Flávio Gomes de Barros
"Datacenters são, ao mesmo tempo, símbolo e motor da era digital. Eles sustentam a inteligência artificial, o streaming, a ciência de dados, a medicina de precisão e praticamente toda a infraestrutura tecnológica que molda o século XXI. Mas também carregam um paradoxo: podem ser vistos como 'parasitas digitais', drenando energia e água em escala gigantesca, ou como infraestrutura crítica, tão essencial quanto portos, rodovias e redes elétricas.
O Brasil está diante de uma encruzilhada estratégica. De um lado, possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, abundância de energia solar e eólica, e polos de inovação capazes de transformar datacenters em motores de desenvolvimento sustentável. De outro, enfrenta riscos de desperdício energético, crises hídricas e pressões territoriais que podem transformar esses empreendimentos em enclaves improdutivos.
A questão central não é se devemos ou não atrair datacenters, mas como, onde e com quais contrapartidas. O país pode se tornar protagonista da economia digital global, aproveitando inclusive a energia limpa que hoje é desperdiçada no Nordeste, com apoio de tecnologias de armazenamento por baterias que garantem operação 100% renovável. Ou pode repetir erros de outras nações, permitindo que datacenters se tornem vilões ambientais e sociais.
Este artigo, dividido em cinco partes, percorre o debate conceitual, os impactos ambientais e sociais, as oportunidades estratégicas, os caminhos e critérios de implantação e, por fim, o papel singular do Nordeste brasileiro. Mais do que uma análise técnica, é um convite a pensar o futuro digital do país com visão estratégica e responsabilidade.
A provocação feita pelo neurocientista Miguel Nicolelis, ao chamar datacenters de 'parasitas digitais', trouxe à tona uma inquietação legítima: o impacto crescente dessas estruturas sobre energia, água e território. Mas a metáfora, embora poderosa, erra o alvo. Reduzir datacenters a parasitas é como reduzir portos a 'buracos na costa' ou rodovias a 'cicatrizes no solo' — uma simplificação que ignora sua função sistêmica.
Datacenters são hoje tão estratégicos quanto redes elétricas, telecomunicações ou rodovias. Sem eles, não há inteligência artificial, ciência de dados, medicina de precisão, automação industrial ou pesquisa avançada. O próprio trabalho científico contemporâneo depende de clusters de processamento intensivo, simulações e aprendizado de máquina. Criticar a infraestrutura que sustenta esse ecossistema equivale a criticar estradas enquanto se dirige um automóvel.
O debate, portanto, não deveria ser 'datacenters sim ou não', mas como, onde e com quais contrapartidas. A digitalização, a automação e a eletrificação não são escolhas ideológicas: são processos irreversíveis. A questão é se o Brasil participará deles de forma planejada e soberana, ou se continuará exportando energia barata e importando valor agregado digital.
Os datacenters não são parasitas: são infraestrutura crítica do século XXI. O risco não está na sua existência, mas na ausência de estratégia para integrá-los de forma sustentável e produtiva.
Se os datacenters são infraestrutura crítica, também são grandes consumidores de recursos naturais. O debate sobre sua implantação no Brasil precisa encarar de frente os impactos ambientais e sociais que acompanham essa expansão.
Consumo de Energia
Em escala global, os datacenters já respondem por cerca de 1% da eletricidade mundial. No Brasil, em 2024, representaram 1,7% do consumo elétrico nacional, com projeção de chegar a 3,6% até 2029. Um único datacenter médio pode demandar mais de 10 MW, equivalente ao uso de 8 mil residências. A expansão da inteligência artificial, do streaming e da computação em nuvem tende a multiplicar esse consumo, pressionando redes elétricas locais e exigindo planejamento robusto.
Consumo de Água
O resfriamento dos servidores depende de grandes volumes de água. Cada interação com sistemas de IA pode consumir entre 10 e 25 ml de água, e a geração de imagens multiplica esse gasto em até 30 vezes. Em regiões com escassez hídrica, esse uso compete diretamente com abastecimento humano e agrícola. Embora tecnologias de resfriamento líquido e reuso possam reduzir em até 40% o consumo, o impacto permanece significativo.
Emissões e Pegada de Carbono
Quando não integrados a matrizes renováveis, os datacenters ampliam emissões de CO₂ e podem gerar ilhas de calor em áreas urbanas. Mesmo em países com matriz relativamente limpa, como o Brasil, a concentração de consumo energético em pontos específicos intensifica a pegada de carbono local.
Planejamento Territorial
Datacenters exigem grandes áreas físicas e infraestrutura elétrica e hídrica robusta. Mal localizados, tornam-se enclaves improdutivos, sem conexão com a economia regional, e podem gerar conflitos com comunidades locais. A ausência de planejamento urbano e regulatório transforma oportunidades em problemas.
Impactos Econômicos e Sociais
Apesar dos investimentos bilionários, os empregos diretos gerados após a fase de construção são relativamente poucos. O saldo líquido pode ser negativo se não houver contrapartidas em inovação, educação tecnológica e integração com indústrias locais. Por outro lado, quando bem planejados, os datacenters podem atrair investimentos, estimular a formação de mão de obra qualificada e fortalecer a soberania digital.
Os datacenters carregam um paradoxo: podem ser motores da economia digital ou enclaves improdutivos que pressionam energia, água e território. O divisor de águas é o planejamento.
Se os impactos ambientais e sociais dos datacenters são reais e exigem atenção, o Brasil possui uma vantagem estrutural rara: uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com mais de 80% da energia proveniente de fontes limpas, especialmente hidrelétrica, eólica e solar. Em um mundo pressionado por metas de descarbonização, essa condição transforma o país em candidato natural a sediar datacenters sustentáveis.
Energia Renovável como Ativo Estratégico
A abundância de energia limpa não é apenas uma vantagem ambiental, mas também competitiva. Grandes plataformas digitais já investem em autoprodução de energia renovável e armazenamento. O Brasil, com sua complementaridade regional (vento no Nordeste, sol no Centro-Oeste, hidrelétricas no Sul e Sudeste), pode oferecer resiliência e diversidade energética que poucos países possuem.
Integração com Polos de Inovação
Datacenters não devem ser vistos como enclaves isolados, mas como motores de ecossistemas digitais. Quando integrados a polos de inovação, universidades e indústrias tecnológicas, tornam-se catalisadores de pesquisa, educação tecnológica e novos serviços digitais. Recife, com o Porto Digital, e Belo Horizonte, com seu ecossistema de startups, são exemplos de regiões que poderiam se beneficiar dessa sinergia.
Conectividade Internacional
Fortaleza já é hub estratégico de cabos submarinos que conectam o Brasil à Europa e aos Estados Unidos. Essa infraestrutura de interconexão internacional é essencial para reduzir latência e atrair empresas globais. Associada ao potencial energético renovável do Nordeste, cria uma combinação única de conectividade e sustentabilidade.
Exemplos Internacionais
Casos como Irlanda e Países Baixos mostram que a ausência de planejamento pode transformar datacenters em vilões ambientais. Mas também há exemplos positivos: nos Estados Unidos, grandes empresas têm investido em autoprodução de energia solar e eólica para sustentar seus datacenters. O Brasil pode aprender com ambos os cenários, evitando erros e replicando boas práticas.
Soberania Digital
Atrair datacenters sustentáveis não é apenas uma questão de infraestrutura, mas de soberania. Sem capacidade computacional própria, o país corre o risco de exportar energia barata e importar valor agregado digital. Com planejamento, pode se tornar protagonista da economia digital, em vez de mero hospedeiro de consumo intensivo.
O Brasil tem condições únicas de transformar datacenters em infraestrutura estratégica de desenvolvimento digital sustentável. O desafio não é negar sua implantação, mas aproveitar as vantagens energéticas e territoriais para posicionar o país como polo global no século XXI.
O dilema brasileiro não é se devemos ou não ter datacenters, mas onde implantá-los, com quais contrapartidas e sob quais condições. A escolha do local e do modelo de operação define se eles serão motores de desenvolvimento ou focos de risco socioambiental.
Onde Não Implantar
Onde Implantar
Estratégias de Mitigação
Os datacenters não são vilões nem salvadores. São infraestrutura crítica que pode impulsionar o Brasil para o século XXI digital — ou se tornar enclaves improdutivos que drenam recursos sem retorno. O risco não está nos datacenters em si, mas na ausência de estratégia. Planejamento energético, hídrico e territorial é o que define se eles serão motores de inovação e soberania digital ou apenas 'parasitas digitais' em território nacional.
O Nordeste brasileiro reúne condições únicas para se tornar um polo internacional de infraestrutura digital. A região combina abundância de energia renovável, conectividade global e ecossistemas de inovação emergentes. Mas há um aspecto pouco discutido que pode transformar os datacenters em aliados estratégicos: o aproveitamento da energia hoje desperdiçada e o uso de tecnologias de armazenamento.
Energia Renovável e Desperdício Atual
O Nordeste é líder nacional em geração eólica e solar. No entanto, a rede elétrica brasileira ainda enfrenta gargalos de transmissão e limitações de armazenamento. Isso significa que parte significativa da energia produzida é simplesmente cortada ou não utilizada, especialmente em horários de pico de geração. Datacenters, por sua demanda contínua e previsível, podem funcionar como consumidores estáveis dessa energia excedente, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência do sistema elétrico.
Armazenamento por Baterias: A Chave da Sustentabilidade
Com a evolução das tecnologias de baterias, já é possível armazenar grandes volumes de energia renovável e garantir fornecimento contínuo. Isso significa que, no Nordeste, todo o funcionamento dos datacenters poderia ser sustentado exclusivamente por fontes limpas como solar e eólica, sem depender de matrizes fósseis.
Vantagens Estratégicas
Riscos e Mitigações
Caminho Possível
No Nordeste, datacenters podem ser mais do que consumidores intensivos de energia: podem ser soluções para aproveitar e armazenar energia limpa que hoje é desperdiçada. Com a tecnologia de baterias, é possível garantir que todo o funcionamento seja sustentado por fontes renováveis, transformando a região em referência mundial de infraestrutura digital sustentável."
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