Erro em laboratório faz estudantes tomarem antibióticos após suspeita de exposição a bactéria da meningite

Publicado em 29/07/2026, às 21h41
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Galileu

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Uma aula prática de microbiologia em uma universidade de Utah, nos Estados Unidos, terminou com um grande susto: 33 pessoas acreditaram ter sido expostas a uma bactéria potencialmente mortal. O caso aconteceu em setembro de 2025, mas foi detalhado em um relatório publicado em 23 de julho na revista Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR).

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Tudo começou durante uma atividade de laboratório em que os estudantes deveriam identificar uma bactéria desconhecida usando testes bioquímicos e observações microscópicas. A amostra distribuída pelos professores deveria ser da Plesiomonas shigelloides, bactéria transmitida através da ingestão de água contaminada e consumo de frutos do mar crus ou mal cozidos.

No entanto, quando os alunos analisaram os resultados, todos chegaram à mesma conclusão. A bactéria estudada parecia ser Neisseria meningitidis, um microrganismo que pode causar meningite e infecções generalizadas graves. Como o mesmo resultado foi obtido por diferentes grupos, a suspeita rapidamente ganhou credibilidade.

A situação gerou preocupação imediata porque a atividade havia sido planejada para o manuseio de uma bactéria menos perigosa. Por isso, os estudantes não utilizavam os equipamentos de proteção individual nem seguiam os protocolos de segurança laboratorial recomendados para trabalhar com a N. meningitidis, apenas usavam luvas e jalecos, como destaca a Ars Technica.

Diante desse cenário, as autoridades de saúde recomendaram que todos os possíveis expostos iniciassem o tratamento pós-exposição durante dez dias — um tratamento preventivo com antibióticos para reduzir o risco de desenvolver a doença. Dos 33 envolvidos, 32 iniciaram a medicação.

Além disso, duas pessoas procuraram atendimento médico após desenvolver sintomas leves que poderiam ser compatíveis com doença meningocócica. Como medida de precaução, ambas foram submetidas a punções lombares, procedimento que coleta o líquido cefalorraquidiano (que protege o cérebro e a medula espinhal), utilizado para investigar casos suspeitos de doenças como a meningite. Os exames, no entanto, deram resultado negativo. Não foi sem motivo: a bactéria em questão não era a que todo mundo imaginava.

Um perigo imaginário

A investigação feita pelo Laboratório de Saúde Pública de Utah (UPHL) revelou que o perigo nunca existiu. Na verdade, os alunos haviam recebido uma cepa de Neisseria sicca, uma bactéria normalmente inofensiva que é encontrada nas vias respiratórias superiores e na cavidade oral dos seres humanos.

O problema é que ela apresentou características muito semelhantes às da bactéria N. meningitidis em diversos testes laboratoriais usados no exercício. Todos identificaram a bactéria misteriosa como um "diplococo gram-negativo, oxidase e catalase-positivo", com padrões de fermentação de carboidratos parecidos com o da N. meningitidis, o que levou toda a turma à mesma identificação equivocada.

Em outras investigações realizadas por autoridades de saúde estaduais e federais foi apontado que a origem do problema estava na forma como as amostras estavam armazenadas. A cepa de N. meningitidis usada na aula não deveria estar no freezer destinado aos materiais didáticos, mas acabou sendo guardada ali, possivelmente por engano, junto às amostras de P. shigelloides. Com isso, ela foi selecionada para a atividade prática no lugar da bactéria de baixo risco que havia sido planejada pelos responsáveis pelo curso.

Após o susto

Uma investigação realizada pela universidade com o auxílio do Departamento de Saúde e Serviços Humanos de Utah (DHHS) constatou “controles de estoque inadequados para identificar, rotular, armazenar e segregar materiais biológicos de acordo com as práticas de manuseio e as condições de contenção”, além de uma “supervisão limitada dos funcionários do almoxarifado, disponibilidade e uso inadequados de equipamentos de proteção individual e documentação insuficiente do inventário de amostras, sua destinação e cadeia de custódia.”

Após o incidente, a universidade revisou seus procedimentos de armazenamento e manuseio das cepas utilizadas nas aulas. Entre as mudanças adotadas estão a reorganização dos estoques de bactérias, a separação mais rigorosa entre amostras destinadas ao ensino e aquelas usadas para pesquisa, além do estabelecimento de orientações sobre o uso de equipamentos de segurança e o treinamento necessário no manuseio seguro de microrganismos para prevenir a exposição.

Embora ninguém tenha sido realmente exposto à bactéria causadora da meningite, dezenas de pessoas passaram dias acreditando que corriam risco de desenvolver uma doença potencialmente fatal, receberam antibióticos preventivos e, em dois casos, foram submetidas a procedimentos médicos invasivos, tudo isso por uma bactéria que nunca deveria ter chegado à sala de aula.

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