Ana Cora Lima / Folhapress
Durante décadas, o público acostumou-se a ver Nuno Leal Maia, 77, ocupando o posto de galã das novelas brasileiras. Intérprete de personagens marcantes em sucessos como "A Gata Comeu", "Top Model", "Mandala" e outras 20 tramas e cinco minisséries, o ator se tornou um dos rostos mais populares da televisão nos anos 1980 e 1990.
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Por isso, a revelação feita por ele à Folha de S.Paulo causa surpresa: apesar da trajetória consagrada, nunca foi um grande fã do gênero. "Não gosto. Nunca gostei, e praticamente não assisto mais", afirma.
Nuno fala sobre o assunto sem rodeios. Diz que raramente assistia às produções das quais participava e admite que sempre se sentiu mais atraído pelo cinema do que pela televisão. Formado em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), o ator conta que o teatro teve papel fundamental em seu autoconhecimento, enquanto a paixão pelas telas foi moldada pela admiração ao neorrealismo italiano e a cineastas como Federico Fellini.
Longe dos palcos há 11 anos, o ator retorna ao teatro com 'Meno Male', texto de Juca de Oliveira, no qual interpreta Nicola, um taxista italiano falido que vê sua vida mudar após um acidente de trânsito envolvendo um político corrupto. Em entrevista, ele relembra a carreira, fala sobre a passagem pelo futebol profissional, critica as novelas atuais e explica por que a fama jamais foi sua principal motivação.
Por que aceitou voltar ao teatro depois de 11 anos da sua última peça, "O Abajur Lilás", de Plínio Marcos?
"Aceitei por vários motivos. Primeiro, pelo sucesso que "Meno Male", do Juca de Oliveira, já teve com grandes atores. E também porque sempre tive vontade de interpretar um personagem italiano. Quando recebi o convite para viver Nicola, achei muito interessante".
Quem é Nicola?
"Nicola é um taxista italiano falido, morador da tradicional Mooca, conhecido pelo temperamento explosivo e pelos fortes valores familiares. Um acidente de trânsito conecta sua vida à de um político corrupto que ocupa o cargo de secretário de Estado".
Foi uma opção sua ficar tanto tempo longe dos palcos?
"Não. Eu vinha atuando mais em séries e no cinema. Filmei bastante nos últimos anos: "Como Hackear seu Chefe" (2021), "Monte Serrat" (2021), "La Mamma" (2022), "Trópico de Leão" (2025) e, mais recentemente, gravei "Sangue de Groselha", que ainda é inédito".
Então você gosta mais de fazer cinema?
"Gosto. Estudei cinema na ECA da USP e sou fã do neorrealismo italiano. Gosto muito de Fellini e de acompanhar grandes atores, como Robert De Niro e Mickey Rourke. Mas o teatro foi muito importante para o meu autoconhecimento".
E novelas?
"Não gosto. Nunca gostei e praticamente não assisto mais".
Como assim?
"Na verdade, gostei de algumas novelas, como "Roque Santeiro" (1985), por exemplo. "Mandala" (1987) também foi uma produção muito bacana. Tem também "A Gata Comeu" (1985), que foi uma novela que eu nem queria fazer. O diretor Herval Rossano insistiu muito. Depois, acabei agradecendo, porque foi um personagem delicioso e um enorme sucesso".
Mas você entrou na Globo para fazer novelas?
"Sim. Entrei para trabalhar em "Estúpido Cupido" (1976), a convite do autor Mário Prata. Gostei de fazer, foi bacana, mas logo depois fui para a linha de shows. O Stênio Garcia me chamou e disse que aquilo era uma escola. E realmente era. Trabalhei com Chico Anysio, Paulo Silvino, Jô Soares e muita gente talentosa. Foi uma experiência sensacional. Eu gostava muito de fazer humor. Depois disso, começaram a me chamar novamente para novelas.
Você foi considerado um galã e sex symbol nos anos 1980. Isso incomodava?
"Nunca me preocupei com isso. As pessoas falavam, mas eu seguia meu caminho. O importante sempre foi o trabalho.
O que mais o incomodava ao fazer novelas?
"Muitas vezes você gravava cenas importantes e elas acabavam cortadas. Isso me frustrava bastante".
Se recebesse um convite hoje, aceitaria fazer novamente?
"Dependeria do projeto. Sou ator e estou aberto a tudo. Mas as novelas de hoje são mais fracas do que antigamente. Há poucos autores realmente fortes. Precisaria ser algo interessante e que me desse liberdade para criar".
Além da atuação, você teve uma experiência curiosa no futebol. Foi jogador das categorias de base do Santos e depois treinador do São Cristóvão, Botafogo-PB e Londrina...
"Fui. Adoro futebol e, embora não vá mais aos estádios, acompanho tudo pela televisão. Série A, Série B... Minha experiência no futebol foi uma tentativa de desenvolver um trabalho baseado no futebol-arte, inspirado na geração de Pelé e naquele Santos histórico. Hoje em dia isso não funciona mais, mas naquela época eu ainda acreditava que o futebol arte pudesse prevalecer".
E, por falar em futebol, o que acha da seleção brasileira?
"Acho que o time está fraco, principalmente na defesa. O Ancelotti ainda não conseguiu acertar esse setor, e acho que nem vai. Com a defesa atual, o Brasil não vai muito longe em uma Copa do Mundo".
O que as pessoas costumam dizer quando o encontram na rua?
"Cada um lembra de um trabalho diferente. Tem gente que fala de "Top Model", outros de "A Gata Comeu", outros lembram do futebol. É curioso porque muitas pessoas falam como se fossem amigas antigas".
A fama nunca pesou para você?
"Nunca. Minha preocupação sempre foi o trabalho. A fama é passageira".
O que te dá mais prazer hoje?
"Estar no mar ou em uma boa cachoeira. Gosto muito da natureza".
Como é sua vida fora do trabalho?
"Eu me divido entre Rio de Janeiro, São Paulo e Santos, onde nasci. Sou casado com a atriz Mônica Camillo desde 2001 e nós optamos por não ter filhos. Somos apenas nós dois e muito felizes assim".
Pergunta inevitável: você mantém contato com Vera Fischer, sua parceira em "Mandala", a quem chamava de "Minha Deusa"? O casal fez muito sucesso.
"Não. A última vez que a encontrei foi em algum evento, talvez uma peça ou o lançamento de um filme, mas isso já faz muitos anos. Ela é uma pessoa mais reservada".
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