Inflação dos alimentos sofre pressão na pandemia e preços disparam

Publicado em 09/09/2020, às 11h50
Foto: Pixabay -

Valor Econômico

A inflação dos alimentos no domicílio acelerou de julho para agosto, levando o acumulado em 12 meses a 11,39%, taxa muito acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que ficou em 2,44% no período. No acumulado até julho, a alta era de 10,1%.

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Apenas neste ano, até agosto, os alimentos no domicílio subiram 6,10%. Até julho, a alta tinha sido de 4,89%.

Segundo o IBGE, a inflação dos alimentos consumidos dentro de casa acelerou de 0,14% em julho para 1,15% em agosto. As maiores altas ficaram com o tomate (12,98%), óleo de soja (9,48%), leite longa vida (4,84%) e as carnes (3,33%). Com exceção das carnes, que em 12 meses teve baixa de 1,89%, todos os demais apresentam altas expressivas em 12 meses e no ano. Por outro lado, houve queda em cebola (-17,18%) e batata-inglesa (-12,40%).

Os preços dos alimentos têm sido pressionados por fatores como uma maior demanda na pandemia, aumento das exportações por causa do câmbio favorável e mesmo as variações típicas nas safras de alguns produtos.

Por outro lado, a falta de demanda tem impedido o repasse dos preços aos serviços. Nos últimos dois meses, houve deflação na alimentação fora do domicílio, ou seja, consumida em bares e restaurantes. Houve queda de 0,11% em agosto, após um recuo de 0,29% em julho.

Apenas em agosto, o IPCA aumentou 0,24%, influenciado especialmente por Transportes, além de Alimentação e bebidas, que tiveram incremento de 0,78% no período, depois de alta de 0,01% em julho. O movimento desse grupo foi influenciado, segundo o IBGE, pelo aumento das exportações de alimentos, devido ao câmbio desvalorizado e à pressão na demanda da China por carnes e soja.

Além disso, o auxílio emergencial criou uma pressão de demanda da população nas menores faixas de renda, que acessou mais o benefício, por itens básicos, como o arroz (+3,08%), disse o gerente do IPCA, Pedro Kislanov. Segundo ele, essa oscilação nos preços do tomate (16,78% em julho para 12,98% em agosto) se deve exclusivamente às variações de temperatura. Como agosto registrou clima mais ameno, o produtor pode retardar a colheita, diminuindo a oferta para obter os melhores preços.

O segundo maior aumento na cesta em agosto veio do óleo de soja (+9,48%). Em julho, o item registrara deflação de 0,29% e, agora, acumula alta de 18,63% no ano.

Kislanov afirma que a depreciação do câmbio e o aumento continuado das exportações da matéria prima soja para a China restringiu a oferta interna resultando em disparada dos preços. Lateralmente, lembrou, o aumento da produção de biodiesel também restringiu a oferta de soja para itens alimentícios, pressionando preços.

Fenômeno parecido, e que já vem acontecendo nos últimos meses, ocorreu com as carnes, também pressionadas pela demanda chinesa. O item experimentou inflação de 3,3% em agosto, desacelerando com relação à taxa registrada em julho, de 3,68%. Ainda assim, foi um aumento sobre uma base apreciada, disse Kislanov. Carnes tiveram o segundo maior impacto no índice geral, 0,08 ponto percentual, só atrás da gasolina (0,15 ponto).

Kislanov destacou, também, novo aumento no preço do arroz (+3,08%), que agora acumula alta de 19,25% no ano. Segundo Pedro, além do aumento de exportações, neste caso ficou evidente para a equipe do IBGE a pressão de demanda ocasionada pelo auxílio emergencial, que chegou a pouco mais da metade dos brasileiros em agosto.

Outras altas, como a do leite longa vida (+4,84% em agosto e 22,99% no ano), também estariam relacionadas à distribuição do auxílio, mas podem ter sido puxadas pela reabertura de bares e restaurantes, que teria pressionado os preços.

As principais quedas de preço entre alimentos em agosto, informou Kislanov, aconteceram para os itens alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e cebola (-17,18%), devido à sazonalidade e melhores colheitas neste período do ano.

Hortaliças e verduras assistiram queda de 4,77% nos preços em agosto. Para o técnico, essas reduções, que aliviam o índice geral do grupo é o que permite dizer que ainda não há anomalia no comportamento dos preços.

“Precisamos esperar para ver o comportamento dos próximos meses, antes de cravar que há alta generalizada [nos preços] dos alimentos”, disse.

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