Novo primata descoberto em floresta na África pode já estar ameaçado de extinção

Publicado em 17/07/2026, às 21h21
- Daniel Rosengren/Sociedade Zoológica de Frankfurt

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Nas florestas remotas do Parque Nacional de Lomami, na República Democrática do Congo, uma equipe internacional de cientistas confirmou a existência de uma espécie de macaco até então desconhecida pela ciência. O animal, que ganhou o nome cietífico de Colobus congoensis, é chamado pelas comunidades locais de "likweli". Ele se destaca por pelagem preta e brilhante, uma mancha alaranjada marcante ao redor da boca e pesa cerca de 7 kg — aproximadamente o tamanho de um cão pequeno.

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A descoberta, descrita em um artigo publicado na quarta-feira (15) na revista PLOS One, é considerada um dos eventos mais raros da primatologia moderna, já que se trata apenas da quinta nova espécie de macaco africano identificada nos últimos 75 anos. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Atlântica da Flórida, da Lukuru Wildlife Research Foundation, da Universidade Yale, da Universidade da Cidade de Nova York, além de equipes do Parque Nacional de Lomami e da Sociedade Zoológica de Frankfurt.

Mesmo já sendo formalmente descrita, a espécie corre risco de desaparecer, devido, sobretudo, à sua distribuição geográfica extremamente restrita, ao pequeno tamanho da população, à perda de habitat e à pressão da caça. Por isso, os cientistas recomendam que o Colobus congoensis seja classificado como “em perigo” na Lista Vermelha da UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) — organização que avalia o grau de ameaça de extinção de espécies ao redor do mundo.

“O achado de Colobus congoensis é tanto um triunfo científico quanto um lembrete preocupante de que algumas das criaturas mais raras da Terra podem desaparecer antes mesmo que o mundo saiba que elas existem", afirma Kate Detwiler, professora da Universidade Atlântica da Flórida e autora sênior do estudo, em comunicado à imprensa.

Quase duas décadas até a confirmação

A história da descoberta começou em 2008, quando uma equipe de pesquisa que explorava a floresta capturou a primeira fotografia conhecida do animal. No caso, tratava-se apenas de uma imagem borrada e parcialmente obscurecida, que não permitia identificar a espécie com clareza. “Havia, porém, algo de 'estranho' em seu rosto”, lembra o biólogo Junior Amboko, coautor do estudo, em entrevista à revista Scientific American.

O macaco só voltou a ser avistado por cientistas dez anos depois, em novembro de 2018, quando o pesquisador de campo Jean Pierre Kapale, da Lukuru Wildlife Research Foundation, conseguiu capturar uma fotografia muito mais nítida do animal. O achado deu início a novas buscas: nos dez meses seguintes, a equipe de Kapale realizou patrulhas dedicadas à localização do macaco, o que resultou em mais sete avistamentos.

Em 2020, Amboko e colegas lançaram o "Projeto Likweli", uma iniciativa voltada a classificar cientificamente o misterioso primata. Entre 2018 e 2022, a equipe registrou ao todo 114 avistamentos do animal, em uma área de apenas 1.700 km² entre os rios Lomami e Lualaba — uma extensão excepcionalmente pequena para uma espécie de macaco colobo, gênero de primatas da África Ocidental e Central caracterizado pela ausência de polegares.

Aparência única

Fisicamente, o Colobus congoensis se distingue de outros macacos colobos por um conjunto de características únicas:

Outro traço marcante da espécie é sua vocalização. Os “rugidos” do likweli são profundos e ressonantes, lembrando os de outras espécies de colobos, mas com uma estrutura acústica própria. O som é descrito pelos cientistas como uma mistura entre o grunhido de um sapo e o bufar de um porco.

Segundo Detwiler e Amboko, os animais também chamam atenção pelo comportamento. “Quando encontramos um grupo, os macacos geralmente não fogem como muitos outros primatas fazem. Em vez disso, eles sobem mais alto na copa das árvores e simplesmente nos observam. Muitas vezes parece que estamos nos estudando”, detalham os pesquisadores.

Estudo genético da espécie

A confirmação de que likweli era, de fato, uma espécie nova, e não apenas uma variação de um macaco já conhecido, só veio com as análises genéticas de amostras de tecido, coletadas inclusive de animais mortos confiscados do comércio ilegal de carne de caça no parque. Os resultados surpreenderam a própria equipe.

“Ficamos chocados com os dados genéticos, pois eles indicaram uma profunda divergência no grupo dos primatas”, relata Detwiler à Scientific American. O parente vivo mais próximo do Colobus congoensis é o colobo-preto (Colobus satanas), uma espécie que vive a mais de 1.200 km de distância, na região centro-oeste da África. As duas linhagens, no entanto, se separaram há cerca de 4 a 5 milhões de anos, sendo, inclusive, um dos afastamentos evolutivos mais antigos já registrados dentro do grupo dos colobos.

As análises anatômicas, feitas com a comparação de crânios e peles do novo macaco com espécimes de outras espécies de colobos africanos guardados em coleções de museus, reforçaram as conclusões genéticas. “Comparamos os crânios e peles de C. congoensis com outras espécies de colobíneos africanos, o que reforçou a singularidade desta nova espécie”, destaca Julia Arenson, pesquisadora em Yale e coautora do estudo.

Nome homenageia o país

A escolha do nome científico não foi aleatória. Segundo os pesquisadores, o Colobus congoensis é o primeiro primata batizado em homenagem à própria República Democrática do Congo. “Esta descoberta é emocionante e profundamente pessoal, destacando a extraordinária biodiversidade da minha terra natal e o quanto ainda permanece sem ser documentado”, relata Junior Amboko, que é natural do país e explorador da National Geographic. “Foi uma honra nomear a espécie 'Colobus congoensis', reconhecendo o notável patrimônio natural da Bacia do Congo.”

Localmente, porém, o animal já tinha nomes próprios muito antes de ganhar uma classificação científica. As comunidades da etnia balanga o chamam de "likweli", enquanto os mituku, que habitam a porção leste da área de distribuição da espécie, o conhecem como "kasaba nkoni" — expressão que significa "o agitador de galhos".

Curiosamente, apesar de tão próximo das populações humanas, o macaco é praticamente desconhecido até mesmo entre moradores da região. Os pesquisadores conversaram com habitantes de 52 aldeias no entorno do Parque Nacional de Lomami e constataram que apenas oito delas reconheciam a espécie ou conseguiam descrevê-la com precisão. Tal fato é um indício de como o animal é raro e esquivo, já que essas mesmas comunidades demonstram amplo conhecimento sobre outros primatas da região, ressalta a revista Smithsonian.

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