Redação EdiCase
Filtros digitais, imagens editadas e ferramentas de inteligência artificial estão mudando a forma como muitas pessoas enxergam o próprio corpo. A exposição frequente a rostos e corpos modificados digitalmente cria referências difíceis de alcançar na vida real e aumenta a discussão sobre como a comparação influencia a autoestima e as decisões relacionadas a procedimentos estéticos.
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Marco Dallegrave, médico, cirurgião plástico, pós-graduado em Psiquiatria e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, explica que a avaliação de uma cirurgia não deve considerar apenas a característica física que incomoda, mas também a origem desse desejo.
“Hoje a comparação não acontece apenas com outras pessoas, mas com imagens escolhidas, filtros, ângulos e edições. Quando uma referência digital passa a definir como alguém acredita que deveria ser, isso pode influenciar a forma como a pessoa enxerga o próprio corpo e as expectativas que leva para o consultório”, afirma Marco Dallegrave.
A popularização dos filtros de beleza trouxe uma nova relação com a própria imagem. Recursos que alteram pele, nariz, olhos, mandíbula e proporções faciais passaram a fazer parte da rotina de milhões de usuários, enquanto ferramentas de inteligência artificial conseguem criar versões ainda mais próximas de uma aparência idealizada.
O estudo “Associations between TikTok facial filter use and body image variables”, publicado em 2025 na revista científica Body Image e realizado com 397 universitários usuários do TikTok, identificou associação entre o uso de filtros faciais voltados à melhoria da aparência e níveis maiores de insatisfação facial e preocupação com a imagem corporal. Os pesquisadores destacaram que os resultados indicam uma relação entre os fatores, mas não comprovam causa direta.
Segundo Marco Dallegrave, o principal cuidado está quando a imagem digital deixa de ser uma inspiração e passa a funcionar como uma expectativa de resultado. “Uma fotografia modificada pode mostrar uma referência visual, mas não representa uma possibilidade real de reprodução. Cada pessoa possui características próprias de pele, estrutura óssea, distribuição de gordura e proporções corporais”, explica.
O especialista ressalta que a busca por mudanças estéticas não significa necessariamente uma relação negativa com a aparência. O ponto de atenção aparece quando a insatisfação se torna constante, muda de uma região do corpo para outra ou quando a pessoa acredita que uma cirurgia resolverá questões emocionais, profissionais ou sociais.
“Existe uma diferença entre melhorar algo que realmente incomoda e tentar acompanhar um padrão que muda conforme as tendências. Nenhum procedimento consegue resolver uma comparação permanente com imagens que são constantemente transformadas”, destaca o cirurgião plástico.
Antes de indicar um procedimento, a avaliação médica considera fatores como histórico da insatisfação, expectativa sobre o resultado e entendimento dos limites da cirurgia. Para Marco Dallegrave, o papel do cirurgião também envolve orientar quando a intervenção não é o caminho mais adequado.
“Nem todo desejo de mudança precisa resultar em cirurgia. Quando a expectativa não corresponde ao que o procedimento consegue oferecer ou quando a questão apresentada vai além de uma característica física, a decisão mais responsável pode ser não operar”, ressalta.
A cirurgia plástica pode contribuir para o bem-estar quando existe indicação médica e uma expectativa compatível com as possibilidades do procedimento. Para o especialista, a relação com a própria imagem ganhou uma nova dimensão diante da influência das redes sociais e das ferramentas digitais.
“O objetivo não deve ser sair de uma cirurgia parecido com aquilo que aparece repetidamente na tela. A beleza também envolve a forma como a pessoa se enxerga, se respeita e entende o próprio valor. A cirurgia pode modificar características físicas, mas não deve carregar a responsabilidade pela autoestima ou pela felicidade de alguém”, afirma Marco Dallegrave.
Segundo o cirurgião plástico, “quando existe clareza sobre o que a pessoa realmente deseja e o que vem de uma pressão externa, a decisão se torna mais consciente. A transformação pode acontecer por fora, mas a relação com a própria imagem precisa ser construída de dentro para fora”, conclui.
Por Carolina Lara
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