Redação EdiCase
O mercado imobiliário brasileiro inicia um novo ciclo com sinais consistentes de expansão. A combinação entre fatores macroeconômicos, ajustes regulatórios e fortalecimento das políticas habitacionais cria um ambiente mais favorável ao crédito e à retomada das vendas. A expectativa de queda gradual da taxa Selic, projetada para encerrar o período em torno de 12,25%, somada ao aumento do orçamento destinado à habitação, tende a destravar decisões de compra que vinham sendo adiadas nos últimos anos.
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Um dos principais vetores desse movimento é o fortalecimento do Minha Casa Minha Vida. O programa volta a ocupar papel central na política habitacional, com uma meta ampliada de contratação de até 1 milhão de unidades, ante uma média aproximada de 700 mil unidades nos ciclos anteriores. A elevação do volume reforça o alcance do programa e tende a gerar efeitos diretos em toda a cadeia da construção civil, do financiamento à execução das obras e à geração de empregos.
Além do orçamento robusto, há mudanças estruturais relevantes no crédito imobiliário. A aprovação de um novo modelo pelo Conselho Monetário Nacional trouxe maior flexibilidade ao uso dos recursos da poupança, ampliando o acesso dos bancos ao funding do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo). Na prática, isso reduz o custo de captação e aumenta a capacidade de concessão de crédito, um gargalo importante observado nos últimos anos. Trata-se de uma demanda antiga do setor, agora atendida, que tende a acelerar as contratações ao longo do ciclo.
Os efeitos desse novo ambiente já começam a aparecer no comportamento do comprador. Mesmo antes de uma queda expressiva dos juros, a simples sinalização de um cenário mais benigno costuma antecipar decisões. O mercado imobiliário reage menos ao dado pontual da Selic e mais à expectativa construída ao longo do tempo. Quando os sinais são claros, o comprador se antecipa, os bancos ajustam suas ofertas e o mercado começa a se mover.
Essa antecipação é especialmente visível nos segmentos de médio e alto padrão, mais sensíveis à política monetária e à disponibilidade de crédito. No Minha Casa Minha Vida, por outro lado, o impacto está muito mais relacionado à força do orçamento do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) do que à taxa básica de juros. São dinâmicas diferentes, mas que caminham na mesma direção: aumento de demanda.
Do ponto de vista estratégico, o movimento mais relevante observado é a antecipação da compra. A experiência de ciclos anteriores mostra que, quando o crédito começa a fluir e a confiança retorna, a demanda cresce mais rápido do que a oferta. Nesse cenário, esperar demais pode significar pagar mais caro. Estratégias como portabilidade e renegociação tendem a ganhar protagonismo apenas em um momento posterior, quando o novo patamar de juros estiver consolidado.
Esse possível descompasso entre oferta e procura é um ponto de atenção. Em ambientes de crédito facilitado, o risco de valorização acelerada dos imóveis aumenta, especialmente em regiões com estoque limitado. Foi assim em ciclos passados, inclusive no período pós-pandemia, quando a demanda reagiu mais rápido do que a capacidade de entrega do mercado.
Ainda que o cenário seja predominantemente positivo, ele não está isento de desafios. Caso as políticas de crédito não acompanhem o ritmo da demanda, podem surgir gargalos operacionais, atrasos e restrições pontuais. Por outro lado, o alinhamento entre governo, sistema financeiro e setor produtivo tende a ser mais ágil, sobretudo em um contexto de maior atenção política à habitação.
O mercado imobiliário entra, portanto, em um período decisivo. Informação, planejamento e leitura correta do ciclo farão diferença entre aproveitar oportunidades ou chegar atrasado. Em momentos como este, não é apenas o juro que define o jogo, mas o timing das decisões.
Murilo Arjona
Especialista em financiamento imobiliário, com mais de 15 anos de atuação no setor. Engenheiro de formação, acompanha de forma contínua a evolução do crédito habitacional e das políticas públicas e privadas ligadas à habitação no Brasil.
Por Eluan Carlos
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