Como foi a visita de Marie Curie ao Brasil, que completa 100 anos

Publicado em 14/08/2026, às 23h45
- Arquivo Nacional/Domínio Público

Galileu

Quando a cientista franco-polonesa Marie Curie desembarcou no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1926, aos 58 anos, ela já era uma das cientistas mais admiradas do mundo. Única pessoa na história a conquistar dois Prêmios Nobel em áreas científicas distintas — Física e Química —, chegava a um Brasil onde a pesquisa científica ainda dava seus primeiros passos.

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Entre julho e agosto daquele ano, Curie percorreu Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Ministrou um curso sobre radioatividade, fez conferências para médicos e pesquisadores, visitou centros de pesquisa, encontrou autoridades, conheceu paisagens brasileiras e estreitou laços com cientistas e lideranças femininas. Cem anos depois, especialistas apontam que sua passagem pelo país ajudou a fortalecer a ciência nacional e teve impacto também sobre o movimento das mulheres.

Em entrevista à GALILEU, o físico Ildeu de Castro Moreira, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, resume que a passagem de Marie Curie pelo Brasil deixou três grandes legados: “Além de trazer um conteúdo científico importante sobre radioatividade e estimular jovens pesquisadores nessa área, ela valorizou as instituições científicas brasileiras, que estavam começando, e valorizou a mulher na ciência.”

Seis semanas de ciência pelo Brasil

A Academia Brasileira de Ciências havia sido fundada poucos anos antes e o país ainda não possuía universidades estruturadas para formar pesquisadores em diversas áreas. Receber uma cientista do prestígio de Marie Curie fazia parte do esforço para aproximar o Brasil dos grandes centros internacionais de pesquisa e fortalecer uma comunidade científica que ainda estava em formação.

Ao contrário de outras personalidades estrangeiras que passaram rapidamente pelo país, Curie permaneceu no Brasil por cerca de seis semanas. Nesse período, visitou aproximadamente 13 instituições científicas, encontrou pesquisadores, médicos e estudantes e participou de uma intensa agenda organizada pelo Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, criado para promover intercâmbios científicos entre os dois países.

A viagem também levou Curie a conhecer diferentes regiões do país. No Rio de Janeiro, além dos compromissos científicos, visitou o Museu Nacional, o Corcovado e o Pão de Açúcar, além de passar por cidades como Petrópolis, Vassouras e Barra do Piraí. Em São Paulo, conheceu o Instituto Butantan, a estação de Águas de Lindóia e a Estação Biológica do Alto da Serra. Já em Minas Gerais, passou por Sabará, Lagoa Santa e pelo Instituto do Radium (atual Hospital Borges da Costa), em Belo Horizonte, um dos principais centros dedicados ao uso médico da radioatividade na época.

Em entrevista ao jornal O Paiz, dois dias após sua chegada, declarou que sua motivação era contribuir para "a união universal das mentes, para a cooperação intelectual internacional dos cientistas em benefício da vida e, portanto, da paz".

Na prática, a cientista cumpriu esse objetivo com uma intensa agenda de atividades científicas. Seu compromisso mais importante foi um curso de 11 aulas sobre radioatividade ministrado na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. As apresentações abordavam desde a estrutura do átomo até as propriedades dos elementos radioativos e eram acompanhadas por demonstrações experimentais realizadas por sua filha, Irène Curie, que a acompanhava na viagem e, anos depois, também conquistaria um Nobel. As aulas chegaram a ser transmitidas pela Rádio Sociedade, ampliando seu alcance para além do público presente.

Além do curso, Curie apresentou conferências na Academia Nacional de Medicina e nas faculdades de Medicina de São Paulo e Belo Horizonte, discutindo as aplicações da radioatividade no tratamento de doenças e apresentando a organização do Instituto Curie, em Paris.

Uma pesquisa inédita no Brasil
 
Um episódio pouco conhecido da visita ocorreu em 24 de agosto de 1926, durante uma sessão da Academia Brasileira de Ciências. Em vez de repetir uma palestra de divulgação, Curie apresentou resultados de uma pesquisa inédita sobre a invariância das constantes radioativas — trabalho que ainda não havia sido publicado internacionalmente e só apareceria em uma revista científica três anos depois.

Mais do que o conteúdo da pesquisa, o episódio demonstrava a importância que Curie atribuía à comunidade científica brasileira. Ao apresentar um estudo ainda inédito, ela aproximou pesquisadores do país das discussões mais recentes sobre radioatividade, antes mesmo da publicação oficial dos resultados.

Para Moreira, a relevância da visita não está apenas no conteúdo das palestras, mas também na legitimidade que uma cientista daquele porte conferiu às instituições brasileiras. "A ciência no Brasil ainda era muito raquítica. A visita da Marie Curie, assim como a do Einstein [um ano antes], destacou a importância da ciência, mostrou que as autoridades precisavam prestar atenção nisso e que era importante criar faculdades de ciências, como aconteceu dez anos depois", diz. "Roquette-Pinto, na Academia Brasileira de Ciências, Teodoro Ramos, na criação da USP, e muitos outros que participaram desses cursos e palestras continuaram nessa batalha e, de certa maneira, passaram isso para as autoridades locais."

O incentivo à radioterapia brasileira

Durante sua passagem pelo país, Marie Curie também visitou hospitais e centros dedicados ao uso médico da radioatividade, incluindo o Instituto do Radium, em Belo Horizonte. Criado poucos anos antes, ele era o segundo instituto do tipo no mundo, atrás apenas do de Paris.

Segundo Moreira, a presença da cientista ajudou a dar visibilidade ao trabalho desenvolvido nessas instituições e reforçou a importância das aplicações médicas da radioatividade. Embora seja difícil medir um impacto imediato, a visita estimulou pesquisadores e médicos brasileiros e fortaleceu o desenvolvimento da radioterapia no país.

Nesse contexto também ocorreu a doação de agulhas de rádio destinadas ao tratamento de câncer, gesto frequentemente apontado como um marco simbólico da aproximação entre o Instituto Curie e os serviços médicos brasileiros.

Inspiração para brasileiras

Curie manteve contato próximo com integrantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, liderada por Bertha Lutz, que a acompanhou em diversos compromissos oficiais e passeios pelo país. Durante entrevistas concedidas à imprensa brasileira, defendeu o direito das mulheres à educação e à participação plena na sociedade. Como integrante do Comitê Internacional de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, também reforçou sua defesa da cooperação internacional entre os países e da paz mundial.

Na época, ela era uma exceção em um universo científico dominado por homens, e sua trajetória inspirava mulheres brasileiras que lutavam por espaço nas universidades e pelo direito ao voto, conquistado poucos anos depois.

Para Moreira, Curie se tornou uma referência importante para o movimento feminino brasileiro. "Pelo fato de ela ser mulher e ter um destaque científico imenso, com dois Prêmios Nobel, ela foi muito valorizada por uma parcela da sociedade, em particular pelas mulheres ativistas e feministas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino", afirma. Para o físico, ela também “destacou a importância de que a mulher deveria ter todos os direitos educacionais e uma inserção na sociedade, como os homens”.

A repercussão foi tão significativa que, durante sua visita, Marie Curie foi eleita por aclamação membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências, tornando-se a primeira mulher a integrar a instituição. O gesto tinha um significado ainda maior porque ocorria apenas alguns anos depois de ela ter sido rejeitada pela Academia Francesa de Ciências, episódio frequentemente associado ao preconceito enfrentado por mulheres cientistas na Europa.

Segundo Moreira, a própria cobertura da imprensa brasileira refletiu esse simbolismo. Algumas reportagens reproduziam estereótipos de gênero comuns na época. Em uma das entrevistas publicadas durante sua estadia, por exemplo, o jornal O Globo afirmou preferir conversar com Curie "como mãe" em vez de perguntar sobre "a descoberta de coisas desconhecidas". Ainda assim, predominou um sentimento de admiração diante de uma mulher que havia alcançado o mais alto reconhecimento científico internacional.

Ao deixar o Brasil, em 28 de agosto de 1926, Marie Curie agradeceu publicamente a recepção recebida e enviou cartas de reconhecimento às instituições que a acolheram. Para Moreira, essas manifestações mostram que, apesar da intensa agenda, a cientista gostou da viagem, da recepção dos brasileiros e levou uma impressão positiva do país.

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