Diaristas premium sofisticam profissão para cobrar mais: 'Não tiro menos de R$ 8 mil por mês'

Publicado em 05/04/2026, às 17h31
Diaristas premium mostram como reinventaram profissão - Foto: g1

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Durante anos, o trabalho de diarista ocupou a vida de Cláudia Rodrigues de maneira exaustiva. A rotina começava às 3h da manhã: ônibus lotado, longos deslocamentos por São Paulo e chegada às casas dos clientes antes do amanhecer.

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As jornadas eram longas, os ambientes, enormes. Cláudia limpava do chão ao teto, sem saber se sairia dali no meio da tarde ou já à noite. Com semanas cheias, eram mais de 20 diárias mensais.

Por dia, recebia R$ 120. Após pagar transporte e alimentação, chegava em casa com cerca de R$ 80. São tempos que ficaram para trás. Hoje, Cláudia continua trabalhando com limpeza, mas em outro patamar: ela se tornou diarista premium.

Seus pacotes custam R$ 250 (4h), R$ 280 (6h) e R$ 330 (8h), com adicionais entre R$ 80 e R$ 100 para serviços como limpeza de geladeira e armários. A agenda ficou tão cheia que ela contratou uma colaboradora para acompanhar a demanda.

“Não tiro menos de R$ 8 mil. Minha agenda está cheia, sempre encaixando clientes”, diz.
Segundo o IBGE, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores domésticos foi de R$ 1.367 em 2025. O valor se refere à média geral da categoria, sem distinção entre quem tem carteira assinada e quem não tem.

As diaristas premium conseguem faturar quase seis vezes mais que a média dos domésticos ao refinar o serviço e atender um público de alto padrão.

Cláudia conta que sua virada aconteceu quando descobriu, no Instagram, que havia outra forma de fazer o que sempre fez. Encontrou profissionais falando sobre técnica, método, organização e posicionamento. Não era uma nova profissão — era um novo olhar sobre a limpeza.

➡️ A chamada "faxina premium" é apenas um reposicionamento profissional, contam as diaristas ouvidas pelo g1. A sacada é deixar de atuar com foco em rapidez e preço baixo, e passar a entregar um serviço técnico e personalizado.

🔎 Na prática, elas contam que é necessário estudar tipos de piso, aprender sobre produtos químicos, criar cronogramas de organização, investir em imagem profissional e levar equipamentos próprios para as diárias.
Essa reinvenção também cria um ecossistema próprio. Algumas delas usaram os aprendizados para lançar cursos, listas de produtos e conteúdos que fortalecem a profissão e ajudam a combater o preconceito ainda existente.

Cláudia, por exemplo, investiu em mentoria, mudou a forma de atender, passou a levar os próprios produtos, estruturou pacotes por hora e adotou técnicas de detalhamento — do uso de pincéis ao acabamento de metais.

A imagem profissional também virou parte central do negócio. A diarista investiu em fotos, passou a usar uniforme e formalizou o trabalho como microempreendedora individual (MEI).

“No início, quando fiz as fotos profissionais e comecei a alimentar o Instagram, pensei: vou colocar que limpo chão, vão rir da minha cara. Existia muito preconceito”, lembra.
Cláudia Silva estudou técnicas e hoje usa até pincéis para entregar uma limpeza premium. — 

Essa transformação também marcou a trajetória de Gabriela Valente. Ela pediu demissão de um emprego com carteira assinada porque acreditava que a faxina poderia trazer mais retorno. A decisão gerou insegurança, mas a aposta deu certo.

Durante a pandemia, Gabriela lotou a agenda com pacotes que chegavam a R$ 400 por dia. Ao mesmo tempo, viu colegas perderem clientes e enfrentarem dificuldades.

"Em 2020, vi gente sem dinheiro até para comer", conta. Enquanto ela faturava alto, viu muitas diaristas ficarem sem renda. A disparidade a levou a compartilhar o que sabia nas redes sociais.

Hoje, Gabriela é diarista por escolha. Além dos atendimentos, atua como mentora, palestrante e criadora de conteúdo. Ela também criou seu próprio produto de limpeza.

“Passei fome. Vendi roupa para comer. Hoje, tudo mudou. Consegui reformar a casa da minha mãe, construir a lavanderia dos sonhos dela, montar um escritório e pagar colégio particular para meus filhos”, relata.

Mesmo com novas frentes de trabalho, Gabriela mantém quatro clientes fixos. Para novos contratantes, cobra R$ 600 por quatro horas e R$ 1.000 por oito horas. Mas não revela ao g1 quanto fatura por mês.

Trabalha uniformizada e leva uma mala de 23 quilos com equipamentos profissionais. Nas aulas, ela insiste que a técnica evita prejuízos. Em casas com porcelanatos de R$ 5 mil o metro ou sofás de R$ 30 mil, um erro pode sair muito caro.

A diarista detalha as diferenças entre pisos, rejuntes e estofados e orienta sobre os produtos adequados para cada superfície.

"Todo mundo sabe limpar, mas usa sabão em pó, detergente neutro ou misturinhas da internet. Quando você aprende o produto certo e o equipamento certo, tudo muda", afirma.
Embora muitas profissionais se sintam atraídas pela promessa de autonomia e ganhos maiores, sindicatos e consultores reforçam que essa transição não é simples. Ignorar riscos pode comprometer a estabilidade que muitos buscam ao deixar o emprego formal.

O Sebrae alerta que diaristas autônomas não têm Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), férias remuneradas, 13º salário ou aviso prévio. Também reforça que a faxina premium não é uma nova categoria formal, mas um movimento de mercado em um contexto de queda do emprego fixo.

“Está cada vez mais custoso ter um trabalhador doméstico formalizado. Além disso, os próprios profissionais perceberam que o trabalho como diarista é mais lucrativo e dá mais liberdade para ter mais tempo livre ou investir em outras atividades”, explica Glauco Nunes, coordenador de Mercado do Sebrae Rio.


Segundo a entidade, o sucesso depende de planejamento. Isso vai desde a forma de se vender até a precificação e a gestão do orçamento.

Aventura internacional - Mônica Oliveira consolidou seu caminho ao recomeçar na Holanda. Após mais de 20 anos como cabeleireira e manicure no Brasil e em Portugal, ela abriu um salão na Europa, mas a pandemia interrompeu os planos.

Sem alternativa, aprendeu as técnicas de limpeza com outra brasileira e rapidamente percebeu que, na Holanda, o serviço era mais valorizado e melhor remunerado.


Mônica começou atendendo casas e hotéis de luxo em Amsterdã e levou para o dia a dia o padrão que observava na hotelaria. Nada de jogar água no chão. O protocolo é técnico: pano específico para cada superfície, produtos adequados e aspirador profissional.

 


A brasileira também abandonou a cobrança por hora e passou a vender combos com serviços fechados. Para cada novo cliente, envia um documento detalhando serviços, técnicas e extras, como limpeza de geladeira, armários e lava-louças.

A limpeza básica custa 87 euros, cerca de R$ 550. Em serviços mais completos, o valor pode chegar a 290 euros, aproximadamente R$ 1.830. Limpezas de mudança alcançam 150 euros, algo em torno de R$ 950.

A proposta vai além da limpeza visível. Mônica observa a disposição dos objetos, o alinhamento das toalhas, o brilho dos metais e a fragrância do ambiente. Sua entrega é proporcionar ao cliente a sensação de entrar em um quarto de hotel.

Ou seja, o foco deixou de ser o tempo e passou a ser a experiência entregue. Seu público inclui moradores de alto padrão, expatriados e clientes que buscam padrão de hotelaria dentro de casa.

Hoje, Mônica tem agenda cheia, site próprio, oferece cursos e acumula mais de 500 mil seguidores no Instagram, onde compartilha dicas de limpeza e bastidores do dia a dia.

Alguns cuidados - Especialistas alertam que essa perspectiva de ganhos da faxina premium deve vir acompanhada de preparo, planejamento e de ciência da realidade jurídica e previdenciária da profissão.

O Sindoméstica, sindicato das trabalhadoras domésticas, destaca a falta de direitos trabalhistas para diaristas. Janaina Souza, presidente do sindicato, chama atenção para a confusão entre faturamento alto e segurança. Muitas diaristas realmente ganham mais como autônomas, mas abrem mão de garantias importantes.

Existe ainda o risco de precarização quando a diarista não se organiza juridicamente. A contribuição ao INSS, por exemplo, precisa ser feita por conta própria. Sem isso, não há amparo em caso de acidente, licença ou doença.

Tanto o sindicato quanto o Sebrae recomendam a formalização via MEI. Essa etapa facilita a emissão de nota, o acesso a crédito, a comprovação de renda e benefícios previdenciários básicos, como aposentadoria ou auxílio-doença. O Sebrae orienta que o planejamento deve começar antes da mudança.


Algumas dicas são:

Calcule todos os custos reais envolvidos no serviço: transporte, alimentação, compra e manutenção de equipamentos, desgaste físico, reposição de produtos, investimento em marketing e até custos com internet e ferramentas digitais.
Construa uma presença digital profissional: boas fotos, portfólio, materiais de apresentação e conteúdos nas redes ajudam a transmitir credibilidade.
Evite competir apenas por preço: destaque-se pela qualidade, pela experiência e pelo profissionalismo.
Formalize-se como MEI: isso garante segurança jurídica e acesso a benefícios.
Defina preços de forma estratégica: a precificação deve cobrir custos, garantir lucro e refletir o posicionamento da profissional.
A precificação, inclusive, é um dos pontos mais delicados. Gabriela costuma alertar suas alunas que não adianta cobrar caro sem entregar qualidade, nem cobrar barato ignorando o próprio valor.

"Quem entende o trabalho, paga", afirma. 
Por fim, especialistas recomendam criar uma reserva financeira e adotar contratos de prestação de serviços. Isso ajuda a enfrentar períodos de baixa demanda e evita conflitos com clientes.

 

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