Foco de denúncias, Angra 3 é prioritária para Bolsonaro

Publicado em 23/03/2019, às 09h26
-

Folhapress

Iniciada há 35 anos e foco de diversas denúncias de corrupção, a construção da usina nuclear de Angra 3 é considerada uma das prioridades da área energética do governo Jair Bolsonaro, comandada por um almirante que fez carreira no setor.

LEIA TAMBÉM

O governo espera definir até meados do ano um modelo de atração de sócios privados para contribuir com os R$ 15 bilhões que faltam para concluir as obras. A previsão atual de entrada em operação é 2026.

O projeto já consumiu R$ 9 bilhões e o governo defende que a desistência custaria outros R$ 12 bilhões com equipamentos, financiamentos e outros contratos. "É um projeto prioritário", disse na quinta (21) o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

Ele falou à imprensa antes da prisão do ex-presidente Michel Temer por suspeita de corrupção em contratos da usina. Nesta sexta (22), evitou a imprensa na saída de reunião com executivos no Rio.

Também presente à reunião, o presidente da Eletronuclear, Leonam Guimarães, disse que o governo deve iniciar no mês que vem pesquisa de mercado sobre o melhor modelo para atrair sócios privados.

Ele citou como alternativas a busca por um sócio para a estatal ou apenas para a usina ou um contrato de construção que garanta fatia da receita futura do projeto. Segundo executivos, empresas da China, França, EUA, Coreia e Rússia demonstraram interesse.

A continuação das obras é vista como estratégica pelos militares, sob o argumento de que é fundamental para o projeto brasileiro de dominar o ciclo de produção de combustível nuclear -atualmente, o país precisa contratar no exterior parte dos serviços.

No mercado, porém, há dúvidas com relação à continuidade. Estudo divulgado em 2018 pela consultoria PSR concluiu que caso a usina fosse substituída por projetos de energia solar no Sudeste os consumidores economizariam R$ 6,6 bilhões por 35 anos.

O governo Temer dobrou a tarifa da usina, para R$ 480 por MWh (megawatt-hora), para viabilizar a retomada. O ministro de Minas e Energia, na época, era Moreira Franco, também preso na quinta.

Com potência de 1.405 MW, Angra 3 pode gerar mais de 12 milhões de MWh por ano, o suficiente para abastecer Brasília e Belo Horizonte por um ano.

Ela é parte de acordo assinado com a Alemanha em 1975, que previa a construção de três usinas nucleares na central localizada em Angra dos Reis, litoral sul do Rio. As duas primeiras, Angra 1 e 2, já estão em operação. A construção de Angra 3 foi iniciada em 1984, mas paralisada dois anos depois por falta de recursos.

Em 2007, o então presidente Lula decidiu retomar o projeto. Na época, os custos eram estimados em R$ 7,2 bilhões (R$ 13,4 bilhões em valores corrigidos) e o início das operações foi previsto para 2013.

Em outubro de 2015, as obras foram interrompidas novamente. A Eletronuclear e os construtores alegaram divergências sobre custos.

O projeto já estava no radar da Lava Jato: três meses antes, o então presidente da estatal, almirante Othon Luiz Pinheiro, havia sido preso por suspeita de favorecimento de empreiteiras. Em 2016, ele foi condenado a 43 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Pinheiro é um dos citados na denúncia contra Temer e Moreira Franco.

Em nota, a Eletrobras disse que os contratos relacionados à construção de Angra 3 foram objeto de investigação independente conduzida entre o início de 2015 e o final de 2018. A estatal diz que acompanha as ações decorrentes da Lava Jato para avaliar medidas adicionais visando o ressarcimento de perdas -até agora identificadas em R$ 141,3 milhões.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Bolsonaro apresenta piora da função renal, diz boletim médico Troca de advogado de Vorcaro sinaliza possível delação premiada Polícia fecha centro de treinamento do CV para adolescentes em ilha de área indígena Bolsonaro está estável, mas situação é extremamente grave, diz médico