Menos antibiótico e mais leite materno: estudo revela como reduzir infecções graves em prematuros

Publicado em 27/03/2026, às 20h12
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Revista Crescer

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A chegada de um bebê prematuro costuma trazer apreensão, especialmente quando o assunto é saúde. Entre os principais riscos está a sepse, uma resposta inflamatória desregulada do organismo a uma infecção.

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Agora, uma nova pesquisa aponta mudanças simples e acessíveis para reduzir significativamente a mortalidade desses bebês: oferecer leite materno precocemente e evitar antibióticos nos primeiros dias, quando possível.

A sepse tardia, geralmente associada a fatores ambientais, tornou-se um dos principais focos de atenção da Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais, já que pode ser prevenida com mudanças nas práticas assistenciais.

Ao longo de mais de uma década, porém, os pesquisadores perceberam que apenas monitorar os casos e alertar as unidades sobre a necessidade de melhorias não era suficiente — em 2020, a taxa chegou a 30%. Diante desse cenário, surgiu a iniciativa de implementar um projeto de intervenção.

Integrantes desse grupo de trabalho, as docentes Ligia Maria Suppo de Souza Rugolo e Maria Regina Bentlin, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu, foram apontadas pela RBPN para coordenar o Projeto “DownLOS”.

“Foi proposto um projeto de intervenção, de iniciativa voluntária. A ideia era atuar de forma diferente: não só olhar e relatar, mas agir para melhorar as práticas e reduzir a ocorrência de sepse tardia”, explica Rugolo.

Contando com a adesão de 12 centros no período entre 2021 e 2023, o projeto propôs mudanças que resultaram em uma queda na incidência de sepse tardia em 67% das unidades participantes. A redução geral da incidência foi de 18,5%.

Como funciona a intervenção?

O primeiro passo foi identificar seus principais fatores de risco e entender se eles se repetiam nas diferentes unidades do projeto. Para isso, as pesquisadoras adotaram metodologias já consolidadas para mapear causas e direcionar soluções.

A partir disso, as pesquisadoras identificaram algumas práticas que aumentam o risco de sepse tardia: o uso de antibióticos nas primeiras 48 horas de vida em bebês sem infecção, problemas relacionados ao cateter venoso central — usado para medicação e nutrição — e o início tardio da oferta de leite materno aos prematuros.

“Usar antibiótico precocemente em recém-nascidos prematuros leva a uma disbiose, ou seja, causa alterações na flora intestinal e favorece infecções. Percebemos que esse era um ponto muito sensível na Rede”, explica Bentlin.

Outro ponto identificado foi a alimentação. "Alimentar o bebê com o leite da mãe precocemente é a melhor estratégia. E a gente percebeu que havia um atraso nos nossos centros. Quando eu priorizo a nutrição a partir do leite materno, eu também consigo remover mais cedo o catéter vascular e reduzir suas complicações”, completa ela.

Em seguida, foram aplicados dois questionários para as equipes multidisciplinares de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. “Para cada item apontado [associado à sepse tardia], foi definido o que fazer, como fazer, o nome da pessoa responsável”, pontua Bentlin.

Com as respostas em mãos, elas estabeleceram metas individuais. "Alguns centros tinham incidência de sepse de 45%, enquanto outros apresentavam índice menor, de 15 ou 20%. A proposta de redução era proporcional, segundo a realidade de cada um”, completa a docente.

Os resultados

Entre 2021 e 2023, o estudo acompanhou 1.993 bebês prematuros (de 22 a 36 semanas e entre 400 g e 1.499 g), sem malformações e internados na UTI neonatal por mais de 72 horas. As unidades participantes adotaram algumas medidas principais:

Metade dos centros atingiu a meta para complicações relacionadas a cateteres umbilicais e 92% para cateteres percutâneos. Os antibióticos foram suspensos em 48 horas em 67% dos recém-nascidos não infectados. A extração precoce de leite materno e a alimentação por sonda foram alcançadas em 44% e 75% dos casos, respectivamente. Além disso, 58% dos recém-nascidos atingiram nutrição completa até o décimo primeiro dia de vida.

Os resultados com essas medidas foram muito promissores: metade dos centros atingiram as metas individuais estabelecidas e 67% registraram redução na ocorrência de sepse tardia. Isso contribuiu para uma diminuição geral na incidência de sepse de 18,5%.

“Mostramos que a sepse é uma causa de morte que pode ser evitável. E para isso existem medidas que podem ser adotadas sem custo, que dependem apenas das nossas ações no dia a dia. Do contrário, o projeto não sairia do papel e não teria o impacto que teve”, esclarece Bentlin.

Próximas etapas

Em janeiro de 2026, os 24 centros da RBPN começaram uma nova fase do projeto, que agora também conta com a participação de enfermeiros e técnicos de enfermagem das equipes de assistência.

“Essa não deve ser uma preocupação apenas do médico responsável por uma UTI neonatal. A equipe toda da unidade precisa estar envolvida e vestir a camisa. O engajamento é algo que vamos incentivar nessa segunda etapa do projeto”, explica Rugolo.

A professora diz que a expectativa é que a ação se popularize e seja replicada para além da rede. “Foi uma iniciativa que deu certo e pode ser adotada por qualquer unidade neonatal. Não precisa ser universitária. Qualquer unidade tem condição de monitorar esses indicadores e melhorar suas práticas”, diz.

'O básico bem feito, todos os dias, é o que realmente salva vidas'

Para Paulo Telles, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o estudo acerta em reforçar as mudanças que podem ser feitas nas UTIs Neonatais. "Não é a tecnologia e novos equipamentos ou antibióticos que mais impacta desfecho da saúde dos prematuros, mas, sim, a consistência no básico", diz.

"Medidas simples como higiene rigorosa das mãos, manejo adequado de cateteres, redução de intervenções invasivas, quando aplicadas de forma sistemática, podem mudar esse cenário", adiciona. Segundo ele, os pontos apontados pelas pesquisadoras da Unesp também fazem uma enorme diferença.

Ele concorda com a mudança de suspender o uso de antibióticos em até 48 horas nos bebês sem infecção. "Uso prolongado sem confirmação de infecção aumenta risco de sepse tardia, enterocolite [inflamação grave do intestino] e mortalidade. O medo dos neonatologistas é sempre infecção, mas, nestes casos, menos antibiótico desnecessário significa mais proteção", defende o pediatra.

O leite materno também é uma das principais fontes de proteção para os prematuros. "O leite materno quando iniciado de forma precoce, é terapia, é fator de proteção - o que chamamos de gotas de ouro. Especialmente no prematuro, pode reduzir risco de sepse, enterocolite e a mortalidade. Sempre que o bebê tiver condições clínicas, deve ser iniciado o mais precocemente possível, mesmo em pequenas quantidades", destaca.

"No fim, a mensagem é clara: sepse tardia não é inevitável. É, em grande parte, resultado da qualidade do cuidado. E na neonatologia: o básico bem feito, todos os dias, é o que realmente salva vidas", finaliza Paulo Telles.

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