Datacenters no Brasil: parasitas ou motores do futuro?

Publicado em 08/02/2026, às 16h00

Flávio Gomes de Barros

 

 

"Datacenters são, ao mesmo tempo, símbolo e motor da era digital. Eles sustentam a inteligência artificial, o streaming, a ciência de dados, a medicina de precisão e praticamente toda a infraestrutura tecnológica que molda o século XXI. Mas também carregam um paradoxo: podem ser vistos como 'parasitas digitais', drenando energia e água em escala gigantesca, ou como infraestrutura crítica, tão essencial quanto portos, rodovias e redes elétricas.

O Brasil está diante de uma encruzilhada estratégica. De um lado, possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, abundância de energia solar e eólica, e polos de inovação capazes de transformar datacenters em motores de desenvolvimento sustentável. De outro, enfrenta riscos de desperdício energético, crises hídricas e pressões territoriais que podem transformar esses empreendimentos em enclaves improdutivos.

A questão central não é se devemos ou não atrair datacenters, mas como, onde e com quais contrapartidas. O país pode se tornar protagonista da economia digital global, aproveitando inclusive a energia limpa que hoje é desperdiçada no Nordeste, com apoio de tecnologias de armazenamento por baterias que garantem operação 100% renovável. Ou pode repetir erros de outras nações, permitindo que datacenters se tornem vilões ambientais e sociais.

Este artigo, dividido em cinco partes, percorre o debate conceitual, os impactos ambientais e sociais, as oportunidades estratégicas, os caminhos e critérios de implantação e, por fim, o papel singular do Nordeste brasileiro. Mais do que uma análise técnica, é um convite a pensar o futuro digital do país com visão estratégica e responsabilidade.


 

Parte 1 – O Debate Conceitual: Parasitas ou Infraestrutura Crítica?

A provocação feita pelo neurocientista Miguel Nicolelis, ao chamar datacenters de 'parasitas digitais', trouxe à tona uma inquietação legítima: o impacto crescente dessas estruturas sobre energia, água e território. Mas a metáfora, embora poderosa, erra o alvo. Reduzir datacenters a parasitas é como reduzir portos a 'buracos na costa' ou rodovias a 'cicatrizes no solo' — uma simplificação que ignora sua função sistêmica.

Datacenters são hoje tão estratégicos quanto redes elétricas, telecomunicações ou rodovias. Sem eles, não há inteligência artificial, ciência de dados, medicina de precisão, automação industrial ou pesquisa avançada. O próprio trabalho científico contemporâneo depende de clusters de processamento intensivo, simulações e aprendizado de máquina. Criticar a infraestrutura que sustenta esse ecossistema equivale a criticar estradas enquanto se dirige um automóvel.

O debate, portanto, não deveria ser 'datacenters sim ou não', mas como, onde e com quais contrapartidas. A digitalização, a automação e a eletrificação não são escolhas ideológicas: são processos irreversíveis. A questão é se o Brasil participará deles de forma planejada e soberana, ou se continuará exportando energia barata e importando valor agregado digital.

Os datacenters não são parasitas: são infraestrutura crítica do século XXI. O risco não está na sua existência, mas na ausência de estratégia para integrá-los de forma sustentável e produtiva.


Parte 2 – Impactos Ambientais e Sociais

Se os datacenters são infraestrutura crítica, também são grandes consumidores de recursos naturais. O debate sobre sua implantação no Brasil precisa encarar de frente os impactos ambientais e sociais que acompanham essa expansão.

Consumo de Energia

Em escala global, os datacenters já respondem por cerca de 1% da eletricidade mundial. No Brasil, em 2024, representaram 1,7% do consumo elétrico nacional, com projeção de chegar a 3,6% até 2029. Um único datacenter médio pode demandar mais de 10 MW, equivalente ao uso de 8 mil residências. A expansão da inteligência artificial, do streaming e da computação em nuvem tende a multiplicar esse consumo, pressionando redes elétricas locais e exigindo planejamento robusto.

Consumo de Água

O resfriamento dos servidores depende de grandes volumes de água. Cada interação com sistemas de IA pode consumir entre 10 e 25 ml de água, e a geração de imagens multiplica esse gasto em até 30 vezes. Em regiões com escassez hídrica, esse uso compete diretamente com abastecimento humano e agrícola. Embora tecnologias de resfriamento líquido e reuso possam reduzir em até 40% o consumo, o impacto permanece significativo.

Emissões e Pegada de Carbono

Quando não integrados a matrizes renováveis, os datacenters ampliam emissões de CO₂ e podem gerar ilhas de calor em áreas urbanas. Mesmo em países com matriz relativamente limpa, como o Brasil, a concentração de consumo energético em pontos específicos intensifica a pegada de carbono local.

Planejamento Territorial

Datacenters exigem grandes áreas físicas e infraestrutura elétrica e hídrica robusta. Mal localizados, tornam-se enclaves improdutivos, sem conexão com a economia regional, e podem gerar conflitos com comunidades locais. A ausência de planejamento urbano e regulatório transforma oportunidades em problemas.

Impactos Econômicos e Sociais

Apesar dos investimentos bilionários, os empregos diretos gerados após a fase de construção são relativamente poucos. O saldo líquido pode ser negativo se não houver contrapartidas em inovação, educação tecnológica e integração com indústrias locais. Por outro lado, quando bem planejados, os datacenters podem atrair investimentos, estimular a formação de mão de obra qualificada e fortalecer a soberania digital.

Os datacenters carregam um paradoxo: podem ser motores da economia digital ou enclaves improdutivos que pressionam energia, água e território. O divisor de águas é o planejamento.


Parte 3 – Oportunidades Estratégicas para o Brasil

Se os impactos ambientais e sociais dos datacenters são reais e exigem atenção, o Brasil possui uma vantagem estrutural rara: uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com mais de 80% da energia proveniente de fontes limpas, especialmente hidrelétrica, eólica e solar. Em um mundo pressionado por metas de descarbonização, essa condição transforma o país em candidato natural a sediar datacenters sustentáveis.

Energia Renovável como Ativo Estratégico

A abundância de energia limpa não é apenas uma vantagem ambiental, mas também competitiva. Grandes plataformas digitais já investem em autoprodução de energia renovável e armazenamento. O Brasil, com sua complementaridade regional (vento no Nordeste, sol no Centro-Oeste, hidrelétricas no Sul e Sudeste), pode oferecer resiliência e diversidade energética que poucos países possuem.

Integração com Polos de Inovação

Datacenters não devem ser vistos como enclaves isolados, mas como motores de ecossistemas digitais. Quando integrados a polos de inovação, universidades e indústrias tecnológicas, tornam-se catalisadores de pesquisa, educação tecnológica e novos serviços digitais. Recife, com o Porto Digital, e Belo Horizonte, com seu ecossistema de startups, são exemplos de regiões que poderiam se beneficiar dessa sinergia.

Conectividade Internacional

Fortaleza já é hub estratégico de cabos submarinos que conectam o Brasil à Europa e aos Estados Unidos. Essa infraestrutura de interconexão internacional é essencial para reduzir latência e atrair empresas globais. Associada ao potencial energético renovável do Nordeste, cria uma combinação única de conectividade e sustentabilidade.

Exemplos Internacionais

Casos como Irlanda e Países Baixos mostram que a ausência de planejamento pode transformar datacenters em vilões ambientais. Mas também há exemplos positivos: nos Estados Unidos, grandes empresas têm investido em autoprodução de energia solar e eólica para sustentar seus datacenters. O Brasil pode aprender com ambos os cenários, evitando erros e replicando boas práticas.

Soberania Digital

Atrair datacenters sustentáveis não é apenas uma questão de infraestrutura, mas de soberania. Sem capacidade computacional própria, o país corre o risco de exportar energia barata e importar valor agregado digital. Com planejamento, pode se tornar protagonista da economia digital, em vez de mero hospedeiro de consumo intensivo.

O Brasil tem condições únicas de transformar datacenters em infraestrutura estratégica de desenvolvimento digital sustentável. O desafio não é negar sua implantação, mas aproveitar as vantagens energéticas e territoriais para posicionar o país como polo global no século XXI.


Parte 4 – Caminhos e Critérios para Implantação

O dilema brasileiro não é se devemos ou não ter datacenters, mas onde implantá-los, com quais contrapartidas e sob quais condições. A escolha do local e do modelo de operação define se eles serão motores de desenvolvimento ou focos de risco socioambiental.

Onde Não Implantar

 

  • Regiões com escassez hídrica: Sertão nordestino e áreas metropolitanas com crises recorrentes de abastecimento (ex.: Região Metropolitana de São Paulo).
  • Infraestrutura elétrica frágil: interior da Amazônia e áreas remotas do Norte, onde redes são instáveis e de alto custo de transmissão.
  • Áreas ambientalmente sensíveis: Amazônia Legal, Pantanal e zonas costeiras frágeis, sob risco de desmatamento indireto e impacto ecológico.
  • Capitais densas e saturadas: Rio de Janeiro, Recife e Salvador, onde a pressão urbana já compromete energia, água e território.

 

Onde Implantar

 

  • Nordeste Litorâneo (Fortaleza, RN, Recife): abundância de energia eólica e solar, proximidade de cabos submarinos internacionais, ecossistemas digitais emergentes.
  • Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso do Sul): áreas amplas, energia solar crescente e integração com agronegócio digital.
  • Sul (Paraná, Rio Grande do Sul): clima ameno, rede elétrica robusta e proximidade de polos industriais.
  • Interior de Minas Gerais: energia renovável abundante, linhas de transmissão consolidadas e sinergia com universidades e polos de inovação.
  • São Paulo e Rio de Janeiro: hubs consolidados de interconexão digital, mas exigem compensações ambientais e eficiência hídrica rigorosa.

 

Estratégias de Mitigação

 

  • Descentralização: distribuir datacenters em regiões com abundância energética e menor pressão urbana.
  • Eficiência hídrica e energética: adotar resfriamento líquido, reuso de água e autoprodução renovável.
  • Contrapartidas sociais: investir em inovação local, educação tecnológica e infraestrutura comunitária.
  • Governança regulatória: assegurar transparência no consumo de recursos e integração com políticas de desenvolvimento regional.

 

Os datacenters não são vilões nem salvadores. São infraestrutura crítica que pode impulsionar o Brasil para o século XXI digital — ou se tornar enclaves improdutivos que drenam recursos sem retorno. O risco não está nos datacenters em si, mas na ausência de estratégia. Planejamento energético, hídrico e territorial é o que define se eles serão motores de inovação e soberania digital ou apenas 'parasitas digitais' em território nacional.


Parte 5 – A Implantação de Datacenters no Nordeste Brasileiro

O Nordeste brasileiro reúne condições únicas para se tornar um polo internacional de infraestrutura digital. A região combina abundância de energia renovável, conectividade global e ecossistemas de inovação emergentes. Mas há um aspecto pouco discutido que pode transformar os datacenters em aliados estratégicos: o aproveitamento da energia hoje desperdiçada e o uso de tecnologias de armazenamento.

Energia Renovável e Desperdício Atual

O Nordeste é líder nacional em geração eólica e solar. No entanto, a rede elétrica brasileira ainda enfrenta gargalos de transmissão e limitações de armazenamento. Isso significa que parte significativa da energia produzida é simplesmente cortada ou não utilizada, especialmente em horários de pico de geração. Datacenters, por sua demanda contínua e previsível, podem funcionar como consumidores estáveis dessa energia excedente, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência do sistema elétrico.

Armazenamento por Baterias: A Chave da Sustentabilidade

Com a evolução das tecnologias de baterias, já é possível armazenar grandes volumes de energia renovável e garantir fornecimento contínuo. Isso significa que, no Nordeste, todo o funcionamento dos datacenters poderia ser sustentado exclusivamente por fontes limpas como solar e eólica, sem depender de matrizes fósseis.

 

  • Resiliência Energética: baterias permitem que os datacenters operem mesmo em períodos de baixa geração solar ou eólica.
  • Autonomia Sustentável: a combinação de geração renovável + armazenamento garante que os datacenters não sobrecarreguem a rede elétrica local.
  • Integração Inteligente: sistemas híbridos podem equilibrar oferta e demanda, transformando os datacenters em parte da solução energética, e não do problema.

 

Vantagens Estratégicas

 

  • Consumo Contínuo: datacenters operam 24 horas por dia, absorvendo energia que hoje é desperdiçada.
  • Conectividade Internacional: Fortaleza é hub de cabos submarinos, conectando o Brasil à Europa e aos EUA. Associar essa conectividade ao uso de energia limpa cria uma vantagem competitiva rara.
  • Ecossistemas Locais: Recife e Fortaleza podem se beneficiar diretamente da proximidade com datacenters, estimulando inovação e pesquisa aplicada.

 

Riscos e Mitigações

 

  • Escassez Hídrica: exige tecnologias de resfriamento líquido e reuso de água.
  • Pressão Urbana: capitais precisam de contrapartidas em infraestrutura e planejamento territorial.
  • Dependência Externa: sem políticas de soberania digital, há risco de que os datacenters sirvam apenas a grandes plataformas globais.

 

Caminho Possível

 

  • Transformar desperdício em oportunidade: vincular datacenters à absorção da energia renovável cortada.
  • Armazenamento como pilar: exigir que novos datacenters incorporem sistemas de baterias para garantir operação 100% limpa.
  • Descentralizar a implantação: levar parte da infraestrutura para municípios do interior com abundância energética.
  • Exigir contrapartidas locais: investimentos em educação tecnológica, inovação e infraestrutura comunitária.

No Nordeste, datacenters podem ser mais do que consumidores intensivos de energia: podem ser soluções para aproveitar e armazenar energia limpa que hoje é desperdiçada. Com a tecnologia de baterias, é possível garantir que todo o funcionamento seja sustentado por fontes renováveis, transformando a região em referência mundial de infraestrutura digital sustentável."

 
Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Renan Filho a "O Globo": "Sou pré-candidato ao governo de Alagoas" Guiomar Feitosa e as causas envolvendo a Braskem Uma reverência ao frevo, às 8h30m de hoje, na TV Pajuçara Quando a Justiça sai do tribunal e sobe no palco