Gordura visceral, localizada e lipedema: veja por que a localização da gordura muda o risco para a saúde

Publicado em 24/07/2026, às 15h00
- A localização da gordura corporal influencia os riscos à saúde e a escolha do tratamento mais adequado (Imagem: fast-stock | Shutterstock)

Redação EdiCase

Durante muito tempo, a palavra “gordura” foi utilizada como se representasse uma única condição. No entanto, a ciência mostra que diferentes depósitos de tecido adiposo desempenham funções distintas no organismo. Enquanto alguns são fundamentais para a proteção de órgãos e para o metabolismo, outros estão associados ao aumento do risco cardiometabólico ou fazem parte de doenças específicas, como o lipedema. 

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“Essa diferenciação é importante porque nem toda gordura representa um problema de saúde, e reduzi-las ao mesmo conceito pode atrasar diagnósticos e gerar expectativas equivocadas sobre emagrecimento e tratamentos”, explica a endocrinologista Dra. Deborah Beranger, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).

Segundo a médica, a localização da gordura interfere diretamente em seu comportamento metabólico. “O tecido adiposo é um órgão metabolicamente ativo. Ele armazena energia, produz hormônios e libera diversas moléculas sinalizadoras, chamadas adipocinas, que participam da regulação do metabolismo, da resposta imunológica e de processos inflamatórios. O impacto dessas substâncias varia conforme a quantidade, a localização e as características desse tecido”, explica.

Gordura visceral: a que merece maior atenção metabólica

Entre os diferentes depósitos adiposos, a gordura visceral é considerada a de maior relevância clínica. A endocrinologista explica que a gordura visceral se acumula na cavidade abdominal, envolvendo órgãos como fígado, intestino e pâncreas, e está associada ao desenvolvimento de diversas doenças, entre elas, resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD) e doenças cardiovasculares.

“Esse tecido apresenta intensa atividade metabólica e produz mediadores inflamatórios, incluindo citocinas pró-inflamatórias, como fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e interleucina 6 (IL-6), além de alterações na produção de adipocinas. Quando acumulada em excesso, a gordura visceral contribui para um estado de inflamação crônica de baixo grau, reconhecido como um dos mecanismos envolvidos no desenvolvimento de diversas doenças metabólicas”, esclarece a Dra. Deborah Beranger. 

Embora exames de imagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, sejam os métodos mais precisos para quantificar a gordura visceral, na prática clínica a circunferência da cintura é uma medida simples e bastante útil para estimar esse risco, segundo a médica. 

“De forma geral, valores acima de 80 cm em mulheres e acima de 94 cm em homens já indicam aumento do risco cardiometabólico, enquanto medidas acima de 88 cm nas mulheres e 102 cm nos homens estão associadas a um risco substancialmente maior para doenças cardiovasculares e metabólicas. Não é apenas o peso na balança que importa, mas onde essa gordura está distribuída. Pessoas com índice de massa corporal semelhante podem ter riscos muito diferentes dependendo da quantidade de gordura visceral acumulada”, explica.

Gordura localizada: uma característica corporal, não uma doença

A gordura localizada, encontrada principalmente na região abdominal superficial, quadris, coxas, culotes e braços, costuma representar uma preocupação predominantemente estética. “Ela faz parte da distribuição normal do tecido adiposo e sofre influência da genética, do sexo, da idade e do perfil hormonal. Sua presença, isoladamente, não significa aumento do risco cardiovascular nem caracteriza uma doença”, comenta a endocrinologista. 

Além disso, ela ressalta que nem toda gordura do corpo precisa ser eliminada. “O tecido adiposo desempenha funções importantes no organismo, como reserva energética, isolamento térmico e proteção mecânica. Em muitas pessoas, a gordura localizada representa apenas uma característica individual da composição corporal”, ressalta.

O diagnóstico correto é fundamental para diferenciar o lipedema da obesidade e da gordura localizada (Imagem: Svitlana Hulko | Shutterstock)

Lipedema: quando o tecido adiposo se torna uma doença

Com relação ao lipedema, vale lembrar que ele não é um tipo de gordura, mas uma doença crônica que acomete principalmente mulheres e se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, geralmente em pernas e, em alguns casos, também nos braços. 

“Ao contrário da gordura localizada, o lipedema costuma provocar dor espontânea ou ao toque, sensação de peso, facilidade para formação de hematomas e aumento simétrico dos membros, frequentemente poupando os pés”, explica o cirurgião plástico Dr. Rafael Erthal, referência no tratamento de lipedema.

O médico ressalta que o lipedema difere da obesidade e da gordura localizada. “Trata-se de uma condição clínica que envolve alterações do tecido adiposo e da microcirculação, com repercussões funcionais importantes. Muitas pacientes emagrecem, mas continuam apresentando desproporção corporal e sintomas nas pernas”, afirma.

Dessa maneira, emagrecer pode não ser suficiente para algumas pacientes. “Embora pessoas com lipedema também possam apresentar obesidade, perder peso nem sempre reduz de forma significativa o tecido acometido pela doença, o que explica por que algumas pacientes continuam com dor e desproporção corporal mesmo após emagrecer”, acrescenta a Dra. Deborah Beranger. 

Impactos do lipedema na saúde e na qualidade de vida

O Dr. Rafael Erthal alerta que, sem diagnóstico e tratamento adequados, o lipedema pode comprometer progressivamente a qualidade de vida. “O aumento do volume dos membros inferiores, associado à dor, pode alterar a marcha, reduzir a prática de atividade física e aumentar a sobrecarga sobre joelhos, quadris e tornozelos, favorecendo o desenvolvimento ou agravamento de problemas osteoarticulares”, diz.

Segundo o especialista, os casos mais avançados da doença podem provocar limitações importantes no dia a dia. “Em estágios mais avançados, não estamos falando apenas de uma alteração estética. Muitas pacientes apresentam limitação funcional, dificuldade para caminhar, subir escadas ou permanecer longos períodos em pé. Quando há indicação, a cirurgia plástica busca reduzir esse tecido adiposo doente, aliviar sintomas e melhorar a funcionalidade“, afirma o cirurgião plástico.

O diagnóstico correto muda o tratamento

Identificar corretamente o tipo de tecido adiposo predominante é fundamental para definir a abordagem mais adequada de tratamento. “Enquanto o excesso de gordura visceral exige prioridade no controle dos fatores de risco metabólicos, a gordura localizada pode ser tratada apenas se houver desejo estético”, explica a Dra. Deborah Beranger.

O lipedema, conforme a médica, exige uma avaliação clínica específica, pois se trata de uma condição que vai além do excesso de gordura corporal. O tratamento deve ser individualizado e, na maioria dos casos, envolve uma abordagem multidisciplinar, com a participação de diferentes profissionais de saúde. Em casos selecionados, o tratamento cirúrgico pode ser recomendado para aliviar os sintomas, melhorar a funcionalidade e proporcionar mais qualidade de vida à paciente.

“Entender que nem toda gordura é igual ajuda a abandonar soluções generalistas. Cada condição tem mecanismos biológicos próprios e, por isso, exige uma abordagem individualizada”, finaliza.

Por Maria Claudia Amoroso

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