Galileu
Mais de seis décadas após a escavação do célebre Jardim dos Fugitivos, em Pompeia, na Itália, arqueólogos acreditam ter finalmente identificado a profissão de uma das vítimas mais emblemáticas da tragédia causada pela erupção do Vesúvio, em 79 d.C. O homem provavelmente era um médico romano, que morreu enquanto carregava consigo parte de seus instrumentos de trabalho.
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A descoberta foi compartilhada pela equipe do Parque Arqueológico de Pompeia no relatório oficial Scavi di Pompei do dia 15 de maio. Para chegar a tal conclusão, o estudo combinou arqueologia, tomografia computadorizada assistida por inteligência artificial (IA), radiografia e modelagem 3D para reconstruir não apenas objetos escondidos dentro do fóssil, mas também fragmentos da identidade da vítima. Veja vídeo:
Cemitério congelado no instante da fuga
O Jardim dos Fugitivos é um dos espaços mais conhecidos e emocionalmente devastadores de Pompeia. Escavado em 1961 sob direção do arqueólogo Amedeo Maiuri, o local revelou os corpos de pessoas que tentaram fugir da cidade enquanto eram alcançadas pelos fluxos superaquecidos de cinzas e gases liberados pelo Vesúvio. Ao todo, foram encontrados 14 moldes humanos no antigo vinhedo — embora os pesquisadores afirmem hoje que as vítimas eram, na verdade, 15.
Segundo o relatório, o homem agora associado à prática médica corresponde à chamada “vítima 46”, encontrada encolhida sobre o lado direito do corpo, próxima a uma mulher identificada como vítima 47. Durante trabalhos de restauração iniciados em 2015 no âmbito do Grande Projeto Pompeia, conservadores localizaram dentro do molde um pequeno conjunto de objetos até então desconhecido.
Os pesquisadores descobriram uma pequena caixa retangular de material orgânico, possivelmente madeira, couro ou cortiça, medindo cerca de 12 centímetros de comprimento, além de uma bolsa de tecido contendo moedas de bronze e prata. O mais intrigante, porém, estava escondido dentro do estojo: uma pequena placa de ardósia e delicados instrumentos metálicos compatíveis com ferramentas cirúrgicas romanas.
Raio-X e IA revelaram o passado
As análises foram conduzidas na Casa di Cura Maria Rosaria, em Pompeia, utilizando exames de raio-X e tomografia computadorizada com apoio de IA. O relatório técnico afirma que os exames permitiram seccionar virtualmente o gesso, revelando uma configuração complexa de elementos metálicos e orgânicos.
A placa de ardósia identificada dentro da caixa era conhecida no mundo romano como coticula e era usada para triturar e misturar substâncias medicinais e cosméticas. Objetos semelhantes já haviam sido encontrados em kits médicos de outras vítimas de Pompeia e Herculano.
Os pesquisadores também identificaram um sofisticado mecanismo de fechamento na caixa, composto por uma pequena engrenagem dentada semelhante à observada em recipientes encontrados em Herculano. As reconstruções tridimensionais revelaram ainda a presença de seis pequenos artefatos metálicos no interior do estojo, alguns com cerca de dois centímetros de comprimento.
Embora os arqueólogos ressaltem que as evidências não são absolutamente conclusivas, o conjunto de objetos reforça fortemente a hipótese de que o homem exercia a medicina. O relatório afirma que a riqueza dos elementos identificados, em particular o sistema mecânico do estojo e a presença da placa de ardósia, sustenta com força a hipótese arqueológica de que o indivíduo estivesse ligado à prática médica.
Tentativa de salvar vidas (inclusive, a própria)
Para Gabriel Zuchtriegel, diretor do Parque Arqueológico de Pompeia e um dos autores do estudo, a descoberta oferece uma dimensão profundamente humana da tragédia. “Há dois mil anos, já existiam aqueles que não se limitavam ao horário de consultório, mas eram simplesmente médicos em todos os momentos”, afirma, em comunicado. “Este homem levou consigo suas ferramentas para estar pronto para reconstruir sua vida em outro lugar, mas talvez também para ajudar os outros.”
A revista Popular Science destaca justamente esse aspecto humanizador da descoberta. Segundo a publicação, os novos exames revelam detalhes sutis, mas profundamente comoventes sobre uma vítima que permaneceu anônima por quase dois milênios. A reportagem observa que os moldes de gesso de Pompeia já ajudaram historiadores a compreender hábitos, relações familiares e os últimos instantes dos habitantes da cidade destruída, mas raramente permitiram identificar profissões específicas.
O achado ainda chama atenção para o potencial científico ainda escondido nos depósitos arqueológicos de Pompeia. Muitos dos objetos associados às vítimas da erupção permanecem armazenados há décadas sem estudos aprofundados. “Há ainda muitas histórias esperando para serem contadas”, escreveram os autores no relatório ao descrever os depósitos do parque como um “arquivo vivo” de vidas interrompidas pela catástrofe.
Mais do que revelar a possível profissão de um homem morto durante a fuga desesperada do Vesúvio, o estudo demonstra como as tecnologias contemporâneas estão transformando a arqueologia. Sem danificar o molde original, os pesquisadores conseguiram reconstruir digitalmente um pequeno universo preservado no interior do gesso, como moedas, tecidos, mecanismos e instrumentos que permaneceram ocultos por quase dois mil anos.
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