Vitor Moreno/Folhapress
"Não tenho pressa, mas também não tenho medo, não", diz John Malkovich, 72, sobre a morte. "Sinceramente, tive uma vida inacreditável, absurdamente boa. Tenho netas pequenas, então vou lamentar o tempo que não poderei passar com elas. Mas tive uma vida muito privilegiada."
LEIA TAMBÉM
O assunto vem a reboque de seu novo filme, a comédia ácida "Cavalo Selvagem Nove", que estreou nesta semana nos cinemas brasileiros. No longa, escrito e dirigido por Martin McDonagh, ele interpreta Chris, um homem que está com os dias contados por causa uma doença terminal.
O personagem também parece um tanto desorientado por causa das doses de morfina que aplica no corpo para suportar as dores provocadas pela enfermidade. O problema é que Chris é agente da CIA, a agência de inteligência americana, que está no Chile em 1973 como parte da articulação para derrubar o presidente Salvador Allende (1908-1973).
"Chris é alguém que está no fim da vida --ele está morrendo e partirá em breve", conta o intérprete. "Ele é uma espécie de história ambulante da CIA. E, naquela época, isso provavelmente lhe conferia certo respeito, mas, no período em que o filme se passa, ele próprio começa a questionar o mérito daquilo a que dedicou sua vida adulta."
Segundo o ator, no entanto, não é um filme sobre redenção. "Não acho que Chris tenha ilusões sobre o que fez", explica. "Não diria que ele está particularmente interessado ou empenhado em se justificar. Acho que ele está apenas refletindo. Essa reflexão poderia ter começado mais cedo em sua vida, mas receio que, às vezes, é assim mesmo que acontece."
O golpe que derrubou Allende, como se sabe, implantou uma ditadura militar que durou 17 anos no país. Malkovich conta que era familiarizado com a história do país sulamericano por causa do espetáculo "The Infamous Ramirez Hoffman", em que recitava um capítulo do livro "A Literatura Nazista nas Américas", do chileno Roberto Bolaño (1953-2003).
Apesar disso, ele não acha que o longa será compreendido apenas por quem conhece o que ocorreu no período. "Eu diria que um ser humano é capaz de compreender o que aconteceu no Chile, por exemplo, e por que isso importa", avalia.
"É claro que os chilenos terão determinada perspectiva sobre o assunto --dependendo do chileno, obviamente--, e talvez sintam isso mais profundamente, em alguns aspectos", afirma. "Mas acho que os seres humanos conseguem sentir a dor, a tristeza, o sofrimento, o trauma do que acontece com outros seres humanos."
Na trama, Chris é acompanhado pelo colega Lee, vivido por Sam Rockwell, 58, para uma viagem na Ilha de Páscoa, onde pretende se despedir da vida. Contudo, como vem se esquecendo de várias coisas, ele deixa anotado em um bilhete que não deve confiar no parceiro.
Aos poucos, o filme vai desvelando melhor a relação entre os dois, que é posta à prova durante os dias que eles passam no local. "No fundo, o filme tratava dessa amizade entre pai e filho, tio e sobrinho, e todo o resto funciona um pouco como pano de fundo", afirma Rockwell.
O ator antecipa o grande conflito de seu personagem. "Lee é um profissional da CIA que está tentando levar seu trabalho até o fim", comenta. "Ele está tentando cumprir sua missão, enquanto procura seguir as regras e fazer o que o chefe lhe manda. Sem falar na esposa, com quem está em desacordo. Então ele é pressionado várias vezes até que, por fim, simplesmente explode."
Rocwell diz ter uma queda por esse tipo de personagem, que ele classifica como anti-herói. "Acho que nem todos são fáceis de gostar", avalia. "Porém, sempre sinto empatia por meus personagens, mesmo que façam coisas questionáveis. Acho que preciso encontrar a humanidade neles, sabe?"
Outro destaque do elenco é Mariana di Girolamo, 36, que vive Monica, uma jovem idealista que conhece a dupla de agentes durante a viagem. Chilena, a atriz conta que nasceu em 1990, ano em que a democracia foi retomada no país, mas que seus pais e avós viveram o período da ditadura.
"Acho muito significativo o fato de Martin ter querido uma atriz chilena para esse papel", comemora. "Todo mundo quer participar de um filme de Martin McDonagh. Mas ele insistiu em uma atriz chilena, em atrizes latino-americanas. E acho que esse gesto, essa decisão, tem muito valor."
Ela diz que, por meio da comédia, abordam-se assuntos muito sérios no filme. "Embora seja ficção, possa entreter, vá fazer você rir e, espero, emocionar, o filme é uma boa maneira de manter essas conversas vivas, tanto na mente quanto no coração", afirma. "E acho que ele não trata apenas do Chile, mas de todas as ditaduras da América Latina, e inclusive dos dias de hoje."
McDonagh, 56, concorda com essa visão. "Gosto de filmes que entretêm e acho que é possível ensinar mais às pessoas sobre história e política por meio de uma história empolgante do que por meio de algo didático ou penoso", avalia. "Espero que mais pessoas conheçam, por meio desta comédia de humor ácido, o que a CIA estava fazendo naquela época."
Ele diz que começou a pensar na trama há 15 anos, quando visitou a Ilha de Páscoa. "Tentei criar uma história ambientada lá", lembra. "E pensei em uma relação entre pai e filho, com um homem mais velho e doente indo até lá como uma espécie de última viagem."
Faltava, contudo, alguma coisa. "O conhecimento de que a CIA havia desestabilizado e ajudado a derrubar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende no Chile sempre me horrorizou, desde a adolescência", conta. "Foi só quando juntei essas duas ideias que a história surgiu e, a partir daí, ela quase se escreveu sozinha."
Ao contrário dos cineastas que deixam a interpretação de suas obras exclusivamente para o público, McDonagh não hesita em assumir que o longa, sim, tem um posicionamento claro. "O filme definitivamente trata de uma superpotência interferindo em um Estado soberano menor", diz.
"Uma das coisas de que gosto no filme é que ele está do lado do mais fraco. Está do lado do Chile. E acho bom deixar isso claro", comenta. "Como britânico de origem irlandesa, acho que é bom ficar atento às superpotências e ao imperialismo --e lutar sempre.
"CAVALO SELVAGEM NOVE"
Quando: Em cartaz nos cinemas
Classificação: 16 anos
Elenco: John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi, Parker Posey, Mariana di Girolamo, Ailín Salas e Tom Waits, entre outros.
Direção: Martin McDonagh
LEIA MAIS