Redação EdiCase
O Dia do Cinema Brasileiro, comemorado em 19 de junho, celebra a primeira filmagem realizada no país, em 1898: Afonso Segreto, italiano radicado no Brasil, filmou a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Esse registro aconteceu apenas três anos depois de os irmãos Lumière criarem o cinematógrafo, na França, em 1895.
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De lá para cá, o cinema brasileiro passou por diferentes fases, renovações e consagrações internacionais, refletindo a diversidade e a cultura nacional. Acompanhar as principais produções da cinematografia brasileira também é uma maneira de ampliar o repertório, conhecer diferentes realidades, desenvolver o senso estético, a sensibilidade e o olhar crítico.
Jones Brandão, gerente de ensino e inovações educacionais do COC, destaca ainda outras vantagens: “A competência 2 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) avalia o uso do repertório sociocultural, exigindo que ele cumpra três requisitos que o cinema nacional preenche com facilidade: legitimidade, pertinência e produtividade”, diz.
Os corretores de grandes vestibulares leem muitas redações por dia, e a maioria esmagadora delas recorre às mesmas citações decoradas. “Quando o aluno usa uma obra não óbvia, ele demonstra para a banca que possui autonomia intelectual e um repertório autêntico, fazendo sua nota melhorar consideravelmente”, afirma.
Jones Brandão acrescenta, ainda, que a neurociência explica que assimilamos melhor a informação quando há um componente emocional envolvido. “O filme cria um ‘gancho de memória’ visual e sentimental”, diz. Além disso, os temas de redação costumam colocar o dedo na ferida de realidades invisibilizadas. “Filmes como ‘Carandiru’, por exemplo, forçam o estudante a sair da sua bolha social e a enxergar a complexidade por trás desses problemas”, ressalta.
Para auxiliar os estudantes a mapearem alguns filmes e documentários menos óbvios e que podem ajudá-los na criação de repertório para a redação do Enem e dos vestibulares, Jones Brandão e Karoline Barreto, doutora em História e especialista de Soluções Educacionais da Arco Educação, indicam 10 produções nacionais. Confira!
Direção: Glauber Rocha
Classificação indicativa: 18 anos
Lançado no fim da Ditadura Militar, o filme reflete a censura, o sufocamento artístico e o clima de reabertura política (anistia). Dialoga também com o processo histórico de colonização do Brasil e a imposição cultural europeia e estadunidense.
Segundo Jones Brandão, o filme é excelente para redações que discutem o neocolonialismo econômico, a exploração predatória de recursos naturais (como na Amazônia) por interesses estrangeiros e a persistência do preconceito contra o sincretismo e as religiões de matriz africana no Brasil contemporâneo.
“Este filme é muito desafiador. Ele não possui uma narrativa linear tradicional. É uma obra poética, caótica e puramente simbólica. Vale a pena para o estudante que quer demonstrar um repertório cultural refinado e intelectualizado, focado a identidade nacional e a crítica ao imperialismo”, afirma.
Direção: Bruno Barreto
Classificação indicativa: 16 anos
Baseado em fatos, o filme narra o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick em 1969, contextualizando o endurecimento do regime militar logo após a promulgação do AI-5. A produção pode ser utilizada como base argumentativa para defender a importância da manutenção do estado democrático de direito, a relevância da memória histórica (para que o passado não se repita) e o perigo de minimizar a violência de regimes autoritários.
“O filme humaniza os dois lados de um dos períodos mais sombrios do país, mostrando os dilemas éticos e morais de jovens que pegaram em armas para combater o autoritarismo. É uma obra fundamental para temas que exigem reflexão sobre democracia, liberdade de expressão e os limites da atuação civil e estatal”, considera Jones Brandão.
Direção: Eliane Caffé
Classificação indicativa: livre
Tratando de temas como memória coletiva e identidade cultural, o filme se passa na fictícia cidade de Javé, que corre o risco de ser submersa pelas águas de uma hidrelétrica. Os moradores decidem então escrever a história do povoado, mas enfrentam o desafio de a maioria da população ser analfabeta. A produção usa a poesia e a estética para valorizar a tradição popular e abordar a ameaça do apagamento histórico pelo “progresso” e o impacto socioambiental das grandes obras de infraestrutura.
“É um filme potente para explorar patrimônio imaterial e material, memória e identidade e democratização de acesso à escrita e ao registro civil. Para além da redação, o filme pode contribuir também para o repertório nas áreas de Linguagens e Ciências Humanas, que costumam trazer textos-base e questões que abordam memória, sociedade e patrimônio cultural”, diz Karoline Barreto.
Direção: Hector Babenco
Classificação indicativa: 16 anos
O filme retrata diretamente o massacre que aconteceu no Complexo Penitenciário do Carandiru, um dos episódios mais sangrentos de violação de direitos humanos na história recente do Brasil, evidenciando o despreparo das forças de segurança da época. A obra serve como base para argumentar sobre a superlotação dos presídios brasileiros hoje, o domínio de facções criminosas dentro das prisões e a negligência do Estado na garantia de direitos básicos, como saúde e higiene, para populações vulneráveis.
“Baseado no livro do médico Drauzio Varella, o filme é um soco no estômago que humaniza a população carcerária, mostrando que o sistema prisional reflete as desigualdades crônicas da sociedade brasileira. É um repertório coringa para qualquer tema que envolva segurança pública, saúde coletiva ou marginalização social”, salienta Jones Brandão.
Direção: Marcos Prado
Classificação indicativa: 10 anos
Esse documentário, que já conquistou mais de 30 prêmios nacionais e internacionais, acompanha a rotina de Estamira, uma mulher de 63 anos diagnosticada com esquizofrenia. Ela trabalhou por mais de 20 anos no Jardim Gramacho, que já foi considerado o maior lixão da América Latina. Apesar de ter sido lançado em 2004, é extremamente atual porque trata de temas diversos e grandes problemas humanos e sociais que se agravaram ainda mais nas últimas duas décadas: a saúde mental, o hiperconsumo e a degradação ambiental.
“As reflexões filosóficas e a questão da invisibilidade que compõem a narrativa das temáticas principais e secundárias do filme, como a gestão do lixo urbano e os trabalhadores que atuam com a reciclagem, podem ser relacionadas, por exemplo, à Política Nacional de Resíduos Sólidos ou à Lei da Reforma Psiquiátrica, criando contexto para uma redação potente”, aponta Karoline Barreto, que completa: “Também podem ser exploradas soluções e políticas públicas – ou a falta delas – para essas questões”.
Direção: Jayme Monjardim
Classificação indicativa: 16 anos
O filme humaniza e detalha um dos períodos mais tensos da história política brasileira e mundial. Para o estudante, ele funciona como ilustração de como o Estado violou direitos fundamentais em nome de uma ideologia ou de alianças políticas. A obra pode servir de base para redações que discutem empatia, xenofobia e regimes totalitários. “Também pode ser usado para debater a questão dos refugiados e direitos humanos, criticando a deportação ou extradição de indivíduos para países onde suas vidas correm risco”, complementa Jones Brandão.
Direção: Marcelo Gomes
Classificação indicativa: 14 anos
O filme é ambientado no sertão nordestino, no ano de 1942, e tem como personagens principais os amigos Johann e Ranulpho. O primeiro é um alemão que fugiu da Segunda Guerra Mundial e vende aspirinas pelo interior, e o segundo é um sertanejo que sonha em migrar para o Sul.
Karoline Barreto destaca a fotografia impecável e os diálogos da produção, que escancaram o tema da migração e do refúgio, além dos choques culturais e do poder da propaganda na sociedade. “O filme também dialoga com a Era Vargas, o posicionamento do Brasil durante a Segunda Guerra e a atual crise global de refugiados”, salienta.
Direção: Alê Abreu
Classificação indicativa: livre
Esta animação foi indicada ao Oscar e prova que a simplicidade visual pode carregar uma crítica social profunda. Através dos olhos de uma criança, o filme expõe as engrenagens do mundo moderno sem usar diálogos formais. Ilustra de forma lúdica o processo de industrialização e êxodo rural ocorridos no Brasil ao longo do século XX, quando milhares de famílias deixaram o campo em busca de oportunidades nas periferias das grandes metrópoles.
“É perfeito para criticar a ‘uberização’ e a precarização do trabalho moderno, a substituição da mão de obra humana pela tecnologia sem o devido amparo social, o consumismo alienante e a crise climática decorrente da produção industrial em massa”, pontua Jones Brandão.
Direção: Anna Muylaert
Classificação indicativa: 12 anos
No longa-metragem, acompanhamos a história da empregada doméstica Val, que trabalha na casa de uma família de classe alta. Ela vive bem nesse ambiente, sentindo-se até mesmo parte da família, até que sua filha, já adulta, resolve morar com ela.
“Ainda que seja um filme bastante conhecido, vale a menção pela atualidade dos assuntos abordados, que podem ser relacionados à PEC das Domésticas, aos debates sobre escalas de trabalho e às políticas de inclusão no ensino superior. Constitui, assim, um bom repertório para temáticas sociais e de trabalho”, afirma Karoline Barreto.
Segundo ela, o filme é delicado ao tratar da herança colonial nas relações de trabalho doméstico e moradia urbana no Brasil, trazendo falas cirúrgicas, pausas dramáticas e uma persistência afetiva extremamente colonialista. “O descrédito à mobilidade social por meio da educação e a escancarada divisão de classes são bons exemplos para uma redação sobre esses temas”, ressalta.
Direção: Gabriel Martins
Classificação indicativa: 16 anos
“Marte Um” conta a história dos sonhos e desafios de uma família de classe média baixa. O jovem Deivinho quer se tornar astrofísico e participar de uma missão a Marte, mas seu pai tem outros planos para ele: deseja que o filho seja um grande jogador de futebol.
De acordo com Karoline Barreto, para alunos concluintes do Ensino Médio — vale lembrar que a classificação indicativa é de 16 anos —, o filme provoca reflexões tratadas ao longo de toda a Educação Básica, com alguma acidez, o que traz ainda mais veracidade aos temas.
“O assunto principal não é a violência urbana em si, mas a violência da falta de oportunidades, a violência da saúde mental na periferia e do racismo estrutural. A família negra que encontra projeção de futuro e mobilidade social na educação e no esporte faz do filme uma excelente indicação para ampliar o repertório sobre saúde mental, juventudes na ciência, vulnerabilidade social e apoio familiar”, afirma.
Por Lisandra Matias
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