Mortes suspeitas em Coruripe: trabalhador que contratou seguro de vida não sabia ler e escrever, diz parente

Publicado em 27/02/2026, às 14h22
Documento de identificação de Jorge dos Santos, trabalhador que havia contratado seguro de vida no valor de R$ 1 milhão meses antes de morrer por uma picada de cobra. Patrão dele, que era beneficiário na apólice, foi preso em Coruripe - Reprodução / TV Pajuçara

TNH1 com TV Pajuçara

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A reportagem da TV Pajuçara falou com exclusividade, nesta sexta-feira, 27, com uma pessoa da família de Jorge dos Santos, o trabalhador que morreu por uma picada de cobra no final de 2024, em Coruripe, Litoral Sul de Alagoas. O caso é investigado pelas polícias Civil e Federal no desdobramento da operação 'Contrato Final'. Um empresário, patrão de Jorge, foi preso preventivamente após as autoridades apontarem que ele era o beneficiário da apólice do seguro de vida no valor de R$ 1 milhão, que havia sido contratada por Jorge meses antes da morte suspeita.

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Para preservar a segurança e privacidade, a pessoa não foi identificada e teve a voz modificada na exibição da entrevista no Fique Alerta. Jorge dos Santos tinha 54 anos, morava sozinho, trabalhava como servente de pedreiro durante o dia e como vigia à noite. Era considerado um homem simples, trabalhador, e não sabia ler ou escrever.

"(Há quanto tempo Jorge trabalhava lá?) Há uns dois para três anos. Ele era servente de pedreiro e à noite vigiava. Ficava por lá mesmo, tinha um barraquinho dele lá e ele ficava por lá mesmo. Nunca vi ele doente, nunca vi ele reclamar. Soube da morte pelos populares. Já era umas quatro horas da tarde. Acho que já vinha do IML (Instituto Médico Legal). (E a causa da morte?) É isso que eu não sei. Nem no IML não disse o que era, ainda hoje não estou sabendo. (Quem disse que ele teria morrido por picada de cobra?) Disse que teve um vídeo que ele mandou para o povo... com uma cobra. Agora eu não sei. Tenho pra mim que, se fosse cobra, ele tinha morrido na hora, que era aquelas cobras de coral".


A pessoa da família de Jorge deixou claro à polícia que não sabia da existência da contratação de um seguro de vida.

"O delegado queria saber a causa que ele morreu, se ele era doente, se ele tinha tontura, se caiu das alturas. Eu disse que não sabia, e não sabia mesmo. E se eu sabia que ele tinha um seguro de vida. Eu disse que não sabia. Ele disse que era um valor alto. Achei muito estranho, porque se ele tivesse um seguro de vida, ele tinha que fazer no nome de alguém da família, não no do patrão. Também acharam muito estranho. O delegado disse assim: a senhora sabe quem foi que fez o seguro? Eu digo: eu não sabia. Não sabia porque ele não me dizia nada. Ele não sabia ler, não sabia escrever, nem sabia fazer o nome dele. Ele era analfabeto, que nem eu".

Jorge dos Santos e Ronaldo dos Santos trabalhavam como vigia e morreram entre o final de 2024 e o início de 2025, em casos suspeitos de picada de cobra e afogamento. Eles teriam contratado seguro de vida poucos meses antes e morreram logo após o período de carência.

Os nomes de Jorge e Ronaldo, inclusive, aparecem registrados como proprietários de algumas das empresas de fachada apontadas pela polícia em esquema de fraude contra a Caixa Econômica Federal. O empresário, que foi preso preventivamente, também foi o declarante da certidão de óbito no caso do falecimento de Jorge.

"(Causa da morte?) Eu queria saber de que foi, porque até hoje ninguém sabe. (A empresa deu assistência?) Ele só cumpriu com o velório, somente. (E o amigo que morreu depois?) Conhecia de vista, porque quando ele vinha para cá, vinha chamar ele, que o patrão estava chamando. [...] Dois segurados... Morrer assim... (No caso do Ronaldo, foi afogamento?) É, dizem que foi. A família dele (Ronaldo) acho que foi ouvida na delegacia. (O que você pensa sobre isso?) Eu não penso nada. Já morreu. Não fico pensando em nada. Gostava muito dele. Fui na delegacia, disse o que ele era e não era, que só era trabalhador mesmo. Não tinha nada", respondeu a pessoa da família de Jorge ao terminar a entrevista.

Uma última informação também foi revelada à reportagem da TV Pajuçara pela família: Jorge teria aprendido a escrever apenas o próprio nome e quem teria ensinado foi o patrão. O documento de identificação de Jorge foi tirado em agosto, no mês que foi feito esse seguro de vida.

Reprodução / TV Pajuçara

 

Como funcionava o esquema?

Segundo a polícia, o empresário abria as empresas e as colocava em nomes de laranjas. Com ajuda de um gerente da Caixa, ele contratava empréstimos junto ao banco, que ficava no prejuízo sem os pagamentos, já que as empresas eram de fachada.

A polícia investiga também a participação de uma mulher, que chegou a ser beneficiada em um dos casos, e também de outros empresários suspeitos. O núcleo do esquema funcionava em Coruripe, no Litoral Sul de Alagoas.

O empresário, o gerente do banco e algumas das pessoas identificadas como laranjas foram indiciadas por organização criminosa, fraude documental e crime contra instituição bancária.

As investigações sobre as mortes suspeitas nos casos de fraude nas apólices de seguro de vida foram remanejadas pela PF para a Polícia Civil de Alagoas.

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