Assessoria
No Dia do Artesão, a trajetória de Claudete de Lima mostra como a tradição aprendida ainda na infância encontrou novos caminhos na internet
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A história da artesã Claudete de Lima começa cedo, entre linhas, redes e vizinhança. Conhecida por todos como Dete, ela chegou ainda criança ao tradicional bairro do Pontal da Barra, em Maceió, um dos lugares mais conhecidos do país quando se fala em bordado filé. Tinha apenas cinco anos quando a família se mudou para o bairro. Quatro anos depois, aos nove, ela já dava seus primeiros pontos na rede.
O aprendizado veio de forma natural, como acontece há gerações entre as artesãs do lugar. “Eu aprendi o filé aos nove anos. Aprendi com as vizinhas, junto com minha mãe”, lembra.
Na adolescência, o bordado deixou de ser apenas um aprendizado cultural e passou a representar também a autonomia. Foi nessa fase que Dete começou a vender suas primeiras peças para conseguir algum dinheiro. Com o passar dos anos, a vida tomou outros caminhos: ela chegou a trabalhar em outras atividades, mas o artesanato nunca deixou de fazer parte da sua história.
Foi depois do casamento e já com um filho que o filé voltou a ocupar o centro da sua vida. “Depois que casei, retornei novamente para o artesanato. E de lá para cá não saí mais. Graças a Deus, Ele me deu o dom de fazer roupas, vestidos de noiva, vestidos de festa. Eu amo essa técnica, amo o bordado do filé. Eu me realizo fazendo isso”, conta.
Mais do que produzir peças, Dete também descobriu ao longo do tempo um prazer especial em compartilhar conhecimento. Ensinar outras pessoas a aprender o bordado se tornou parte do seu caminho, inclusive participando como professora orientadora do projeto Rede a Rede, iniciativa da Braskem voltada à valorização e transmissão do saber artesanal. Um projeto que teve um papel fundamental no desenvolvimento social e cultural local.
Mas foi em um momento inesperado, durante a pandemia, que sua arte encontrou um novo território. Em meio às restrições daquele período, Dete começou a navegar pela internet e encontrou um canal que ensinava a técnica do filé. Ao assistir aos vídeos, percebeu que havia erros no modo como o bordado estava sendo apresentado. Aquilo despertou uma ideia.
“Eu já tinha vontade de fazer isso, mas quando vi aquele canal pensei: ‘eu sei muito mais que isso, tenho prática, tenho vivência’. Então resolvi começar”, conta.
Assim nasceu seu canal no YouTube. Diante de uma câmera simples e com o mesmo cuidado que dedica às redes bordadas, ela passou a gravar aulas ensinando pontos, técnicas e formas de montar o filé.
Sem imaginar o alcance que teria, Dete começou a perceber que sua arte atravessava fronteiras. Hoje, o canal reúne mais de cem vídeos e já ajudou centenas de pessoas a aprender a técnica tradicional. Muitas delas, inclusive, ela encontrou pessoalmente pelas ruas do próprio Pontal da Barra.
“Já encontrei meninas aqui em Alagoas que disseram que aprenderam comigo pelo YouTube. Uma vez encontrei umas que vendem rede e elas disseram: ‘Ah, é a Dete? Eu aprendi com você’. Isso é maravilhoso”, conta, sorrindo.
A internet também aproximou sua história de pessoas de outros estados e até de outros países. Um dos encontros mais marcantes aconteceu quando uma turista de Porto Rico reconheceu a artesã no bairro. “Ela me encontrou no Pontal e disse que me acompanhava no YouTube. Foi bem emocionante”, lembra.
A experiência, segundo ela, mudou a forma como enxerga o próprio trabalho. “Saber que a sua arte, aquilo que você gosta de fazer, pode alcançar o mundo… é muito bom”.
Apesar das conquistas e do reconhecimento, viver do artesanato ainda traz desafios. Para Dete, falta uma política mais estruturada que fortaleça o trabalho dos artesãos em um estado tão marcado pela cultura e pelo turismo.
“O grande desafio é viver do artesanato. Existem algumas ações, mas ainda são muito pontuais. A gente vive em um estado rico em turismo, em cultura, em arte, mas quem vive disso sente que ainda falta muito apoio”, afirma.
Mesmo diante dessas dificuldades, ela segue fazendo o que sempre fez desde menina: bordando redes, ensinando pessoas e mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.
A trajetória de Dete mostra que o filé é muito mais do que uma técnica manual. É memória, identidade e persistência. E agora, graças à combinação entre tradição e tecnologia, também se transformou em uma ponte que conecta o Pontal da Barra ao mundo.
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