Governo de Jair Bolsonaro promete virada na política externa

Publicado em 31/12/2018, às 21h09
Reprodução/EBC -

Patrícia Campos Mello e Luciana Coelho/Folhapress

A ascensão de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto e de Ernesto Araújo ao Itamaraty promete mudanças nas diretrizes da política externa brasileira, em uma ruptura não apenas com os anos Lula (2003-10), mas também com alguns dogmas como a premissa da imparcialidade no Oriente Médio.

LEIA TAMBÉM

O comércio deve ser o norte, e aliados à direita, os mais cortejados. A Europa e a Ásia passam para segundo plano, e EUA e Israel a amigos mais próximos.

Na região, a ala bolivariana formada por líderes à esquerda como Evo Morales (Bolívia) e Nicolás Maduro  (Venezuela) dá lugar à aliança com os direitistas Sebastián Piñera (Chile) e Iván Duque (Colômbia).

Em crise, a Argentina, principal aliada no continente e também governada por um liberal, Mauricio Macri, parece ser alvo de um resfriamento das relações.

Palco mundial

É improvável que o país retome pleitos de governos passados como mediar conflitos, liderar negociações multilaterais como Doha (comércio) e Paris (clima) ou a busca pelo assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Missões de paz e de defesa podem continuar, em vista pela forte presença de militares no novo gabinete. A mudança de alianças também deve dar alguma visibilidade –não necessariamente positiva, devido ao afastamento da Europa Ocidental.

Oposição ao multilateralismo

Integrantes do governo são duros críticos do globalismo e da influência de instituições multilaterais. O futuro chanceler, Ernesto Araújo, anunciou que o Brasil sairá do Pacto Global de Migração da ONU. Bolsonaro chegou a dizer que, se eleito, o Brasil deixaria a ONU. "[A ONU] Não serve para nada, é um local de reunião de comunistas", afirmou em agosto. Depois, voltou atrás e disse que pretende deixar o conselho de direitos humanos da ONU, como fizeram os EUA.

Acordo do Clima

Bolsonaro critica o Acordo de Paris sobre a mudança climática e afirmou que o Brasil abriu mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU em 2019 porque isso "poderia constranger o futuro governo a adotar posições que requerem um tempo maior de análise e estudo". Para o presidente eleito, o acordo do clima ameaça a soberania na região da Amazônia. O chanceler Ernesto Araújo já afirmou que a esquerda perverteu a causa ambiental, transformando-a em "ideologia da mudança climática".

Mercosul

O guru econômico e futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, alarmou vizinhos do Brasil ao dizer que o Mercosul não será prioridade. Também afirmou que a primeira visita presidencial seria ao Chile, governado pelo direitista Sebastián Piñera. Isso incomodou argentinos que, tradicionalmente, são a primeira parada dos governantes brasileiros. Embora a Argentina também seja governada por um liberal, a predileção de Guedes –e Bolsonaro– é clara pelo Chile.

Rompimento com ditaduras alinhadas à esquerda

Os ditadores de Cuba, Venezuela e Nicarágua foram desconvidados da posse. Bolsonaro já mencionou possível rompimento de relações com Cuba, criticou o Mais Médicos e acusou Havana de infiltrar agentes de inteligência entre os profissionais; Cuba acabou com a parceria com o Brasil. O presidente eleito afirmou que a saída de Nicolás Maduro seria o melhor caminho para a Venezuela, mas negou que apoie intervenção militar no país vizinho.

Agronegócio

O futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, anunciou que vai criar uma divisão dedicada ao agronegócio no Itamaraty para promover a exportação dos produtos agrícolas brasileiros e atuar em acordos e negociações. "Nos governos petistas, o Itamaraty foi a casa do MST. Agora estará à disposição do produtor", disse o futuro chanceler em rede social. Ele também afirmou que vai defender o agronegócio brasileiro em foros internacionais da pecha de ser agressor do meio ambiente.

China

Na campanha, Bolsonaro apontou para o aumento da presença chinesa no Brasil: "Terras agricultáveis, subsolo, hidrelétricas, portos, frigoríficos... a China está comprando não NO Brasil, mas O Brasil." Em março, fez uma visita a Taiwan, causando uma saia justa diplomática por ser o primeiro presidenciável a visitar Taiwan desde que o Brasil reconheceu Pequim como "único governo legal da China" em 1974. Em carta, o governo chinês manifestou "profunda preocupação e indignação".

Estados Unidos

Bolsonaro é fã fervoroso do presidente Donald Trump, que foi um dos primeiros a parabenizar o brasileiro por sua vitória nas eleições. Em um giro pelos EUA, seu filho Eduardo usou boné "Trump 2020" e foi recebido por Jared Kushner, genro do líder americano, e por senadores republicanos como Ted Cruz e Marco Rubio. O assessor de Segurança Nacional do governo Trump, John Bolton, parou no Rio de Janeiro para se encontrar com Bolsonaro, a caminho da reunião do G20 em Buenos Aires.

Israel

Bolsonaro pretende transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, em mais um gesto de alinhamento com os EUA e um agrado à base evangélica de Bolsonaro. O anúncio levou o Egito a cancelar uma viagem que o chanceler Aloysio Nunes faria ao país. A Liga Árabe enviou carta alertando Bolsonaro de que a medida pode prejudicar as relações do Brasil com os países árabes, que hoje representam o segundo maior comprador de proteína animal brasileira.

Oriente Médio

Em mais um alinhamento aos EUA, o filho do presidente eleito, Eduardo Bolsonaro, tem afirmado que o país dará apoio renovado a países sunitas, em oposição ao Irã, de maioria xiita. Em agosto, o então candidato Jair Bolsonaro afirmou que pretende fechar a Embaixada da Autoridade Palestina em Brasília. "A Palestina não é país, não deveria ter embaixada aqui. Não dá para negociar com terrorista", disse. O governo brasileiro reconheceu a Palestina como Estado independente em 2010.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Vídeo: criança fica com farpa de madeira presa nas amígdalas após comer carne moída Bolsonaro apresenta piora da função renal, diz boletim médico Troca de advogado de Vorcaro sinaliza possível delação premiada Polícia fecha centro de treinamento do CV para adolescentes em ilha de área indígena