Folhapress/WALTER PORTO
Metade da população brasileira tem um hábito de leitura digital, segundo uma pesquisa realizada pela primeira vez pela consultoria especializada Nielsen e apresentada nesta quarta-feira (2) em Brasília.
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O estudo usou um conceito ampliado do que significa ser leitor, incluindo tanto o consumo virtual de livros quanto de histórias seriadas na internet, como mangás e fanfics, e a leitura de textos informativos em plataformas de notícias, cerca de 31% das pessoas respondeu ter lido esse tipo de texto ao menos uma vez no último ano, enquanto 25% disseram ter lido livros digitais e 18%, outros formatos de narrativas.
Combinando essas respostas e considerando que uma pessoa pode ter respondido várias opções, a soma de leitores digitais chega a 49% do total.
A pesquisa da Nielsen, encomendada pela Skeelo, consultou 3.000 pessoas com mais de dez anos por meio de um aplicativo de celular, os menores de idade foram entrevistados pelos pais, que responderam ao questionário por eles. A margem de erro é de 3,5%.
O estudo se diferencia das análises mais comuns sobre o mercado editorial por buscar entender de forma mais ampla como o público lê hoje quando textos estão pulverizados em um mundo digital de que poucos escapam, em vez de medir apenas dados de um determinado tipo de produto ou ponto de venda.
É isso que ressalta Rodrigo Meinberg, fundador e diretor-executivo da Skeelo, plataforma que disponibiliza livros digitais por meio de acordos com operadoras de celular e parcerias com uma rede ampla de editoras e empresas.
"A pesquisa traz pela primeira vez o verdadeiro tamanho desse mercado", afirmou ele durante a apresentação dos dados. A leitura digital, afirma ele, "alcança pessoas e territórios que os canais de distribuição tradicionais como as livrarias nem sempre conseguem".
Meinberg ressaltou também que a leitura digital "não canibaliza" a de livros, o que é uma impressão de fato ecoada no setor o leitor de ebooks costuma coincidir com o de obras impressas.
Como é previsível, esse tipo de leitura é feita com mais intensidade pelos nativos digitais os jovens de 10 a 24 anos são 47% dos leitores, enquanto os maiores de 55 anos, que representam 25% da população, aqui são 20%.
As mulheres, que também são maioria entre os compradores de livros, são 56% dos leitores digitais, e a classe C é a maior consumidora desse tipo de conteúdo, chegando a 46% do total. A classe A reúne 9% dos leitores, desmistificando a ideia antiga de que só ricos leem no Brasil, no caso da leitura digital, eles de fato são os maiores detentores de e-readers, como Kindle.
A maioria dos leitores digitais diz ter acesso a esse conteúdo por portais de notícias e grandes veículos de mídia, que alcançam 57% do total, enquanto 49% acessam ebooks e 28%, audiolivros.
A resposta mais comum para o motivo de ler ebook é a facilidade, ou seja, a praticidade de acessá-lo em qualquer lugar. Para os audiolivros, é mais valorizado o "fator multitarefa", ou seja, poder fazer alguma outra coisa enquanto ouve a obra.
O tipo de livro mais lido é a ficção para adultos, e o consumo de obras técnicas e científicas aparece acima da Bíblia tanto para ebooks quanto audiolivros, em que Cid Moreira já foi rei.
"Aquela pasta [de leitura obrigatória] do professor das universidades virou o arquivo PDF", diz Mariana Bueno, uma das responsáveis pela pesquisa na Nielsen. "Essa foi a forma de o setor controlar esse escoamento, fazendo a digitalização nas próprias editoras."
A pirataria e o acesso ilegal, afinal, é um dos temas que surgem imediatamente ao discutir leitura digital. Cerca de 49% dos que leem livros digitais dizem ter acessado por downloads gratuitos em sites ou aplicativos e 41% diz ter recebido links compartilhados por amigos ou familiares. Em torno de 34% das pessoas afirmam ter comprado os livros direto em lojas ou plataformas digitais.
Isso não significa que essas obras sejam necessariamente pirateadas podem ser gratuitas ou pertencer a domínio público, por exemplo. "Nem sempre as pessoas sabem se estão consumindo livro pirata", afirma Bueno, da Nielsen. "Elas não têm muita noção de se acessam o conteúdo de maneira legal ou não."
A resposta mais comum à pergunta sobre as razões de não ler um livro digital é a preferência por outras atividades, como o uso de redes sociais e o consumo de vídeos. Cerca de 18% responde não ler por preferir o livro impresso.
"Quando a pessoa responde não ter tempo, na verdade, ela está dizendo que o livro não se encaixa na rotina dela", afirma Bueno, da Nielsen. "Ela não tem o hábito da leitura."
Vale ressaltar que, como o questionário foi feito por celular, ele exclui de cara os cerca de 10% de brasileiros que não têm conectividade.
Mas Luiz Gaspar, da Nielsen, aponta que outras pesquisas sobre o assunto são feitas de forma presencial, e o olho no olho leva as pessoas a sobrevalorizar seus hábitos de leitura, dizer que leem mais, ou dão mais valor à leitura, do que de fato fazem. Ou seja, as pessoas costumam ser mais sinceras sobre isso na intimidade do celular.
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