Como o clima da Argentina contribuiu para o surto de hantavírus em cruzeiro

Publicado em 21/05/2026, às 20h37
- Reprodução/Wikimedia Commons

Galileu

Ler resumo da notícia

O surto de hantavírus registrado a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius colocou autoridades sanitárias de diferentes países em alerta e reacendeu uma discussão que vem ganhando força entre epidemiologistas: o impacto das mudanças climáticas sobre a disseminação de doenças infecciosas. Ligado à cepa Andes — a única conhecida capaz de ser transmitida entre humanos — o episódio deixou 11 infectados e três mortos, segundo informações divulgadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

LEIA TAMBÉM

A embarcação fazia um trajeto entre a Argentina, a Antártida e as ilhas do Atlântico Sul quando os primeiros casos foram identificados. Antes da confirmação do surto, porém, dezenas de passageiros já haviam desembarcado na ilha de Santa Helena, aumentando o temor de uma possível disseminação internacional da doença. Embora a autoridade de saúde tenha afirmado que não há sinais de transmissão sustentada fora da embarcação, o caso evidenciou como surtos locais podem rapidamente ganhar dimensão global em um mundo marcado pela circulação intensa de pessoas.

Para pesquisadores argentinos, no entanto, a origem da crise sanitária começa muito antes do embarque no cruzeiro — e está diretamente relacionada às mudanças ambientais observadas nos últimos anos no Cone Sul. Uma reportagem da revista Wired aponta que o aumento das chuvas em regiões da Argentina após um longo período de seca criou condições ideais para a proliferação de roedores silvestres que carregam o hantavírus.

Mais chuva, mais alimento e mais roedores

O principal reservatório da cepa Andes é o rato-do-arroz-pigmeu-de-cauda-longa-da-Patagônia (Oligoryzomys longicaudatus), um pequeno roedor de cerca de 30 gramas encontrado no sul da Argentina e do Chile. Outras espécies do gênero Oligoryzomys sp. também podem transmitir variantes do vírus aos humanos.

Há décadas, os pesquisadores associam anos mais úmidos ao fenômeno conhecido localmente como “ratadas”, que são explosões populacionais desses roedores. A lógica ecológica é direta: mais chuva significa maior crescimento da vegetação e aumento da oferta de sementes, frutos e alimento disponível para esses animais. Com abundância de recursos, as populações crescem rapidamente.

Desta vez, no entanto, esse processo foi intensificado pela chegada do El Niño em 2025, encerrando um ciclo prolongado de seca em parte do país. O aumento das precipitações na região central da Argentina favoreceu a expansão da vegetação e, consequentemente, dos roedores silvestres infectados.

O resultado apareceu nos dados epidemiológicos. Desde junho do ano passado, autoridades argentinas registraram 101 casos confirmados de hantavírus — o dobro do período anterior. Grande parte das infecções foi associada à cepa Lechiguanas, transmitida pelo Oligoryzomys flavescens.

Vale lembrar que as mudanças climáticas não afetam apenas o tamanho das populações de roedores, elas também alteram a distribuição geográfica desses animais e dos próprios vírus. Com isso, amplia-se também as áreas de risco de desenvolvimento da doença; daí a preocupação com a crise epidemiológica.

Como ocorre a transmissão

De acordo com o Ministério da Saúde, os hantavírus pertencem à família Hantaviridae e têm como reservatórios naturais roedores silvestres que eliminam partículas virais pela urina, saliva e fezes. A principal forma de infecção humana ocorre pela inalação de aerossóis contaminados, especialmente em ambientes fechados e mal ventilados.

Galpões, cabanas, depósitos e casas rurais estão entre os locais de maior risco. O comportamento dos roedores também influencia a disseminação do vírus. Como esses animais conseguem se deslocar por árvores e estruturas elevadas, fezes e urina contaminadas podem permanecer em locais protegidos da radiação solar, permitindo maior sobrevivência viral em ambientes internos.

Além disso, quando há superpopulação de roedores, aumenta a competição entre machos por território e alimento. As disputas favorecem a transmissão do vírus entre os próprios animais por mordidas e contato com saliva, ampliando a circulação viral no ambiente.

Na América, a hantavirose pode variar desde quadros febris inespecíficos até formas graves da chamada SCPH (Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus), caracterizada por insuficiência respiratória aguda e comprometimento cardiovascular. Seus sintomas iniciais incluem febre, dores musculares, cefaleia e mal-estar, podendo evoluir rapidamente para falta de ar, pressão baixa e falência respiratória.

A expansão do risco fora das áreas tradicionais

O avanço dos casos para regiões antes consideradas fora da zona de risco preocupa pesquisadores porque sugere uma mudança mais ampla no comportamento da doença. Cientistas vêm encontrando roedores do gênero Oligoryzomys sp. em ambientes profundamente alterados pela atividade humana, como áreas agrícolas e regiões urbanizadas.

Segundo o Ministério da Saúde, fatores como desmatamento, expansão urbana sobre áreas rurais e grandes plantações aumentam o contato entre seres humanos e roedores silvestres. Esse processo cria novas oportunidades para transmissão viral e ajuda a explicar por que variantes do hantavírus vêm sendo detectadas em áreas onde antes não circulavam.

Pesquisadores argentinos também identificaram nos últimos anos cepas que haviam sido registradas apenas em países vizinhos, como a variante Alto Paraguai, associada a outro tipo de roedor silvestre, o rato-do-brejo-do-Chaco (Holochilus chacarius). Nesse contexto, o surto do MV Hondius passou a ser interpretado menos como um evento isolado e mais como um reflexo de mudanças ambientais em curso.

Por isso, os especialistas defendem o fortalecimento da vigilância epidemiológica, sobretudo em regiões fora da Patagônia, onde historicamente o hantavírus recebe menos atenção. Sem vacina disponível nem tratamento específico contra o vírus, a prevenção continua sendo a principal estratégia de controle.

Embora especialistas considerem baixo o potencial pandêmico do hantavírus — já que a transmissão entre humanos é incomum e o vírus sofre poucas mutações — o episódio do MV Hondius reforçou um alerta crescente entre cientistas: em um planeta mais quente, com ecossistemas alterados e circulação global intensa, surtos antes considerados localizados podem se tornar desafios sanitários internacionais com muito mais rapidez.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Cientistas encontram estrutura gigante e oculta que ajuda a manter Via Láctea unida; veja Mistério de vítima emblemática de Pompeia é solucionado quase 2 mil anos depois Como plantas de tabaco produzem nicotina? Estudo explica etapa “invisível” da produção Empresa diz poder ressuscitar espécies extintas com “ovo artificial”