigilo telemático solicitada pela DHC e autorizada pela Justiça, referente ao braço direito de Adilsinho, o policial militar Rafael do Nascimento Dutra, conhecido como Sem Alma, os investigadores chegaram a uma pasta intitulada “Anotações” que estava em arquivos do celular. Nela, havia informações relevantes para o inquérito do homicídio do policial militar da reserva Macalé. O miliciano foi assassinado em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio, quando caminhava em direção a seu carro, uma BMW, com três gaiolas de passarinhos nas mãos.

Os dados foram extraídos da conta de Sem Alma. O objetivo inicial da investigação era obter provas sobre homicídios atribuídos a Sem Alma, como os de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri, e de seu segurança Alexsandro José da Silva, o Sandrinho, supostamente a mando de Adilsinho. No entanto, os policiais encontraram essa pasta, analisada por peritos da Polícia Civil, que continha um levantamento prévio de dados sobre Macalé.

A prática é comum entre matadores de aluguel: realizar um estudo prévio do alvo, reunindo dados pessoais, hábitos e rotinas. O material encontrado incluía nome, endereço, telefones e outras informações. A polícia acredita que os dados tenham sido extraídos de algum banco cadastral. Algumas anotações, inclusive, foram inseridas dias antes do assassinato.

Chamam atenção os registros sobre o veículo da vítima — modelo, cor e placa. Tratava-se de uma BMW X5 branca.

Os dados passaram a integrar o conjunto de evidências reunidas no inquérito conduzido pela Delegacia de Homicídios da Capital.

Queima de arquivo

De forma categórica, o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, afirmou no julgamento que condenou os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ) e ex-deputado federal, respectivamente — que Macalé foi vítima de queima de arquivo:

— Macalé foi morto em queima de arquivo, foi assassinado, executado. Não teve infarto, tropeçou na rua, bateu a cabeça e morreu. Foi executado em clara demonstração de queima de arquivo, clássica, histórica e tradicional de organizações criminosas. E como atuam também, infelizmente, as milícias no Rio de Janeiro.

Segundo o delator Ronnie Lessa, Macalé “conhecia muita gente”. No acordo de colaboração firmado com a Polícia Federal e o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, Lessa relatou que ele, Macalé e Chiquinho se conheceram em um criatório de pássaros na Praça Seca, em Jacarepaguá, na Zona Oeste. Uma testemunha que morava no local confirmou a versão.

De acordo com as investigações da PF, teria sido Macalé quem apresentou a Lessa a proposta dos irmãos Brazão para matar a vereadora. O ex-PM afirmou que o miliciano, cujo reduto ficava em Osvaldo Cruz, na Zona Norte, chegou a acompanhá-lo no monitoramento da vereadora. Em uma ocasião, segundo o delator, os dois estiveram prestes a executar a parlamentar, mas Macalé teria desistido.

Mesmo assim, Lessa acertou com ele a divisão do que receberia como recompensa pela morte. Segundo o colaborador, ele, o miliciano e os irmãos Brazão seriam sócios em um loteamento na Praça Seca, com cerca de mil unidades. Metade ficaria com os irmãos; a outra parte, com ele e Macalé.

Sociedade em loteamento

Nas contas apresentadas por Lessa à PF, a venda dos lotes poderia render cerca de R$ 100 milhões ao grupo, além da exploração de serviços típicos de milícia. O valor seria dividido entre quatro. Com a prisão de Lessa, o plano não avançou e a área é atualmente dominada pelo Comando Vermelho. O miliciano era descrito como uma espécie de “corretor da morte”, responsável por conseguir os “trabalhos” para o atirador.

Adilsinho e Macalé
Investigadores buscam esclarecer qual teria sido o interesse de Adilsinho em mandar matar Macalé. Uma das hipóteses é disputa territorial ou rivalidade no comércio ilegal de cigarros paraguaios.

Sem Alma atuaria praticamente como matador exclusivo do bicheiro, que, no ramo da máfia de cigarros, também é investigado pela Polícia Federal por suposto uso de mão de obra de trabalhadores vindos do Paraguai, com entrada clandestina no país e submetidos a condições análogas à escravidão.

Segundo investigadores, Adilsinho não tolera divisão de lucros nem aproximação de subordinados com rivais. As mortes dos sócios Fabrício Alves Martins de Oliveira e Fábio Alamar Leite, em outubro de 2022, são apontadas como exemplo. Fábio foi assassinado logo após o enterro de Fabrício. A suspeita é que ambos tenham sido executados por transportarem carga de cigarros para um adversário do bicheiro.

Em 20 de dezembro do ano passado, a DHC indiciou Adilsinho e Sem Alma pela morte do policial penal Bruno Kilier da Conceição, ocorrida em 2023, que também atuava no comércio ilegal de cigarros. Até o momento, o Ministério Público do Rio ainda não ofereceu denúncia.

O matador de Adilsinho, Sem Alma, continua foragido da justiça.

 

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