Flávio Gomes de Barros
A partir de entrevista do engenheiro Marcos Carnaúba, especialista em cálculo estrutural, na qual revelou que o solo da Ponta Verde, bairro mais valorizado de Maceió, corre risco de afundamento, criou-se grande polêmica a respeito dessa possiblidade.
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Carnaúba se baseou em estudos técnicos publicados no exterior.
Semana passada, matéria de Noel Budeguer, em “Click Petróleo e Gás”, informa que caso semelhante está ocorrendo na Cidade do México, com surgimento de rachaduras e desníveis na superfície e um sistema de drenagem que deixa de funcionar como antes.
Haveria mesmo relação entre as duas situações?
Eis o texto publicado em “Click Petróleo e Gás”:
“A Cidade do México vive sobre sedimentos macios de um antigo sistema de lagos, e a água subterrânea virou a principal fonte para abastecer a metrópole.
Com o avanço da extração por décadas, o terreno começou a ceder. O resultado aparece no dia a dia com ruas deformadas, tubulações sob pressão e estruturas que precisam de ajustes constantes.
A situação virou um dos casos mais extremos do planeta de subsidência urbana ligada ao uso intenso de água subterrânea, porque o abastecimento depende quase totalmente desse reservatório invisível.
A capital mexicana foi construída sobre camadas de argilas e limos muito compressíveis, depositados quando a região era uma grande área lacustre.
Quando o volume de água diminui, essas camadas se compactam com facilidade. Em uma cidade grande e pesada, a pressão na superfície amplifica o problema.
Segundo o artigo de investigação Chaussard et al. (2021), publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth, o aquífero tem papel central no consumo da zona metropolitana, com participação estimada em 60 a 70% do abastecimento.
O crescimento urbano ao longo do século XX ampliou a retirada de água subterrânea. Bombas mais potentes mantiveram o fornecimento, mas empurraram o sistema para um desequilíbrio prolongado.
Há registro de poços que chegam a 3.000 m de profundidade em algumas áreas, sinal de que a cidade precisou buscar água em camadas cada vez mais abaixo do nível tradicional.
Com o tempo, a extração passou a superar a recarga natural. Isso abriu caminho para afundamentos contínuos, com custos crescentes para manter a cidade funcionando.
Afundamentos já eram visíveis entre 1920 e 1950
Entre 1920 a 1950, já havia afundamentos diferenciais capazes de inclinar construções importantes, inclusive a Catedral Metropolitana.
Esse processo também obrigou intervenções para lidar com drenagem, já que partes da cidade ficaram abaixo do nível natural de escoamento.
O problema deixou de ser pontual e virou um efeito acumulativo, que se intensificou com o aumento da demanda por água.
Em períodos mais recentes, medições por satélites com tecnologia InSAR identificaram áreas do Vale do México com afundamento de 30 a 40 cm por ano.
Em poucas décadas, isso significa metros acumulados. Cada centímetro altera a inclinação de vias, muda o comportamento da água e exige correções em redes urbanas.
Esse padrão reforça o tamanho do desafio, já que a subsidência não ocorre de forma igual em toda a cidade.
Em aquíferos confinados sob argilas, a água ajuda a sustentar a estrutura interna do solo. Quando a pressão diminui por causa do bombeamento, os grãos se acomodam, as camadas se compactam e a superfície afunda.
Grande parte desse processo é irreversível. As argilas compactadas não recuperam totalmente o volume original, mesmo se a extração diminuir.
No Vale do México, a combinação de argilas lacustres finas, retirada acima da recarga e a presença de uma cidade densa torna a subsidência crônica e difícil de frear.
Metade dos trechos elevados do metrô sofre com subsidência
O afundamento não ocorre de forma uniforme. Bairros e corredores viários descem em velocidades diferentes, criando desníveis que abrem fissuras no asfalto e sobrecarregam tubulações.
Esse descompasso também complica o escoamento, aumenta pontos de alagamento e eleva o risco em áreas que antes eram consideradas seguras.
Há indicações de que quase a metade dos trechos elevados do metrô enfrenta subsidência diferencial significativa, exigindo reforços, ajustes de inclinação e mudanças estruturais em viadutos e coletores.
A sobreexploração pode manter a compactação por décadas, mesmo se houver estabilização da extração. Em cenários assim, áreas inteiras ficam progressivamente mais baixas do que canais e rios ao redor.
Isso aumenta custos de manutenção e amplia o risco de enchentes e falhas estruturais, principalmente em pontos onde o desnível cresce rapidamente.
O impacto atinge uma megacidade com mais de 15 milhões de habitantes na área metropolitana, elevando o peso do problema para serviços e infraestrutura.
Saída: reduzir bombeamento e recarregar o aquífero
Um conjunto de ações costuma aparecer como caminho de redução de risco: diminuir o bombeamento do aquífero, ampliar o uso de fontes superficiais e coletores interbacias, promover recarga artificial com água de chuva e água tratada.
Também entra em cena a ideia de redesenhar a cidade como uma esponja, aumentando infiltração e reduzindo perdas.
Como parte do dano é permanente, a prioridade passa a ser gerenciar o afundamento com segurança, reduzir impactos na infraestrutura e evitar que o abastecimento baseado nesse reservatório invisível acelere uma nova crise urbana.
A Cidade do México já sente os efeitos de depender de um aquífero explorado além do limite, e a subsidência virou um fator diário de manutenção e risco.
A resposta passa por reduzir a pressão sobre a água subterrânea e adaptar redes e obras ao novo relevo, porque o chão continua mudando e a cidade precisa acompanhar.”
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