Como o Master recrutava influenciadores para fazer postagens contra o Banco Central, segundo a PF

Publicado em 10/07/2026, às 14h20
Apresentação do 'Projeto DV', da agência Mithi, contratada para fazer a gestão de crise de Daniel Vorcaro, do Banco Master - Reprodução

Folhapress

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A investigação da Polícia Federal sobre o caso Banco Master identificou um suposto esquema estruturado para influenciar o debate público nas redes sociais em favor do banco e de seu controlador, Daniel Vorcaro. Segundo os investigadores, o grupo montou uma estratégia profissional de gestão de crise que previa a contratação de influenciadores, jornalistas e veículos de comunicação, com pagamento por conteúdos favoráveis ao Master e críticas ao Banco Central.

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As conclusões constam de decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou buscas contra o publicitário Thiago Miranda, apontado como um dos articuladores do chamado "Projeto DV".

A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou sobre as acusações.

O QUE ERA O "PROJETO DV"?

Segundo a PF, o "Projeto DV" foi criado para proteger a imagem de Daniel Vorcaro durante as investigações envolvendo o Banco Master e a tentativa frustrada de venda da instituição ao BRB.

De acordo com a decisão, o publicitário Thiago Miranda admitiu aos investigadores que apresentou a Vorcaro um plano de gerenciamento de crise e que estruturou o projeto dentro de sua agência. Ele afirmou que as ações incluíam reportagens e conteúdos sobre a prisão do banqueiro e sobre as investigações envolvendo o Master.

A Polícia Federal afirma, porém, que a iniciativa extrapolava uma campanha convencional de comunicação e fazia parte de uma estratégia para manipular a opinião pública e pressionar órgãos públicos.

Miranda foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta quinta-feira (9), autorizado pelo ministro André Mendonça. A decisão registra que a medida foi considerada necessária para apreender documentos, contratos, mensagens e equipamentos eletrônicos que possam esclarecer a dimensão da atuação do chamado "Projeto DV".

A defesa de Thiago Miranda afirmou, em nota, que o publicitário "refuta de forma categórica" a prática de qualquer ilegalidade e sustenta que sua atuação profissional sempre foi pautada pela legalidade, transparência, respeito às instituições e à liberdade de expressão.

O QUE FOI O BOMBARDEIO DIGITAL CONTRA O BANCO CENTRAL?

Pelo menos 46 perfis em redes sociais iniciaram um bombardeio digital coordenado contra o Banco Central e seus dirigentes após a liquidação do Master, segundo a PF.

O que chamou atenção dos investigadores é que boa parte desses perfis são de fofoca e humor, sem ligação com temas econômicos. Eles passaram a publicar conteúdos criticando a atuação do BC, com informações enviesadas sobre o caso.

A campanha cresceu principalmente em dezembro, em meio à guerra jurídica travada no STF e no TCU (Tribunal de Contas da União) entre investigadores e advogados do Master.

O projeto também incluiu contrato com uma empresa do jornalista Luiz Bacci, que tem 24,3 milhões de seguidores no Instagram. O pagamento previsto à BN Publicidade e Marketing, de Bacci, foi de R$ 500 mil mensais por seis meses, para 30 postagens mensais.

Em 10 de maio de 2026, Bacci confirmou à Folha de S.Paulo a relação comercial com a Mithi, mas não comentou detalhes. "Em conformidade com nossas diretrizes de compliance e sigilo, não divulgamos informações sobre contratos firmados com nossos clientes", disse. Segundo Bacci, eles têm negócios desde 2021.

GPS Brasília que, além de site próprio, tem 182 mil seguidores no Instagram; e Not Journal, com 289 mil seguidores, também aparecem como representantes de veículos que celebraram contratos com a agência MiThi. Ambos reconheceram a existência dos acordos, mas negaram irregularidades ou direcionamento editorial e defenderam a independência de seus respectivos veículos.

POR QUE O BANCO CENTRAL VIROU ALVO?

Segundo a investigação, a campanha ganhou força após o Banco Central barrar a operação envolvendo o Master e o BRB e, depois, durante o processo que levou à liquidação da instituição de Vorcaro.

Renato Gomes, então diretor responsável pela área de resolução bancária, tornou-se um dos principais alvos das postagens.

COMO FUNCIONAVA A CONTRATAÇÃO?

Segundo a investigação, influenciadores e jornalistas eram procurados por representantes de agências de comunicação ligadas ao projeto, principalmente a agência MiThi, de Thiago Miranda, com propostas para publicar conteúdos defendendo o Banco Master e criticando a atuação do Banco Central.

As ofertas chegariam a até R$ 2 milhões, segundo a PF. Os contratos continham cláusulas de confidencialidade e estabeleciam o planejamento coordenado das publicações nas redes sociais.

Em um dos depoimentos, um influenciador afirmou que só descobriu o verdadeiro objetivo da campanha após assinar um acordo de confidencialidade que previa multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. Segundo seu relato, ele deveria gravar vídeos afirmando que o Banco Master era vítima do Banco Central e a liquidação da instituição teria sido indevida.

O QUE OS INFLUENCIADORES ERAM ORIENTADOS A FAZER, SEGUNDO A PF?

Segundo a Polícia Federal, a atuação não se limitaria à produção de conteúdos favoráveis ao banco. Os investigadores afirmam que o material apreendido descreve ações como:

- derrubar reportagens e perfis em redes sociais;
- publicar comentários positivos de forma coordenada;
- elevar artificialmente avaliações de aplicativos;
- negociar financeiramente com jornalistas e veículos para divulgar conteúdos favoráveis ou reduzir o impacto de reportagens negativas;
- utilizar ataques cibernéticos e outras técnicas para retirar do ar conteúdos considerados prejudiciais ao grupo

A PF afirma que os fatos investigados podem, em tese, configurar crimes contra o sistema financeiro nacional, organização criminosa, embaraço à investigação de organização criminosa, além de outros delitos correlatos, incluindo possíveis violações de dados e de dispositivos informáticos.

QUEM COORDENARIA A OPERAÇÃO?

Segundo a PF, Thiago Miranda desempenharia papel central no recrutamento de influenciadores e jornalistas.

Em depoimento, o publicitário admitiu que realizava pagamentos diretamente aos influenciadores, utilizando parcela dos recursos recebidos pela compra de parte do portal de notícias Léo Dias. Os valores eram repassados pela Super Empreendimentos e Participações, empresa de Vorcaro que já foi alvo da Operação em fases anteriores.

Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que contratos firmados por meio da agência MiThi somavam cerca de R$ 8 milhões e envolveram perfis e veículos de diferentes perfis editoriais, com orientações específicas sobre o tom e as mensagens a serem publicadas.

Procurado em 8 de janeiro de 2026, o jornalista Léo Dias afirma que Miranda deixou o Grupo Léo Dias, do qual foi CEO, em junho, embora permaneça na sociedade.

HOUVE INTIMIDAÇÃO DE QUEM RECUSASSE?

É uma das suspeitas da Polícia Federal. Segundo a decisão do STF, investigadores afirmam que, quando propostas eram recusadas, integrantes do grupo utilizariam informações privadas para intimidar ou pressionar os abordados.

A PF também afirma que Thiago Miranda teria recorrido a dados pessoais e financeiros obtidos de forma irregular para constranger jornalistas e outras pessoas consideradas obstáculos aos interesses de Vorcaro.

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