Conheça a mulher que inspirou a criação de Mary Tifóide, vilã do Demolidor nos quadrinhos

Publicado em 10/09/2026, às 22h33
- Reprodução/Wikimedia Commons

Galileu

Criada em 1988, a vilã Mary Tifóide aparece em diferentes HQs da Marvel e usa seus poderes de telecinese, pirocinese e controle mental para dar trabalho aos heróis de Nova York - especialmente o Demolidor. Sua característica mais marcante, entretanto, é a personalidade fragmentada, dividida entre uma persona inocente (“Mary”) e a perigosa vilã Mary Tifóide. Mais tarde, ela assume uma terceira personalidade, a misândrica Bloody Mary.

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O nome da personagem não existe por acaso. Ele é uma referência direta a Mary Mallon, uma cozinheira irlandesa que viveu entre o final do século 19 e o começo do 20. Mallon migrou para os EUA quando jovem e, sem saber, carregava a bactéria Salmonella Typhi, causadora de uma doença conhecida como febre tifóide.

É importante fazer uma distinção: febre tifóide e tifo não são a mesma coisa. As duas doenças são causadas por bactérias diferentes. Entretanto, quando os primeiros casos de febre tifóide começaram a aparecer, os médicos acharam que se tratava de tifo, pois os sintomas eram similares — “tifóide” significa “como o tifo”. Hoje, sabemos a diferença.

Mary Mallon era assintomática, portanto não sabia que tinha a doença. E assim ela trabalhou em diversas casas de Nova York, onde foi espalhando a bactéria para os clientes. Uma investigação apontou que Mary infectou 57 pessoas, das quais três morreram em consequência da doença. Quando a mulher foi descoberta como o vetor do surto em 1907, foi obrigada a entrar em quarentena em um hospital em uma ilha de Nova York, de onde só pôde sair em 1910.

Parte do acordo para sua liberação era que Mary não voltasse a trabalhar como cozinheira. Mas, em outubro de 1914, sob um novo nome (Mary Brown Jr.), ela assumiu um cargo em uma cozinha de hospital. Em 1915, causou um novo surto de febre tifóide entre pacientes e a equipe — 25 infectados, dois morreram.

Mallon foi obrigada a retornar à sua quarentena na ilha de North Brother, de onde nunca mais sairia. Lá, ela assumiu diversas tarefas e era considerada uma funcionária exemplar, especialmente atuando como assistente dos médicos. Ela morreu em 1938, após sofrer derrames.

O que as duas têm em comum

Mary Mallon ficou famosa em sua época como uma ameaça à sociedade, uma criatura nefasta que carregava o mal. Hoje, sabe-se que o fato de ser imigrante, mulher e pobre contribuiu para o escárnio público que sofreu. Seus trejeitos masculinizados também não ajudavam. De mais de 400 infectados assintomáticos com a bactéria identificados na época, ela foi a única que foi confinada.

A Mary Tifóide dos quadrinhos é uma espécie de alegoria para a forma como as mulheres são tratadas em sociedade. Uma de suas personalidades é a moça de família inocente, outra é a vilã sexualizada e a última é a feminista frígida.

A personagem nasceu em um lar marcado por abusos. Ainda criança, ela atacou o pai, causando-lhe queimaduras e ferimentos graves. Foi enviada para uma instituição, onde foi submetida a experimentos. Lá, as personalidades Mary e Tifóide emergiram plenamente, uma dócil e a outra brutal e rebelde. Bloody Mary só surgiria mais tarde, em 1994, em uma história onde a vilã começa a matar abusadores domésticos.

“Quanto à origem da Tifóide, você terá de perguntar ao terapeuta a quem eu ainda não fui. Acho que eu queria estilhaçar os estereótipos femininos — virgem, vadia, megera, fútil, feminista, escoteira, mãe sofredora, etc. — em fragmentos minúsculos e, ainda assim, manter todas as peças reunidas naquele mesmo pacotinho feminino”, declarou a criadora da personagem, Ann Nocenti, em 1998.

A questão de Mary Tifóide é que, ao se dividir para atender essas expectativas da sociedade, ela não consegue funcionar como indivíduo. Suas personalidades fragmentadas não são saudáveis e o conflito entre elas faz com que a saúde mental da personagem esteja sempre abalada.

Da mesma forma, é possível interpretar que Mary Mallon, mesmo cumprindo seu papel na sociedade americana do começo do século 20, foi confinada e vilanizada pelas autoridades que deveriam acolhê-la. Ser uma mulher exemplar não foi suficiente para que fosse tratada como uma pessoa.

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