Homens usam tags em tênis, mochilas e carros para perseguir e monitorar mulheres em SP

Publicado em 23/06/2026, às 14h12
Dispositivo de rastreamento escondido dentro de um tênis infantil; equipamentos desse tipo têm sido usados em casos de perseguição e monitoramento não autorizado - Arquivo Pessoal

Bárbara Sá / Folhapress

Ler resumo da notícia

Dispositivos do tamanho de uma moeda, à venda por menos de R$ 100, estão sendo usados por homens para monitorar mulheres em São Paulo.

LEIA TAMBÉM

Escondidas em carros, bolsas, mochilas e até em pertences de crianças, as chamadas tags de rastreamento permitem acompanhar deslocamentos em tempo real sem que a vítima perceba.

Os registros de perseguição na 1ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), na região central da capital paulista, cresceram 15,5% no primeiro trimestre deste ano. Foram 104 boletins de ocorrência entre janeiro e março, ante 90 no mesmo período de 2025.

Policiais relatam que o uso de tecnologia para vigiar mulheres tem aparecido com frequência nas denúncias.

Uma dessas vítimas é uma pedagoga de 46 anos da capital paulista, que não será identificada por segurança, descobriu estar sendo monitorada ao receber um alerta no celular informando que uma tag desconhecida acompanhava seus deslocamentos havia horas.

O aviso mostrava um mapa com todos os caminhos percorridos naquele dia. Inicialmente, ela acreditou que o dispositivo estivesse escondido em seu carro.

Após procurar por horas, encontrou o rastreador dentro do sapato do filho de 6 anos, que passava alguns dias com ela durante o período de convivência definido pela Justiça.

Assustada, registrou boletim de ocorrência, entregou o calçado à polícia e pediu medida protetiva de urgência. O pedido foi negado. Mais tarde, o caso virou inquérito policial e acabou arquivado. Ela afirma que o episódio não foi isolado.

Antes disso, diz ter encontrado um gravador ligado escondido num ursinho de pelúcia levado pelo filho para sua casa. A pedagoga explica que a única defesa é ficar longe e revistar tudo o que o filho traz quando a visita.

Para a delegada Cristine Nascimento Guedes Costa, titular da 1ª DDM de São Paulo, a tecnologia se transformou em uma ferramenta de controle para agressores manterem vigilância sobre ex-companheiras mesmo à distância.

"Eles não precisam perseguir a mulher fisicamente. Podem monitorá-la à distância com ferramentas acessíveis a qualquer pessoa", diz.

A delegada relata que os casos envolvem desde rastreadores escondidos em veículos até dispositivos colocados em mochilas e objetos usados pelos filhos do casal.

"Às vezes o pai coloca a tag na mochila da criança e monitora a mulher por meio dela. Temos casos do objeto estar escondido no escapamento do carro. Os investigadores precisaram fazer uma busca bem minuciosa para localizá-la", afirma.

A delegada relata o uso de aplicativos instalados clandestinamente em celulares das vítimas para acompanhar localização, conversas e rotina.

"Antigamente, quando uma mulher dizia que o ex sabia onde ela estava o tempo todo, muita gente achava que era paranoia. Hoje sabemos que muitas vezes há realmente algum mecanismo de rastreamento."

Nesta segunda-feira (22), o governo do presidente Lula (PT) atualizou o Ligue 180. Como a Folha de S.Paulo mostrou, a mudança se deu após o órgão identificar uma alta de 188,6% dos casos de violência contra a mulher no ambiente digital reportados ao canal nos primeiros cinco meses de 2026 em relação ao mesmo período do último ano.

Apesar dos relatos recorrentes, não há estatísticas oficiais que permitam medir a dimensão desse fenômeno, segundo o Ministério Público de São Paulo. Os casos costumam ser registrados como perseguição, crime conhecido como stalking, sem um campo específico que identifique o uso de dispositivos tecnológicos.

A promotora de Justiça Valeria Scarance, especialista em violência doméstica, afirma que o órgão tem recebido relatos cada vez mais frequentes de mulheres que suspeitam estar sendo monitoradas por ex-companheiros.

"Não há dados oficiais, mas esses monitoramentos acontecem. Já atendi vítimas que relatando estar em determinado lugar e o ex-parceiro simplesmente aparecer."

Na avaliação dela, a popularização de rastreadores baratos e de fácil acesso criou uma nova forma de vigilância contra mulheres. "O acesso difundido, o baixo custo e a tecnologia simples infelizmente contribuem para essa forma de violência."

Segundo a promotora, esconder rastreadores em objetos pessoais, veículos ou pertences dos filhos pode configurar o crime de perseguição, previsto no artigo 147-A do Código Penal. Dependendo do contexto, a conduta também pode ser enquadrada como violência psicológica.

"Se esse monitoramento causar dano emocional à vítima, além das medidas protetivas, pode ficar configurado o crime de violência psicológica."

Scarance chama atenção para uma dificuldade recorrente nas investigações: a produção de provas." A maior dificuldade está em demonstrar a perseguição tecnológica. Muitas vítimas têm desconfianças, mas raramente conseguem apresentar provas concretas de que houve monitoramento."

Ela também destaca que o uso dos filhos para vigiar uma ex-companheira pode ser interpretado como violência vicária, modalidade recentemente incorporada à Lei Maria da Penha e caracterizada pela utilização de crianças ou familiares para atingir emocionalmente a mulher.

Para Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, a perseguição passou a assumir características mais sofisticadas e silenciosas.

"A perseguição ocorre de forma permanente e muitas vezes invisível. Hoje um agressor consegue monitorar deslocamentos, rotina, trabalho e locais frequentados pela vítima sem manter qualquer contato direto."

A advogada afirma que o monitoramento clandestino pode fundamentar pedidos de medidas protetivas e outras restrições judiciais.

Ela orienta que vítimas fotografem o dispositivo antes de removê-lo, registrem vídeos do local onde ele foi encontrado, preservem mensagens que demonstrem conhecimento indevido de sua rotina e procurem imediatamente uma delegacia especializada.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Justiça dos EUA aceita atuação do Brasil em processo contra Moraes Mulher é achada morta após corrida por app para assistir jogo da Copa em MG Cliente se irrita com preço de cerveja e tenta matar dono de loja Menina de 10 anos sofre queimaduras graves no rosto após reproduzir desafio viral de rede social