Moedas latino-americanas caem mais de 30% frente ao dólar na última década

Publicado em 20/05/2022, às 08h18
Real desvalorizou 61,95%, atrás apenas do peso argentino, que caiu 96,20% no período | Foto: Reprodução -

CNN

As moedas latino-americanas desvalorizaram mais de 30% frente ao dólar nos últimos 10 anos, aponta um levantamento realizado com exclusividade por Michael Viriato, fundador e sócio da Casa do Investidor, a pedido do CNN Brasil Business. No período, o real desvalorizou 61,95%, ficando atrás apenas do peso argentino, que caiu 96,20%.

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Conforme explicou Claudio de Moraes, professor de finanças do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cesta de moedas de países emergentes costuma sofrer com movimentos externos e internos.

A crise causada pela Covid-19 foi um dos fatores externos que gerou impacto, pois os investidores procuraram por moedas mais seguras e abandonaram os investimentos latino-americanos, migrando para os Estados Unidos, por exemplo.

Já internamente, Francisco Nobre, economista da XP, explica que, especificamente no longo prazo, os juros e a inflação persistentemente mais altos tendem a desvalorizar as moedas e baixar o preço do câmbio.

Nos últimos 10 anos, os juros e a inflação nos países da América Latina foram muito mais altos comparado com os Estados Unidos. “Então, naturalmente, as moedas se desvalorizaram ao longo do tempo e não vão mais voltar para os níveis de 2012”.

O diferencial dos juros aponta para uma desvalorização monetária de:

A conta não é possível ser feita com a Argentina porque o país trocou a taxa usada como juros básico, do LEBAC pro LELIQ, em 2018.

No curto e no médio prazos, também existem vários fatores que podem influenciar o valor da moeda. Tais como, riscos políticos e econômicos, acúmulo de dívida pública, exportações, balança comercial, crescimento econômico e performance da bolsa.

Na América Latina, o câmbio também tende a ser correlacionado com o preço das commodities, por causa de sua importância para estas economias. Esse foi um dos motivos para que o real fosse a  quarta moeda que mais se valorizou em relação ao dólar neste ano.

Argentina - Josilmar Cordenonssi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, explica que a peso argentino foi a moeda que mais se desvalorizou frente o dólar porque, até 31 de dezembro de 2021, a inflação média anual nos últimos dez anos foi de 35%, o que corresponde a uma perda de 26% do poder aquisitivo do peso de um ano para o outro.

Assim,1 peso argentino hoje compra menos de 5% de produtos e serviços que se comprava no final de 2011 e início de 2012.

O economista da XP também ressalta que o país tem um problema estrutural de instabilidade econômica e política. “Nos últimos anos, o mercado perdeu muita confiança no peso Argentino”, o que também contribuiu para a queda.

A inflação na Argentina chegou a 6,27% em março, o maior índice em duas décadas. A situação –resultado de anos de políticas populistas no país– tem levado ao empobrecimento da população.

Em 2018, a moeda argentina teve uma desvalorização de 102% frente o dólar. O professor do Mackenzie destacou que os motivos foram os planos graduais de ajustes nas contas públicas de Mauricio Macri, eleito em 2015.

“À época, havia muita esperança que a Argentina poderia romper com o populismo Kirchnerista que reinava na Argentina há mais de uma década”. Tanto que, no início do mandato, o país retomou sua posição no mercado de capitais, recebendo investimento internacional.

Porém, nos anos seguintes, Macri focou no ajuste de contas e ficou vulnerável a choques externos, como seca muito prolongada no campo, afetando o setor exportador e principalmente a uma aumento dos juros dos EUA, que ocorreu ao longo de 2018, explicou Cordenonssi.

Assim, no fim do mandato, destacou o professor, vendo que os ajustes feitos até aquele momento não seriam suficientes para contrabalançar esses choques adversos, e que perderia as eleições em 2019 para os peronistas, os investidores (especialmente os próprios argentinos) retiraram o dinheiro do país, o que puxou a cotação do peso para baixo.

Peru - O Peru, por outro lado, adotou nos últimos anos uma política de metas para a inflação que garantia uma estabilidade nos preços, além de um controle fiscal para que a política não impactasse a cotação da moeda.

O banco central do Peru tem uma meta de inflação de 2% ao ano – semelhante a países avançados, como os Estados Unidos. E, apesar da turbulência política na região, o país conseguiu manter uma taxa inflacionária média de 3,12% desde 2012.

O país também buscou reservas internacionais para que não sofresse com as oscilações no exterior. Dessa forma, o sol peruano caiu entre 2012 e 2022 cerca de 30% frente o dólar.

O economista da XP ressalta ainda que a economia do Peru é mais dolarizada em comparação com outros países. Muitas transações são efetuadas em dólar, tanto que é possível abrir uma conta em dólar no país.

Com isso, o BC do país tem uma reserva maior de dólar em proporção ao PIB (Produto Interno Bruto) local, que foi de US$ 199,3 bilhões, em 2021.

Brasil - O real vinha se desvalorizando contra o dólar nos últimos cinco anos, para um valor abaixo do que seria considerado “justo”, afirmou o economista da XP.

Ele aponta dois principais motivos para isso: o Fed (banco central dos Estados Unidos) manter os juros consideravelmente baixos por vários anos depois da crise financeira de 2008 e o crescimento econômico no Brasil ter sido fraco no período.

Porém, em 2022, a moeda se valorizou 10,1% em comparação com a divisa dos Estados Unidos, apontou um levantamento feito pela Austin Rating.

O atual cenário das commodities também fez com que o real tenha uma valorização. O Brasil é um dos principais produtores do setor agrícola e metálico, ambos que registraram aumento nos preços internacionais. Sendo assim, o fluxo de investidores também aumenta no país.

Expectativas - Os especialistas acreditam que enquanto o Fed continuar aumentando a taxa de juros e retirar os dólares da economia, revertendo o quantitative easying (compra de títulos de longo prazo), o dólar tende a se valorizar frente as moedas latino-americanas.

E mesmo que as perspectivas econômicas nos países melhorem, como na Argentina – devido o acordo com o FMI de reestruturação da dívida pública -, aponta o analista da XP,  os riscos continuam sendo precificados.

O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve, anunciou em 4 de maio, que elevou a taxa de juros do país em 0,5 ponto percentual, a maior alta em mais de 22 anos. Com isso, ela passa a ser de 0,75% a 1% ao ano.

Em comunicado após a reunião, a autarquia informou também que começará a reduzir sua carteira de títulos a partir de 1º de junho.

Francisco Nobre destacou também que o mundo se tornou mais avesso ao risco, o que vem prejudicando as economias emergentes, devido à persistência da guerra na Ucrânia e medidas de lockdown mais restritivas na China, além das políticas do Fed.

“O real (que vinha mais forte) continua positivo no ano, mas as outras moedas já devolveram quase todo o valor conquistado”.

Dessa forma, com os câmbios reféns dos riscos associados ao cenário internacional, a XP projetou o câmbio para o fim de 2022 da seguinte maneira:

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