Criança ensina vendedor de picolé a ler e a escrever em chão de pátio da escola no Ceará

Publicado em 17/04/2019, às 11h42
Bárbara e Zezinho durante aula no chão do pátio da escola. | Divulgação/Diocesano Crato -

Tribuna do Ceará

“Eu fico com a pureza das respostas das crianças…” A letra de Gonzaguinha reconhece a sabedoria de quem enxerga a vida sob um olhar mais sensível. Uma sensibilidade reconhecida na pequena Bárbara Matos, de 9 anos, aluna do Colégio Diocesano, no Crato. Após as aulas, ela senta no pátio da escola para ensinar o vendedor de picolé Francisco Santana Filho, de 68 anos, a ler e a escrever. A prática se repete desde 2017, mas só esta semana o registro feito por uma professora ganhou as redes sociais e trouxe luz à história. A informação é do site Tribuna do Ceará

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“Algumas amigas minhas me ajudam. Aí, foi assim, eu tava aprendendo. Ele disse que não sabia e eu disse então vou te ensinar. Aí fui e ensinei a ele”, disse a aluna do 4º ano. 

Conhecido por “Zezinho”, Francisco vende picolé desde os 12 anos de idade e frequenta a escola há muito tempo. Numa realidade oposta oposta a daqueles que frequentam a escola, ele não teve oportunidade de estudar, mas conquistou a afeição de quem por lá passa: funcionários, alunos, parentes. 

Há 44 anos Zezinho distribui simpatia enquanto vende o doce no local. A rotina, no entanto, mudou um pouco. Às 9 horas, durante o intervalo, ele vende o produto. Depois, vai para casa, almoça e volta à escola por volta do meio-dia quando acaba a aula da menina e ela se torna professora: é hora, finalmente, de ele virar aluno e estudar. 

“Ela é minha professorinha. Ela é uma pessoa muito linda, gentil e especial. Na hora da saída, ela fica me ensinando o alfabeto. Tô aprendendo aos pouquinhos. Aí agora é desenho. Tô fazendo um coração”, conta o aluno. 

Sentado no chão do pátio, Zezinho deixa de ser vendedor e se vê aprendiz, aos 68 anos. O cabelo branco revela a experiência de vida. Mas é com firmeza ele encara a dura ‘beleza de ser um eterno aprendiz’. Na falta de oportunidade, eis ali a chance de ver o mundo e compreendê-lo através da leitura e da escrita. Desde os sete anos, quando começou a ensiná-lo, foi Bárbara – depois de tantos anos ali – que abriu essa porta.

“Ela repassa para ele o que os professores dela ensinam. Bárbara é uma criança muito sensível. Aqui, nós passamos para eles muito amor. Então, é trabalhar a gentileza, solidariedade. Nós passamos esses valores. Ela entendeu nossa missão de educar, abraçou a causa e faz essa gentileza com amor”, conta a coordenadora pedagógica Nágela Maia.

A menina de nove anos usa o próprio material escolar para alfabetizar o vendedor de picolé. Sentados no chão do pátio, ele já aprendeu o alfabeto, já escreve algumas palavras ditadas pela professora e também lê. Visto como parte da “família” pelos responsáveis da escola, Zezinho é abraçado por todos. 

“Já ensinei o alfabeto, algumas letras e algumas palavras. Às vezes, eu passo prova. Ele já está aprendendo a fazer umas letrinhas e algumas palavras. Quero ensinar matemática também”, concluiu a menina. 

É através do olhar e da sensibilidade de cada criança que o mundo mantém esperança de “que a vida devia ser bem melhor, e será!” Com educação, solidariedade e empatia. 

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