O "Brasil do Futuro" ainda espera o presente

Publicado em 05/09/2026, às 19h00

Flávio Gomes de Barros

 

Texto de Luiz Xavier Gama, no portal "Diário do Poder":

"Em 1941, Stefan Zweig publicou ‘Brasil, País do Futuro’ e projetou para o mundo uma visão otimista sobre o destino nacional. Mais de oito décadas depois, a expressão continua atual porque traduz uma inquietação persistente. Poucas nações reúnem tantos atributos para prosperar; poucas também convivem há tanto tempo com a sensação de que suas promessas permanecem maiores do que suas realizações.

Tive a oportunidade de conviver com formuladores de políticas públicas em diferentes ambientes internacionais, o que reforçou minha percepção de que o Brasil era visto como uma potência em espera, dotada de recursos estratégicos, mercado robusto, capacidade produtiva e relevância geopolítica crescente. A dúvida nunca recaía sobre seu potencial, mas sobre sua capacidade de convertê-lo em resultados concretos para sua população. Talvez aí resida o paradoxo brasileiro.

Ao longo das últimas décadas, o Estado ampliou arrecadação, expandiu estruturas e concentrou recursos. Ainda assim, permanece a percepção de que se paga muito e se recebe menos do que o esperado. O principal desafio nacional não é a falta de recursos, mas a dificuldade de convertê-los em resultados. O Brasil sofre menos pela escassez e mais pela baixa eficiência institucional. Não se trata de uma discussão meramente técnica. Trata-se de decidir se o Estado continuará sustentando sua própria complexidade ou se concentrará esforços naquilo que realmente importa: gerar desenvolvimento e confiança.

Em diversos setores consolidou-se uma cultura excessivamente orientada para processos e formalidades. Criam-se exigências, mas raramente se formula a pergunta essencial: a vida do cidadão melhorou? O investimento realizado gerou retorno para a sociedade? Governos devem ser avaliados menos pela quantidade de estruturas que criam e mais pela qualidade das soluções que entregam. Essa lógica afeta toda a economia.

Burocracia excessiva, lentidão decisória e insegurança regulatória elevam custos, reduzem investimentos e comprometem a competitividade nacional. Por isso, reformas administrativas costumam ser mais relevantes para o futuro do país do que novas promessas de gasto. Um Estado eficiente é aquele que utiliza melhor os recursos que a sociedade lhe confia.

No Distrito Federal, essa discussão assume importância singular. Brasília concentra centros decisórios, universidades, instituições estratégicas e uma das maiores reservas de capital humano qualificado do país. Poucas regiões brasileiras reúnem, simultaneamente, capacidade de formulação, conhecimento técnico e acesso aos instrumentos que influenciam os rumos nacionais.

O desafio, porém, não está em ampliar a presença do Estado na economia local, mas em utilizar esse patrimônio intelectual para impulsionar novos setores produtivos. Tecnologia, defesa, serviços especializados e economia do conhecimento representam caminhos naturais para diversificar a base econômica do Distrito Federal e ampliar sua capacidade de gerar riqueza.
 

Para isso, será necessário criar um ambiente mais favorável ao investimento e ao empreendedorismo. Nenhum ciclo consistente de desenvolvimento surge apenas da ação governamental. Ele depende também da qualidade dos marcos regulatórios e da capacidade de formulação legislativa que orienta o ambiente econômico.

É nas instâncias de representação democrática que muitas das decisões capazes de estimular o desenvolvimento são construídas e acabam por sustentar o crescimento de longo prazo. Legisladores não são apenas responsáveis por produzir normas; também devem fiscalizar, estabelecer prioridades e criar as condições institucionais para que o Estado entregue resultados.

A reconstrução da eficácia do Estado exige visão estratégica, coragem reformadora e compromisso com resultados. E dificilmente haverá ponto de partida mais natural para essa tarefa do que Brasília, onde se definem não apenas os rumos da administração pública, mas também as regras, prioridades e decisões que determinarão a capacidade do Brasil de transformar potencial em realização."

 
 
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