Revista Crescer
A influenciadora Karoline Rodrigues, (@karolinerodrigues1), de Natal (RN), não imaginava que a maternidade solo se transformaria também em uma longa travessia judicial. Mãe de Catharine, 2 anos, ela enfrenta um processo para obter a guarda unilateral da filha, após uma decisão judicial provisória ter determinado a guarda compartilhada com o genitor, que vive em outro estado e teve contatos pontuais com a criança desde o nascimento.
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“O sentimento é de impotência. Você faz tudo sozinha desde o primeiro dia, mas, na hora das decisões, alguém que não está presente passa a ter o mesmo peso legal. É aquilo de a mãe ficar com todas as obrigações e o genitor pode opinar, sem saber da rotina da criança, por exemplo”, resume Karoline, em entrevista exclusiva para a CRESCER.
Desde os primeiros meses de vida da filha, a mãe conta que assumiu integralmente os cuidados, as despesas e as decisões cotidianas. Para ela, ter a guarda unilateral é uma forma de proteger a rotina e o bem-estar da criança.
“Guarda não é convivência. Guarda é responsabilidade, é decidir escola, plano de saúde, cirurgia, rotina”, explica. Para Karoline, a decisão judicial pela guarda compartilhada ignora a realidade prática. “Eu sou quem leva ao médico, quem acorda de madrugada, quem resolve tudo. Como alguém que aparece poucas vezes pode opinar sobre isso?”, questiona.
O processo trouxe ansiedade, insegurança e medo. “Passei a ficar reflexiva sobre como a carga materna é invisibilizada. O verbo do pai é o 'poder' e o da mãe é o 'dever'", relata, em tom irônico, mas revelador do impacto emocional da decisão.
O que Karoline tem feito para garantir esse direito
Após a primeira decisão, Karoline trocou de advogados e passou a reunir provas mais robustas. Foram anexados registros de ausência paterna, histórico de contatos esporádicos e uma série de outras documentações importantes.
“Foi atestado que ele só viu a Catharine três vezes em mais de dois anos, sempre por iniciativa minha”, conta a influenciadora, que recorreu para reverter a liminar e conseguiu o reconhecimento de guarda unilateral enquanto o processo segue, mas ainda não há decisão definitiva.
Além disso, Karoline solicitou avaliação psicossocial completa. “Não é sobre me favorecer como mãe, é sobre proteger uma criança pequena.”
Como a gravidez aconteceu e o início da ausência paterna
A gravidez veio de forma inesperada. Karoline conta que, inicialmente, acreditou estar doente ou emocionalmente esgotada. “Quando vi o teste positivo, fiquei em choque. Não caiu a ficha”, lembra.
O pai da criança era um contato eventual, sem relacionamento estável. Ao ser informado da gravidez, demonstrou apoio inicial, mas logo se afastou. Durante a gestação, desapareceu diversas vezes, inclusive quando Karoline tentou viabilizar um exame de DNA ainda grávida. Ela viajou para onde o genitor mora, arcando sozinha com os custos, e ele não a encontrou para fazer o exame.
“Eu segui sozinha, com apoio dos meus pais. Voltei a morar com eles porque financeiramente ficou impossível continuar como era a minha vida”, relata. A gestação, apesar dos desafios, foi tranquila do ponto de vista de saúde.
De um pedido de pensão a um processo por danos morais
Catharine nasceu em julho de 2023. Com um mês de vida, Karoline acionou a Justiça para garantir pensão alimentícia. O pagamento provisório só foi definido meses depois, quando a criança já tinha seis meses.
O exame de DNA foi realizado apenas quando Catharine tinha cerca de 11 meses. A pensão definitiva foi fixada quando ela tinha um ano e meio, em valor que, segundo Karoline, não cobre sequer os custos escolares.
Foi nesse momento que o genitor entrou com o pedido de guarda compartilhada, mesmo residindo em outro estado e sem convivência regular. “Eu sentei com ele e expliquei a diferença de guarda e de convivência. Eu estou super aberta para ele conviver com a menina, estar presente na vida dela. Mesmo assim, ele pediu a guarda e disse que a advogada achava que tinha que ter”, relembra ela.
Em julho de 2025, uma liminar determinou a guarda compartilhada, decisão que desencadeou forte reação emocional da influenciadora. “Fiquei sem chão. Parecia que alguém me jogou um caminhão de água fria, de gelo, fiquei paralisada de choque.”
Paralelamente, Karoline passou a responder a um processo por danos morais, movido pelo genitor, que alegou sofrer prejuízos psicológicos pelos conteúdos publicados por ela nas redes sociais sobre maternidade solo.
No processo, Karoline não pode mais usar o termo 'mãe solo'. Desde então, ela se policia ao extremo. “Tenho medo de falar qualquer coisa. Até mostrar a rotina com minha filha virou motivo de receio.” Para Karoline, o processo representa um silenciamento. “Eu não posso falar da ausência, mas a ausência existe.”
Sob qual ótica a Justiça analisa os processos?
Ao final da entrevista, Karoline faz uma reflexão dura sobre o sistema judiciário. “A Justiça ainda olha muito mais para o que o pai pode ou quer fazer do que para o que a criança precisa.” Ela também questiona a simetria entre os papéis parentais. “A maternidade é ininterrupta. A paternidade, muitas vezes, é opcional. Mas no papel, isso não aparece.”
Apesar do desgaste, ela defende a judicialização. “Se não estiver no papel, ele pode aparecer daqui a dez anos e levar minha filha. Regularizar é proteção.” Hoje, Karoline segue aguardando a decisão final, enquanto tenta viver a maternidade possível. “Eu só quero que a Justiça entenda que cuidar não é discurso. É presença.”
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