Novo remédio contra Alzheimer pode custar até R$ 11 mil por mês no Brasil

Publicado em 17/04/2026, às 14h09
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PATRÍCIA PASQUINI/Folhapress

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A CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), órgão vinculado à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), divulgou nesta sexta-feira (17) o preço do lecanemabe, medicamento indicado para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial e comprometimento cognitivo leve.

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Um mês de tratamento com aplicação endovenosa a cada 15 dias para um paciente com o peso médio de 70kg, custará R$ 8.108,94, desconsiderando taxas e impostos. Aplicando uma alíquota de 18% (caso da maioria dos estados), o valor chega a R$ 11.075,62. Comercializado pelo nome de Leqembi, o medicamento é fabricado pela empresa japonesa Eisai em parceria com a Biogen.

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal que tem como alvo a beta-amiloide. A proteína se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer anos antes do início dos sintomas, progride e está associada à evolução de todo o processo patológico da doença. As evidências indicam que o remédio reduz a velocidade de progressão da doença, mas não promove a melhora dos sintomas.

Aprovado pela Anvisa em 22 de dezembro de 2025, o medicamento deve chegar ao mercado brasileiro no final de junho.

A ação do lecanemabe tem como alvo as protofibrilas de beta-amiloide, que se acumulam e causam a morte dos neurônios. A protofibrila é a forma tóxica da proteína.

"O diferencial do medicamento é o duplo mecanismo de ação: remove as placas de beta-amiloide e neutraliza a cascata de neurotoxicidade que alimenta a progressão da doença", diz Tatiana Branco, diretora da área médica da Biogen no Brasil.

O neurologista Paulo Caramelli, professor da faculdade de medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que o estudo de fase 3 para investigar a eficácia e segurança do lecanemabe observou que doentes com Alzheimer em fase inicial, demência leve ou comprometimento cognitivo leve, tratados ao longo de 18 meses tiveram uma redução de 27%, em média, na velocidade de progressão da doença em relação a quem recebeu o placebo.

"E a magnitude desse efeito [do lecanemabe] não é gigantesca. Alguns modelos matemáticos estimam que, em um ano e meio, é como se as pessoas tivessem ganhado alguns meses ao longo do período de tratamento", completa Caramelli.

Outro ponto são os efeitos adversos, edema e hemorragia cerebral. A população de maior risco para os efeitos colaterais é aquela com um tipo genético chamado apolipoproteína E4.

"No Brasil, corretamente a meu ver, a Anvisa não aprovou a medicação para esse subgrupo porque o risco de efeitos colaterais é muito maior. Fora esse grupo, a possibilidade de eventos adversos é da ordem de 5% a 11%."

De acordo com Paulo Caramelli, alguns exames devem ser solicitados antes da prescrição do tratamento, como o estudo do genótipo apolipoproteína E, embora não seja coberto pelo SUS, o procedimento é simples e está disponível em laboratórios privados.

Também é obrigatória uma ressonância magnética feita até um ano antes do início do tratamento. O objetivo é se certificar de que não há lesão hemorrágica, nem alterações cerebrais que impeçam a terapia. Outro critério de exclusão são os anticoagulantes —o paciente não pode utilizar esse tipo de medicação.

Segundo Rodrigo Nascimento, diretor médico da Eisai no Brasil, a CMED tem regras para a precificação que consideram desde a categoria do remédio até um comparativo com países onde o produto já é comercializado, além de benefícios clínicos e evidências científicas.

"O medicamento é inovador, usa uma tecnologia para o desenvolvimento durante décadas de estudo. É uma terapia nova. Quando juntamos os fatores. a inovação que ele traz, o quanto você precisa para o desenvolvimento dessas moléculas altamente complexas do ponto de vista de tecnologia e como os órgãos reguladores precificam, ele acaba tendo esse valor", diz Nascimento.

Por ser um anticorpo monoclonal, é necessário acompanhamento médico durante o tratamento. De administração intravenosa, o lecanemabe é prescrito em unidades hospitalares ou centros de infusões. São feitas duas aplicações ao mês, a cada 15 dias, na dose de 10 mg por quilo de peso do paciente.

"A notícia mais importante é que, pela primeira vez, essas medicações [lecanemabe e donanemabe, aprovado em 2025] mostram um caminho possível de remédios que atuam em mecanismos biológicos básicos essenciais da doença. É um alvo que deve ser perseguido. Cada vez mais devem surgir medicações mais potentes para esses alvos terapêuticos e quem sabe com perfil de segurança ainda melhor", diz o neurologista Paulo Caramelli.

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