Das tradições nordestinas, a viola e o repente estão entre as mais antigas. A arte, que nasce do improviso rimado, foi celebrada no festival Noite da Viola Nordestina, que abriu a programação do mês de junho reunindo, no bairro do Bom Parto, mestres violeiros e repentistas de Alagoas e de outros estados da região. O encontro foi contemplado pelo Edital Cultura em Movimento, iniciativa do Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS).
Para além da celebração da cultura popular, o evento foi uma homenagem ao legado de um mestre: Elias Procópio de Lima, conhecido como João Procópio, alagoano que atua há 60 anos na arte da viola e do repente e é patrimônio vivo de Alagoas desde 2005.
A relação de João Procópio com essa arte começou de uma maneira diferente: ele morou por seis anos no Rio de Janeiro e foi lá que conheceu os repentistas e violeiros que participavam da Feira de São Cristóvão. “Quando comecei na cantoria de viola, eu era coquista, que são os cantadores que cantam nas feiras livres com pandeiro. Fui coquista e vendedor cordelista. Quando voltei ao Nordeste, não quis saber de outra coisa que não fosse a viola, e sigo com ela desde meus 20 anos, hoje estou com 86.”, conta.
O mestre fundou a Associação dos Violeiros e Trovadores de Alagoas (AVTA), e o projeto Poetas nas Escolas, para ajudar a manter viva essa tradição. Ele cita que é necessário que a nova geração se interesse e por isso incentiva o trabalho nas escolas. Lá, eles percebem que alguns alunos têm o dom, estimulam e oferecem a base para que sejam lapidados.
“Um violeiro tem que ler bastante para saber responder o repente. A inspiração pode vir da natureza e das outras pessoas ao redor, mas o repentista tem que ser espirituoso, às vezes acontece de esquecer como responder, porque criamos tudo ali no momento. Por isso, o cantador começa tendo o dom, mas é preciso lapidar”, explica Procópio.
*Arte que não se faz só*
Um dos mestres violeiros convidados foi o pernambucano Edvaldo ‘Zuzu’, que tem uma parceria sólida com o mestre João Procópio desde os anos 90, com convites para participar dos eventos e a amizade que se construiu ao longo do caminho.
“O nosso fazer artístico não se faz sozinho, exige parceria. Mais do que ter dupla para o desafio, significa ter um companheiro para partilhar viagem, os dividendos da cantoria e o trabalho em si. É impossível não construir amizades no nosso meio.”, comenta ‘Zuzú’.
Na plateia do evento, que foi aberto ao público, estava a professora Adinelma Pereira da Silva, que começou a acompanhar os eventos incentivada por sua amiga Maria José dos Santos, fã dessa arte. Dona Zeza, como é conhecida, conta que a cantoria de viola sempre esteve presente em sua vida. Seu irmão era violeiro e ela gostava de acompanhar. Hoje, ela conta que criou uma amizade com os mestres violeiros, não deixa de prestigiar um evento sequer e tem direito a cantoria para comemorar seu aniversário.
Com o incentivo de Dona Zeza, a professora Adinelma frequenta os eventos há quatro anos. “Antes eu vinha e ficava um pouco, mas agora assisto até o final. Acho um trabalho fascinante, eles podem estar em um mega show ou com um público menor que a dedicação é a mesma. A criatividade deles é muito bonita de se ver”, finaliza.
Sobre o PAS
O Plano de Ações Sociourbanísticas está previsto no Termo de Acordo Socioambiental firmado pelo Ministério Público Federal (MPF) e Braskem, com a participação do Ministério Público Estadual (MPE) e adesão do Município de Maceió.