Revista Galileu
Uma substância pegajosa extraída da casca de bétulas (uma árvore de clima temperado, típica do hemisfério norte) pode ter desempenhado um papel muito mais sofisticado na vida dos neandertais do que se imaginava até então. Além de funcionar como cola para ferramentas, o chamado “alcatrão de bétula” pode ter sido utilizado como um tratamento eficaz contra infecções — um tipo de antibiótico primitivo, segundo um estudo publicado na quarta-feira (18) na revista PLOS One.
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A pesquisa, liderada por Tjaark Siemssen, professora das Universidades de Colônia (Alemanha) e Oxford (Reino Unido), parte de uma observação já conhecida na arqueologia de que vestígios de alcatrão de bétula são frequentemente encontrados em sítios neandertais. Tradicionalmente associado à fabricação e ao reparo de ferramentas, o material agora passa a ser investigado sob uma perspectiva medicinal.
Essa hipótese não surge do nada. Comunidades indígenas do norte da Europa e do Canadá utilizam há séculos o alcatrão de bétula no tratamento de feridas, prática que inspirou os pesquisadores a explorar se os neandertais poderiam ter feito o mesmo. Nos últimos anos, evidências crescentes também têm desafiado a antiga visão desses hominídeos como menos avançados, revelando comportamentos complexos, como o cuidado com indivíduos doentes, e até manifestações artísticas.
Replicando técnicas pré-históricas
Para testar o potencial terapêutico da substância, os cientistas reproduziram métodos de extração que estariam ao alcance dos neandertais. Utilizando cascas de espécies de bétula presentes em sítios arqueológicos, eles produziram o alcatrão por meio de técnicas como a destilação em fossas de argila e a condensação em superfícies de pedra.
Os resultados foram consistentes: todas as amostras obtidas demonstraram capacidade de inibir o crescimento de bactérias do gênero Staphylococcus sp., frequentemente associadas a infecções em feridas. Isso sugere que o material não apenas poderia ter sido usado para fins médicos, como também seria eficaz nesse papel.
“Descobrimos que o alcatrão de bétula produzido por neandertais e humanos antigos tinha propriedades antibacterianas”, afirmam os autores do estudo, em comunicado. “Isso tem implicações importantes sobre como esses grupos podem ter reduzido o impacto de doenças durante as últimas eras glaciais.”
Implicações para a compreensão do grupo
O estudo reforça a ideia de que práticas de cuidado com a saúde já estavam presentes em sociedades pré-históricas. Para os cientistas, esse tipo de conhecimento pode ter sido transmitido culturalmente e integrado ao cotidiano dessas populações, ampliando a compreensão sobre sua organização social e capacidade cognitiva.
Além do uso medicinal, o alcatrão de bétula pode ter servido como repelente de insetos, indicando uma versatilidade ainda pouco explorada. Os autores destacam que investigar o uso de substâncias naturais na pré-história — campo conhecido como “paleofarmacologia” — pode trazer contribuições relevantes inclusive para desafios contemporâneos.
Em um cenário de crescente resistência antimicrobiana, revisitar soluções antigas pode abrir caminhos inesperados. “Esse tipo de estudo pode contribuir para a redescoberta de remédios antibióticos enquanto enfrentamos uma crise cada vez mais urgente de resistência antimicrobiana”, observam os pesquisadores, no comunicado.
Por mais que ainda sejam necessárias mais investigações para confirmar o uso sistemático do alcatrão como tratamento pelos neandertais, o estudo adiciona uma peça importante ao quebra-cabeça de sua cultura. Longe da imagem de seres rudimentares, esses grupos parecem ter dominado técnicas complexas.
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