Nem todo desconforto com leite é intolerância à lactose

Publicado em 10/07/2026, às 23h10
Imagem meramente ilustrativa - Pixabay

Luiza Souto / Folhapress

Ler resumo da notícia

Gases, estufamento ou diarreia após consumir leite levam muita gente a concluir, por conta própria, que tem intolerância à lactose —e a retirar os lácteos da dieta sem diagnóstico médico. No entanto, o desconforto pode ter outras causas, incluindo a alergia à proteína do leite de vaca e uma possível sensibilidade a um peptídeo formado durante a digestão, a beta-casomorfina-7 (BCM-7).

LEIA TAMBÉM

O gastroenterologista Leandro Gonzales, do Centro Edson Bueno, relata que é rotina receber pacientes que chegam ao consultório afirmando serem "intolerantes à lactose" por associarem o consumo da bebida a gases ou dores.

"O problema é que sintomas como estufamento e alteração intestinal podem estar relacionados à hipersensibilidade visceral, ao volume de leite ingerido, ao teor de gordura da bebida e à velocidade do esvaziamento gástrico", afirma o especialista em doenças inflamatórias intestinais.

Gonzales alerta que a retirada do leite e de seus derivados da alimentação sem diagnóstico médico adequado acarreta riscos nutricionais e sociais, além de atrasar a investigação de outras doenças.

Um estudo da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), com 100 voluntários, em 2020, mostrou que 35 afirmavam ter alergia alimentar, mas apenas 10 tiveram resultado positivo no teste cutâneo.

A coordenadora do Departamento Científico de Alergia Alimentar da Asbai, Jackeline Motta Franco, explica que a prevalência exata da alergia alimentar no Brasil é desconhecida, sobretudo pela escassez de estudos nacionais e pela diversidade metodológica entre eles.
Segundo ela, o diagnóstico deve considerar histórico clínico, exames cutâneos e sorológicos e, quando indicado, o teste de provocação oral, antes da retirada de alimentos da dieta.

No mundo, pesquisas apontam um aumento na prevalência de alergias alimentares, afetando hoje de 6% a 8% das crianças e 2% a 4% dos adultos. Leite e seus derivados, ovos, soja, amendoim, castanhas, peixes, crustáceos, trigo e gergelim respondem pela maior parte das reações.

Uma revisão publicada na revista científica JAMA Pediatrics neste ano —que reuniu 190 estudos em diferentes países— reforça a associação entre o parto cesáreo, o histórico familiar e o uso precoce de antibióticos com o maior risco de desenvolver alergias alimentares.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia (UCLA) destacaram que esses fatores alteram a microbiota intestinal logo no início da vida da criança, prejudicando a barreira de proteção do intestino e favorecendo o surgimento do problema.

ENTENDA AS DIFERENÇAS

Antes de mais nada, é preciso diferenciar a intolerância à lactose, a alergia à proteína do leite de vaca e um desconforto associado ao leite.

Na intolerância à lactose, o problema está na deficiência da enzima lactase, responsável por digerir o açúcar do leite. Nesses casos, o leite zero lactose costuma resolver os sintomas.

Já na alergia à proteína do leite de vaca (APLV), ocorre uma reação do sistema imunológico contra proteínas presentes no alimento. Os sintomas podem atingir pele, intestino e sistema respiratório e, em situações graves, provocar anafilaxia. Nesses pacientes, não se pode consumir nenhuma bebida de origem bovina, incluindo zero lactose.

Existe ainda uma terceira hipótese, estudada por pesquisadores: a de que parte das pessoas possa apresentar sensibilidade à proteína beta-caseína A1, presente no leite convencional.

Durante a digestão dessa proteína pode ser formado o peptídeo BCM-7, associado, em alguns estudos, ao desconforto digestivo em pessoas sensíveis. O leite A2, nesse caso, pode ser uma alternativa, já que é produzido por vacas geneticamente selecionadas que sintetizam apenas a proteína A2 e, por isso, praticamente não forma esse peptídeo durante a digestão.

Segundo a FairFood, empresa responsável pela certificação desse segmento no país, a produção de leite A2 passou de 9,5 milhões de litros em 2023 para 28,1 milhões em 2025, com expectativa de crescimento de cerca de 28% até o fim de 2026.

Na hora da compra, porém, é preciso atenção às embalagens, alerta Flávia Fontes, CEO da FairFood. "É preciso procurar pelo selo de certificação que garante a origem e a rastreabilidade das vacas A2A2", ensina.

"FOI UM DIVISOR DE ÁGUAS"

O filho do pneumologista Humberto Bogossian, 54, começou a apresentar episódios de diarreia e a sensação de "leite parado na barriga" no início da adolescência. Exames descartaram intolerância à lactose e, por orientação médica, a família retirou o leite da alimentação.

A mudança aconteceu quando o adolescente, hoje com 15 anos, experimentou o leite A2 e percebeu que conseguia consumi-lo sem o mal-estar que sentia antes. Com acompanhamento profissional, voltou a incluir a bebida na rotina. "É importante não ficarmos só com a leitura da internet, que pode colocar o leite como um vilão que ele não é", alerta Bogossian.

O personal trainer Paulo Henrique dos Santos, 28, passou por experiência semelhante. Diabético, começou a sentir estufamento há cinco anos e retirou o leite da alimentação por conta própria. Há seis meses, após indicação de uma aluna, passou a consumir leite A2 e afirma não ter voltado a sentir desconforto. "Vejo muitos alunos demonizando os lácteos sem saber exatamente qual é o problema. O leite é um alimento importante. Se houver uma alternativa, vale muito testar", diz.

A nutricionista Luiza Zanatta acompanhou o processo que resultou no reconhecimento, pela Anvisa, da alegação funcional dos produtos A2. Desde 2021, os rótulos podem informar que esse leite não promove a formação da BCM-7 durante a digestão.

Ela reforça que a troca para o leite A2 não necessariamente resolve todos os sintomas. "O principal aprendizado é que o diagnóstico não deve ser baseado em tentativa e erro nem em tendências das redes sociais. É fundamental identificar a causa do desconforto para que cada pessoa encontre a estratégia mais adequada."

"O aspecto positivo é que hoje existem mais opções disponíveis no mercado, permitindo que muitas pessoas continuem consumindo leite e derivados e aproveitando seus benefícios nutricionais, sem necessariamente excluir essa categoria alimentar da dieta", finaliza Luiza.

Gostou? Compartilhe

LEIA MAIS

Anvisa inclui Ozivy, caneta brasileira de semaglutida sintética, na lista de referência para genéricos Vacinas contra covid-19 serão atualizadas contra novas variantes Poluição do ar pode comprometer a fertilidade masculina, sugere estudo Anvisa atualiza composição de vacinas contra Covid para acompanhar variantes em circulação