Marcas de roupa "queridas" por influencers são autuadas por trabalho escravo

Publicado em 01/04/2026, às 15h25
- Ministério do Trabalho e Emprego

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As marcas de roupas Anne Fernandes e Lore foram autuadas por trabalho escravo após auditores fiscais do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) resgatarem 16 bolivianos — entre eles uma adolescente — em oficinas de costura de Minas Gerais onde eram confeccionadas peças para as grifes.

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Notas fiscais obtidas pela fiscalização mostraram que os costureiros recebiam entre R$ 20 e R$ 80 pela maior parte das peças encomendadas. Já no site das marcas, uma jaqueta da Anne Fernandes pode custar quase R$ 12 mil, e na Lore é vendida por cerca de R$ 6.000.

A modelo e empresária Thassia Naves está entre as influenciadoras que promovem a marca Anne Fernandes. Ela soma mais de 4 milhões de seguidores no Instagram e já foi incluída na lista dos brasileiros mais influentes abaixo dos 30 anos divulgada pela revista Forbes. Procurada, ela não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Para a fiscalização, o cenário nas oficinas era de precariedade. Em jornadas que ultrapassariam 12 horas diárias, os costureiros trabalhavam em espaços abafados, sem ventilação ou banheiros adequados. As instalações elétricas eram irregulares e representavam risco à segurança, conforme as inspeções realizadas pelo MTE. As inspeções ocorreram em agosto e setembro de 2025. As informações estão em relatórios de fiscalização que foram obtidos agora pela Repórter Brasil via Lei de Acesso à Informação.

Os auditores do trabalho encontraram fichas técnicas das grifes com orientações sobre como produzir as peças para Anne Fernandes e Lore. Uma das oficinas, localizada em Betim (MG), costurava roupas apenas para a Lore. A outra, em Contagem (MG), além da Lore, também produzia para a Anne Fernandes.

Inspetoras das duas marcas visitavam as oficinas duas vezes por semana, de acordo com os auditores, "com o objetivo de monitorar a produção, entregar tecidos e acompanhar o andamento das encomendas". Os fiscais entenderam que as companhias de moda seriam "inteiramente" responsáveis pelas condições encontradas.

Por conta disso, elas seriam consideradas as verdadeiras empregadoras dos costureiros resgatados e responsabilizadas diretamente pelo uso de mão de obra escrava nos locais.

No relatório de fiscalização, os auditores afirmaram que, mesmo após tomarem ciência da situação, Anne Fernandes e Lore não realizaram o encaminhamento dos resgatados para um abrigo. Também teriam se negado a pagar as verbas rescisórias.

As marcas têm lojas próprias e revendas em centenas de pontos do país. A Anne Fernandes afirma em seu site que também exporta para boutiques nos Estados Unidos.

Questionada, a Lagoa Mundau, empresa responsável pela Anne Fernandes, afirmou que "mantinha um contrato de natureza estritamente mercantil de industrialização por encomenda" com a oficina. A empresa afirmou ainda que a "interação com a oficina era extremamente limitada" e que "apenas tinha acesso à área de entrega de matéria-prima e recebimento das roupas prontas". A companhia disse ainda que rompeu o contrato com a oficina após saber do resgate.

A Lore respondeu que "mantém contratos de natureza estritamente mercantil/civil com oficinas de costura regularmente constituídas" e que "tais parcerias visam a entrega de produtos acabados, sem qualquer ingerência da Lore na rotina produtiva, gestão de pessoal ou controle de jornada das contratadas, tampouco com acesso às dependências da empresa". A empresa disse ainda que "suspendeu imediatamente os contratos com as oficinas citadas na fiscalização".

As duas empresas recorrem da autuação em processos administrativos junto ao MTE. Após a fase de defesa, caso a autuação seja mantida pelo órgão, as empresas responsáveis pela grifes poderão ter seus nomes incluídos na Lista Suja do Trabalho Escravo.

Bebê na oficina e bebedouro em cima da privada

Crianças viviam nas oficinas de costura, acompanhando suas famílias, de acordo com os auditores do trabalho. Muitos dos trabalhadores estariam alojados no mesmo imóvel onde funcionava o espaço de produção.

Em uma das fotos do relatório de fiscalização, um bebê dorme em um colchão rodeado de artefatos: tecidos, cobertores, fios, aparelhos eletrônicos, bacia. Em outro registro, o filtro de água usado pelos trabalhadores estava acomodado em cima de um vaso sanitário.

Segundo os relatos dos documentos de autuação, os trabalhadores eram remunerados por produção e tinham descontos, caso ocorressem atrasos nas entregas.

Na oficina que produzia para Anne e Lore, os resgatados recebiam R$ 1.200 ao mês, valor abaixo do salário mínimo. "Apenas com muitas horas de trabalho os trabalhadores conseguiriam gerar renda suficiente para garantir as despesas", explicaram os fiscais. Eles também afirmam que o ritmo intenso e a pressão para atender os prazos estabelecidos pelas marcas levavam os costureiros ao esgotamento físico e mental.

'Cuidar, encantar e inspirar'

Em seu site, a Anne Fernandes diz contar com "colaboradores engajados e uma atenção especial às mulheres". A Lore divulga como propósito "cuidar, encantar e inspirar pessoas a serem sua melhor versão".

Nas redes sociais, a influenciadora Thassia Naves aparece em vídeos provando peças da Anne Fernandes, além de dar nome a ítens da coleção, como vestidos e jaquetas. Em um post de 3 de março de 2026, ela prova um vestido da marca para ir a um jantar em um restaurante asiático de Orlando.

Juju Norremose, que soma mais de 1,6 milhão de seguidores no Instagram, é outra influenciadora que divulga em sua conta peças da Anne Fernandes. Em um post de 28 de fevereiro de 2026, ela aparece vestindo a nova coleção da marca nas ruas de Tóquio. A empresária também dá nomes a peças da coleção. Um vestido Juju Norremose é vendido por R$ 2.300 no site da Anne Fernandes.

A Repórter Brasil tentou contato com a influenciadora, mas não recebeu retorno até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

As influenciadoras Carol Toledo (171 mil seguidores) e Aline Marquez (296 mil seguidores), que também divulgam as roupas da Anne Fernandes, informaram que não tinham conhecimento sobre a autuação da empresa e que estão "acompanhando o caso com atenção e avaliando os próximos passos em relação a eventuais futuras parcerias, sempre pautados por responsabilidade e pelos valores que orientam nosso trabalho".

A modelo Maiara Guinther (18,8 mil seguidores), que divulga peças da Lore e integra a Ford Models, uma das agências de modelo mais influentes do mundo, informou que não tinha conhecimento sobre o resgate dos trabalhadores e que está "acompanhando o caso e aguardando os esclarecimentos das autoridades competentes e da própria empresa".

Dona de uma marca de cosméticos, a empresária Natana Deleon (806 mil seguidores no Instagram) é outra influenciadora que divulga produtos da Lore nas redes sociais. A Repórter Brasil tentou contato com ela, mas não recebeu respostas até o fechamento desta reportagem. O texto será atualizado em caso de futuras manifestações.

"O mínimo que podemos exigir dessas pessoas, que fazem o marketing digital, é de que elas tenham responsabilidade social. E o consumidor deve cobrar isso", analisa Tatiana Leal Bivar Simonetti, procuradora do Trabalho e vice-coordenadora nacional de Erradicação do Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas do Ministério Público do Trabalho.

Responsabilização

Um levantamento do MTE identificou que, na época da fiscalização, a Anne Fernandes utilizava cerca de 76 oficinas de costura terceirizadas para produzir suas roupas, sendo pelo menos 12 delas pertencentes a bolivianos. Já a Lore valia-se de cerca de 40 oficinas. Aproximadamente metade teria bolivianos como gestores.

Os fiscais afirmam no relatório de fiscalização que as marcas "terceirizam a costura para estabelecimentos fabris inidôneos economicamente, instalados precariamente em imóveis residenciais degradados [?] beneficiando-se de mão de obra informal de trabalhadores migrantes aliciados em regiões empobrecidas de países fronteiriços e em condição de vulnerabilidade extrema".

"Se eu contrato duas mil peças por semana, no mínimo, eu quero saber se essa oficina tem mão de obra suficiente para isso, se essa mão de obra está regularmente contratada, e se tem boas condições de trabalho", cobra Simonetti.

"Não importa se o serviço é terceirizado. Ele faz parte da sua cadeia. As empresas têm responsabilidade desde como o algodão está sendo plantado até como isso vai chegar na casa do seu cliente", analisa Paula Leal, coordenadora executiva do Fashion Revolution Brasil, organização que atua para acelerar a transição da moda brasileira rumo à justiça social e climática. "Precisamos de políticas públicas que responsabilizem as empresas por toda a sua cadeia".

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