Mãe perde parte do intestino e útero após descobrir que estava com dois DIU's

Publicado em 08/05/2026, às 17h27
- Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Revista Crescer

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A engenheira e corretora de imóveis Lorenna Rocha, 40, de Florianópolis, Santa Catarina, sofria com dores no estômago e sangramentos vaginais há meses. Em diversas consultas, ouviu de médicos que os sintomas faziam parte da recuperação do pós-parto. Mas ela sentia que havia algo errado.

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Depois de muitos exames, finalmente veio a resposta: Lorenna estava com dois DIUs dentro do corpo, um no útero e outro que havia se deslocado para o intestino. "Quando descobri, senti uma enorme indignação. Ninguém me escutou, eu falava que essas dores não eram normais", diz, em entrevista exclusiva à CRESCER.

Sonho de ser mãe

Lorenna sempre sonhou em ser mãe, mas foi um longo caminho até conseguir realizá-lo. "Foram dois abortos espontâneos. Uma gravidez sem embrião (anembrionaria). Uma gravidez ectópica (fora do útero), na qual que tirar uma trompa. Na quinta gestação, acabei sendo acometida por dengue e tive mais uma perda", lembra.

Em maio de 2023, descobriu que estava grávida novamente. "Uma felicidade. Era o nosso bebê arco-íris. E, de fato, Ravi trouxe muito amor a nossa família", lembra. Para a alegria de todos, a gestação correu bem e, em janeiro de 2024, ela e o marido deram às boas-vindas ao pequeno.

"Após o nascimento, em virtude de todas as intercorrências vividas nas outras gestações, estávamos no posto de saúde aplicando as vacinas de dois meses em Ravi e a médica da saúde indicou a colocação do DIU de cobre. Assim o fizemos, naquele mesmo dia", conta.

O dispositivo foi colocado em março de 2024 e Lorenna recebeu a indicação de retornar apenas após o primeiro ciclo menstrual, sem indicação de consulta ou realização de ultrassom para checar se o posicionamento estava correto.

Nascimento de Ayla

No entanto, a menstruação nunca veio e ela não sabia que precisava fazer mais exames. "Eu não tinha pesquisado sobre o DIU, foi uma decisão feita na hora", conta. Mas, tudo parecia bem. Até que, em janeiro de 2025, no aniversário de 1 ano de Ravi, Lorenna passou mal. Ao chegar no hospital, descobriu que estava grávida de nove semanas.

"Foi uma gravidez de alto risco em virtude do DIU. Nos primeiros meses, eu também peguei toxoplasmose e não consegui fazer o tratamento no tempo certo, pois tive problemas com o plano de saúde. Os meus tratamentos só começaram aos seis meses de gestação", diz. Em alguns casos, pode ser recomendado retirar o DIU durante a gestação. No entanto, no caso de Lorenna, os médicos recomendaram que fosse mantido.

Ela passou a ser atendida em um hospital referência na cidade e foi acompanhada muito de perto. Em julho, um mês antes do nascimento, ela realizou um ultrassom, que confirmava que o DIU ainda estava posicionado no colo do útero.

Em 24 de agosto de 2025, a pequena Ayla nasceu por parto normal. Segundo Lorenna, tudo aconteceu muito rápido. "Foi um parto à jato. Cheguei na maternidade com 10cm de dilatação e ela nasceu com menos de uma hora de trabalho de parto", recorda.

A menina nasceu saudável, mas precisou ficar internada no hospital por alguns dias para realizar exames. No dia seguinte, em 25 de agosto, Lorenna realizou um ultrassom, na Clínica Materno Fetal, que ficava dentro da maternidade, pois não tinham encontrado o DIU após o parto. Para a sua surpresa, os médicos a informaram que o DIU também não estava no seu útero, que ela deve ter expelido durante o parto sem perceber.

Mas, o dispositivo ainda estava dentro do seu corpo. "O DIU deve ter se deslocado para fora da cavidade uterina e não foi verificado no exame de imagem realizado um dia após o nascimento", afirma a mãe. Com isso, ela foi para casa, se saber que ele ainda estava lá.

'Passei meses de dor e sangramento'

Dois meses depois, em outubro de 2025, a engenheira resolveu colocar um novo DIU de cobre. "Foi bem diferente da primeira vez. Antes da inserção, recebi uma aula sobre tudo, prós e contras. Apresentei o exame de imagem feito na clínica [que constava que o DIU não estava lá] e o dispositovo foi colocado", conta. "Eu ainda tinha sangramento do pós-parto, o que me foi dito ser normal."

Ao retornar para a consulta de 30 dias após a inserção, os médicos solicitaram um exame de imagem para verificar se o DIU está bem posicionado. Mas, ela não conseguiu realizá-lo pelo posto de saúde. "Passei meses de dor e sangramento. Passei por dois médicos que falaram que era normal pela adaptação do DIU, que o sangramento estava dentro da normalidade", diz.

Então, em fevereiro deste ano, ela decidiu procurar uma nova médica, que solicitou uma tomografia. "Porém, não é um exame que se faz rápido. Só tinha horário em 31 de março", conta. Por isso, ela recorreu a sua irmã, que é médica, que solicitou um ultrassom transvaginal, que era possível ser feito antes.

"Realizo o exame e explico à médica que engravidei com o DIU e que os médicos alegavam que DIU não estava mais em mim, que teria saído no parto e não senti, mas que não foi encontrado. Tinha algo errado", lembra. "O exame dura dois minutos e ela diz que está tudo ok, que o DIU está posicionado no local correto. E, mais uma vez, que todo aquele sangramento e dores que eu sentia eram em virtude da adaptação do DIU."

'Ninguém me escutou, eu falava que essas dores não eram normais'

Mas, as dores não passaram. "Em 24 de março, após sete meses do nascimento da Ayla, não aguento mais sentir dores e sangramento e vou até a emergência. Em um simples raio-x, eles constatam a presença do DIU na cavidade abdominal", diz.

Durante o parto, o DIU perfurou o útero e foi parar no intestino de Lorenna, por isso, não era encontrado no útero nos exames de imagem. Ao receber essa notícia, ficou inconformada. "Eu senti uma indignação enorme. Eu passei por tantos médicos, ninguém me escutou, eu falava que essas dores não eram normais. Mas também senti um alívio de saber que tudo que eu estava falando há tanto tempo tinha um sentido, que o DIU sempre esteve dentro de mim", afirma.

Ao verem a gravidade da situação, foi indicado que Lorenna fosse encaminhada para cirurgia. Mas tinha um problema: ela estava tomando Mounjaro - que foi preescrito para tratar a sua doença celíaca - e não é possível realizar a cirurgia, pois, devido à anestesia, há risco de broncoaspiração. Lorenna precisou esperar mais e passar por novas consultas outra vez.

'Tiveram que retirar parte do meu intestino e o meu útero'

Dias depois, seu quadro apenas piorava. Após fazer um novo raio-x, foi constatado que o DIU estava em uma posição diferente do abdomen, o que significa que ele seguia se deslocando pelo seu corpo. Até que, em 18 de abril, ao apresentar sangue nas fezes, Lorenna foi internada no hospital e encaminhada para a cirurgia.

Mas era um procedimento muito delicado. "Eu sou celíaca, eu já tenho problemas intestinais, e fiquei com medo da cirurgia. Não foi rápida, demandou quase três horas. Perdi parte do meu intestino e o meu útero", lamenta.

Ao saber disso, o mundo de Lorenna se desmoronou. "Passou um filme na minha cabeça. Eu estava me despedindo para sempre da possibilidade de gerar uma vida. Sou muito grata por ter dois filhos, mas quem sabe a gente não poderia ter tido um terceiro", diz.

'Os médicos têm que olhar a gente com atenção'

Lorenna segue se recuperando da cirurgia. "Estou na casa da minha mãe, que me ajuda com a bebê, pois também não estou liberada a segurá-la, só quando estou sentada. O pós-operatório não é fácil. Não é fácil ficar longe do meu filho de 2 anos. Eu tive que me ausentar da minha casa, meu filho não ia entender por que a mamãe não estava pegando-o no colo", diz.

Ela reforça que tudo isso poderia ter sido evitado. "Se tivessem tido um pouco mais de atenção em fazer os exames, eu não estaria passando por isso", ressalta.

A mãe decidiu compartilhar sua história nas redes sociais (@lorennna_rocha), destacando a importância dos médicos ouvirem seus pacientes. "Muitas pessoas até me criticaram por eu ter exposto. Outras ficaram felizes. Os médicos têm que olhar a gente com atenção. Às vezes contando a história, a gente acaba adquirindo um conhecimento", finaliza.

O que diz a clínica?

 

A CRESCER entrou em contato com a Clínica Mateno Fetal, que afirmou que já conversou com Lorenna sobre o caso. Leia a nota na íntegra:

"A Clínica Materno Fetal, está obrigada legal e eticamente ao dever de sigilo profissional, estando impedida, por consequência, a se manifestar ou tecer comentários sobre atendimentos prestados em favor de pacientes.

No caso desta Paciente em particular, já foram prestados e formalizados esclarecimentos e informações diretamente para a própria Paciente. Houve pelo menos dois retornos formais e escritos encaminhados pela Clínica Materno Fetal para Paciente, com detalhamento de informações sobre (i) o exame realizado; (ii) a quem compete a condução da investigação diagnóstica e solicitação de exames, bem como a decisão pela implantação de novo dispositivo intra uterino; (iii) a impossibilidade de ampla manifestação pela Clínica Materno Fetal sobre o caso por não terem sido apresentados pela Paciente a totalidade dos demais exames realizados em outros serviços; (iv) questões relacionadas à finalidade do exame realizado na Clínica Materno Fetal e limitações inerentes a este método, e (v) outras questões relacionadas aos fatos.

A Clínica Materno Fetal possui mais de 36 anos de experiência em serviços diagnósticos materno-fetais, contando com profissionais experientes e amplamente qualificados em seu Corpo Clínico. Os serviços prestados em favor da Paciente foram prestados de forma tecnicamente adequada e alinhada às diretrizes preconizadas pela comunidade médica.

A todo tempo a Paciente foi acolhida, tendo sido prestadas as informações solicitadas de forma transparente e respeitosa."

 

 

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